Domingo, 23 De Setembro De 2018

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As Origens do Shazam – Parte 2. Jerry Ordway, 1994

Dando continuidade às origens do personagem Capitão Marvel, vamos conhecer uma história escrita e desenhada por Jerry Ordway: The Power of Shazam!, lançada nos EUA em 1994 e, dois anos depois, no Brasil, pela editora abril em “Shazam! A Origem do Capitão Marvel”

Obs: para compreender melhor as comparações deste texto, leia a parte 1 desta matéria clicando aqui.

44 anos dividem a Whiz Comics, revista que apresentou o personagem originalmente, desta reformulação do personagem por Jerry Ordway. Por isso, muitas das informações, elementos e personagens que aparecem nesta nova origem não são exatamente inéditas, quer dizer, não foram criadas por Jerry Ordway, pois foram introduzidas aos poucos, ao longo dos anos em centenas de revistas. Neste texto, vamos basicamente, comparar esse versão de Jerry Ordway com a versão original de 1940.

Na trajetória do Capitão Marvel percebemos que ele tornou-se desde muito popular até quase perdido no limbo da editora DC (um pouco enciumada com o sucesso do personagem que poderia equiparar-se ao seu Superman), mesmo nunca sendo esquecido pelo grande público, em parte pelos sucessos em outras mídias como desenhos animados e série de TV que se perpetuaram ao longo das décadas ao redor do mundo (eu mesmo tenho lembranças obscuras de ter assistido episódios de Shazam durante minha infância, nos anos 80).

 

Capa da Revista Zero Hora, um dos “reboots” da editora DC em meados dos anos 1990 e que permitiram a retomada do titulo “Shazam”.

 

O fato é que em 1994 a DC preparou um tipo de “reboot” no seu universo a partir da minissérie chamada “Zero Hora”, onde o desenhista Jerry Ordway teve grande participação e o universo DC teve várias origens recontadas e muitos títulos zerados ou reiniciados. Foi a chance do personagem voltar para os holofotes.

 

Capa de The power of shazam, de Jerry Ordway

The Power of Shazam! saiu no mesmo ano de Zero Hora e, em seguida, Jerry Ordway manteve uma série mensal do personagem que durou quase 4 anos. Mas nós vamos focar nossa análise apenas em The Power of Shazam!, a história da origem que é muito diferente daquela Whiz Comics de qual tratamos na parte 1 desta pesquisa.

 

Semelhanças e diferenças com a edição de 1940

Para começar, aquela Whiz Comics nº 1 era um mix com vários personagens sem nenhuma ligação aparente e, abrindo a revista, tínhamos apenas 15 páginas de Shazam, num desenho simples, tosco e barato, como eram comuns nesses tipos de publicação.

Graficamente, não dá para comparar a arte original com os desenhos de Ordway (apesar do autor utilizar os mesmos conceitos e designs do gibi de 1940), pois seu trabalho foi desenvolvido como uma graphic novel, quer dizer, não é um gibizinho mensal, foi pensada como uma história de início meio e fim, com um senso de unidade e totalidade e mais de 90 páginas de quadrinhos para desenvolver uma trama e introduzir elementos e personagens.

O primeiro desses elementos que salta aos olhos no trabalho de Ordway é a ligação direta dessa história com o Egito antigo, já que nas primeiras páginas somos apresentados ao Templo de Ramsés II, em Abu Simbel.

 

É interessante colocarmos essa informação porque isso nos dá uma ideia do momento quando essa origem se passa, já que um fato histórico curioso é citado pelo autor: o templo de de Abu Simbel, que foi transposto de um lugar para o outro.

 

Fachada do templo de Abu Simbel, a mesma que aparece nas primeiras páginas de The Power of Shazam!, na imagem anterior.

Sim! Todo esse enorme templo estava em outro lugar e foi desmontado de um ponto para outro, para um platô mais alto, evitando que fosse submergido por conta da construção de uma represa. Isso começou a ser pensado em 1959, teve início em 1966 e só foi concluído em 1968. Parte da trama da história gira em torno do trabalho arqueológico do Charlie Batson, pai de Billy, antes do início da transposição deste monumento, o que sugere que a história se passa entre 1959 e 1966.

 

Trabalho de reconstrução do templo de Abu Simbel, evitando que fosse submergido pela construção da represa de Assuan.

 

Logo no começo da HQ somos apresentados aos pais de Billy, Charles e Marilyn, arqueólogos que trabalham nas escavações em Abul Simbel. Eles são acompanhados por Adam e os três estão trabalhando a mando do Dr. Silvana, o financiador da expedição que está construindo um museu turístico na América, todo montado com elementos egípcios. O quadrinho, inclusive, levanta o problema que é o roubo de relíquias arqueológicas da história egípcia, que são patrimônios de seu país de origem, mas que são furtados por bandidos, como Dr. Silvana e Theo Adam.

Importante perceber a grande diferença entre o Dr. Silvana de 1940, uma espécie de cientista maluco do mal, capaz de criar armas para extorquir dinheiro com ameaças públicas para essa versão mais “madura”. Ordway aborda um Dr. Silvana como um empresário oportunista e ladrão de peças arqueológicas preciosas. Ainda assim, um assassino capaz de mandar liquidar quaisquer oponentes.

 

Na “origem original” de 1940, Dr. Silvana era um tipo de cientista maluco. Na versão de Ordway, ele é um excêntrico investidor e fanático por elementos egípcios, vinculado ao criminoso Theo Adam, assassino dos pais de Billy Batson.

 

Aqui, levantamos um ponto importante que diferencia as duas edições, justamente a participação de Adão Negro, que não aparece na Whiz Comic número 1, apenas cinco anos depois, na revista Marvel Family # 1, de dezembro 1945.

O Adão Negro original é chamado de Teth Adam, diferente de Theo Adam, na origem de Jerry Ordway.

 

No gibi de 1945, Teth Adam vivia no Egito Antigo e ganhou os poderes das mãos do próprio mago Shazam. Infelizmete, corrompe-se por ele, decidindo derrubar o faraó e reinar absoluto no Egito. Para resolver o problema, o mago condena Adam, jogando-o pelo espaço até próximo da estrela mais distante. Adão Negro passa 5 mil anos voando pelo espaço de volta para a Terra. Logo, nessas edições antigas da primeira metade da década de 1940, não existe a “versão reencarnada”, ou seja, o Theo Adam que vemos trabalhando ao lado do Dr. Silvana, no quadrinho de Ordway.

 

Theo Adam encontra um escaravelho nas escavações de Abul Simbel e, por conta dele, comete o assassinato dos pais de Billy. Tempos depois, ao encontrar com Capitão Marvel, em Fawcett City, Theo Adam consegue unir suas suspeitas sobre aquela figura poderosa, que era idêntica à Charlie Batson, e resolve tomar o escaravelho que estava com Dr. Silvana. Misteriosamente, Theo transforma-se em Adão Negro quando pronuncia a palavra mágica “Shazam”.

 

Ao longo do quadrinho, Theo Adam, transformado em Adão Negro,  comenta que conhece o mago Shazam há milênios e que governou o Egito, fazendo referência à história original de 1945. Isso sugere que a mente e a experiência de sua antiga encarnação, une-se numa só consciência, como se Theo e Teth fossem a mesma pessoa.

O curioso, entretanto, é que enquanto Billy Batson como Capitão Marvel ainda parece apenas uma criança que está aprendendo a usar a sabedoria de Salomão, Theo Adam recorda-se completamente de quem ele é, de fato, o próprio Adão Negro reencarnado.

Adão Negro tem um final diferente em ambas as edições. Em 1945, ele é enganado pela família Marvel em um truque bobo, forçando-o a pronunciar a palavra mágica que o faz voltar a ser Teth, um humano com mais de 5mil anos que cai, instantaneamente, mumificado no chão após ser atingido pelo raio e perdendo seus poderes.

Ordway, provavelmente não querendo matar o personagem logo em sua estreia, vincula os poderes de Theo ao amuleto mágico encontrado pelos arqueólogos.  Sem o amuleto, ele perde os poderes e o mago logo trata de arranca-lhe a voz através de um raio na garganta, que o deixa mudo e sem recordações de um dia ter se tornado Adão Negro. Dessa forma, Theo continua vivo, deixando aberta a possibilidade de um retorno futuro.

De maneira geral, Jerry Ordway mantém vários dos elementos apresentados na origem de 1940: temos um Billy Batson criança vendendo jornais numa esquina qualquer. Perdão! Na verdade não é uma esquina qualquer, pois é o cruzamento da rua Parker com a boulevard Binder, uma clara referência a C. C. Parker (um dos criadores do Capitão Marvel) e Otto Binder (responsável pelo surgimento de personagens como Mary Marvel e Adão Negro).

 

 

Outra curiosidade é o nome da cidade onde Billy vive: Fawcett, em homenagem à editora original do personagem. A cidade onde vive nosso herói carrega uma característica muito peculiar, segundo as próprias palavras de Jerry Ordway, “suas ruas parecem impregnadas de um ar atemporal”. Alguma coisa na cidade, e em todos seus habitantes, parecem ter parado nos anos 1950. Existe algo de inocente, uma áurea de era de ouro que circunda tudo, como uma magia do tempo.

Talvez esse seja um dos maiores problemas que o Capitão Marvel enfrente para funcionar nos dias de hoje. Sabe todo aquela conversinha sobre o Superman não agradar mais ao grande público, sedento de escuridão, maldade e dentes rangentes? Pois é, com o Capitão Marvel essa sensação é ainda pior: se nosso azulão é um “escoteiro”, Capitão Marvel é “lobinho”. Entretanto, Jerry Ordway sabe que essa é uma característica importante que não deve ser mudada, e sua história mantém esse clima de matinês no cine Majestic.

 

Este é nosso Billy Batson, um garoto esperto. Ele segue um estranho encapuzado até um trem estranho, da mesma forma que no quadrinho original. A diferença é que no final desta edição, Billy diz que, de alguma forma, sabia que a figura era o próprio pai, afinal, não seguiria um estranho qualquer até uma estação de metrô.

 

O trem mágico de Ordway que leva Billy até o mago Shazam é claramente copiado da versão original de 1940.

 

Em nenhum momento nesta nova origem o mago Shazam explica porque este garoto, especificamente, foi o escolhido. Apenas diz que o observa há um bom tempo, inclusive utilizando o mesmo historama que vimos no quadrinho original (veja o historama na parte 1 desta matéria).

 

O Historama de Shazam é muito parecido com o da versão original.

A identidade Billy x Shazam

Nesta versão de Jerry Ordway, quando Billy transforma-se em Capitão Marvel, não existe uma forte troca de personalidade nele. Ao contrário de Billy Batson na versão original, que parecia um homem altivo e sábio que havia trocado de lugar com o pequeno órfão.

 

Billy transformado pela primeira vez em Capitão Marvel, na versão de 1940, parece sério e centrado, quase sábio.

 

Nesse novo gibi, temos um Billy que se reconhece no corpo de um adulto mas que luta para aceitar essa nova condição. Ele chega a atacar do mago Shazam, diante da confusão que invade em sua cabeça, pois ele escuta vozes conversando com ele, como se fosse a sabedoria de Salomão querendo-lhe ensinar a ele lidar com esse chamado.

 

Billy percebe-se como um “menino burro” que não sabe usar os poderes e até deseja procurar o Mago e forçá-lo a receber os poderes de volta. Essa é uma parte curiosa da intriga porque Ordway coloca Billy como um rapaz  modesto a ponto de acreditar que não merece ser o Capitão Marvel.

Billy é uma criança pura?

Uma das cenas mais cômicas dessa edição é quando Billy precisa ir até a escola onde está passando por problemas por ter perdido muitas aulas. Para resolver o problema, vai falar com a professora dele, mas transformado como Capitão Marvel usando roupas civis e apresenta-se como se fosse seu próprio pai. Billy percebe que sua professora está dando em cima dele. Ele desconversa e retira-se, visivelmente enrubescido.

 

 

Como tratar uma criança que ganha o corpo de um homem extremamente forte, diante de uma possível atração sexual? Isso é um problema que Ordway não aborda profundamente, até porque não é o tema do gibi, mas é bom ver que existe esta perspectiva, quando um garoto entra na adolescência e descobre-se atraído pelo sexo. Ordway indica isso em uma cena anterior do mesmo gibi, quando Capitão Marvel e Adão Negro atravessam uma parece e dão de cara com “Bettie”.

 

Esta cena é uma referência ao quadrinho Rocketeer.

Capitão Marvel, mesmo não abordando a garota, deu a entender que também está “apreciando a paisagem” como, convenhamos, a grande maioria dos garotos por volta de 12 a 15 anos faria.

 

Billy jornalista

Uma das características mais marcantes de Billy Batson  (e que também pode ser um problema para adaptar nos dias de hoje) é que ele é um rádio jornalista mirim. Estamos falando de um gibi criado em 1940, onde a rádio era o grande veículo de comunicação de massa nos grandes centros urbanos.

Já na edição original de estreia de 1940, Billy consegue um emprego como jornalista após efetivar um acordo com o Sr. Morris, dono da rádio Whiz, após prender o criminoso Dr. Silvana que ameaçava explodí-la. Claro que todo a trama é bem rasteira, pois tudo que acontece nesse gibi (desde ele ser levado até a caverna, conhecer o Mago, ganhar os poderes, impedir Dr. Silvana, salvar o dia e conseguir seu emprego) é resolvido em apenas 15 páginas de quadrinhos.

 

 

Apesar de nesta edição, Billy ainda não se apresentar como uma pessoa trabalhando na imprensa, alguns dos elementos se mantém. Na versão de Jerry Ordway, Billy também vem ser jornalista, mas isso só acontece depois, ao longo da revista mensal que o artista leva à frente por quase 4 anos. Nesse Graphic Novel de Origem feita em pouco mais de 90 páginas, Ordway apenas reapresenta ameaça de Silvana contra a rádio Whiz, pois ela fazia oposição aberta ao que considera a “loucura de Silvana”, que diz respeito à feira mundial egípcia que está montando.

Dr. Silvana manda Theo Adam explodir a rádio, mas ele é impedido por Capitão Marvel.

 

Referência da referência?

 

 

A capa da Whiz COmics nº 1 não lembra um pouco uma certa Action Comics nº 1? Não sabe qual é?

 

Action Comics 1, primeira aparição do Superman

Pois bem, lembra sim! Felizmente, as semelhanças entre Super e Capitão param por aí, além do fato de terem super força e voarem. Mas isso não impediu que a DC comics abrisse um processo de plágio contra a Fawcett, envolvendo os dois personagens, e vencesse. Nada que se sustentasse em um tribunal nos dias de hoje.

Mas a curiosidade trazida aqui é apenas para mostrar um heróis atirando um carro cheio de bandidos contra uma parede ou pedra. Jerry Ordway recriou a cena da Whiz Comics 1 em seu gibi, 44 anos depois.

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