Quarta, 19 De Setembro De 2018

Notícias sobre Filmes, Séries e Netflix

As Origens do Shazam – Parte 3. Jeff Smith, 2007. A Sociedade dos Monstros

Chegamos √† terceira parte sobre as origens do Capit√£o Marvel e, desta vez vamos falar sobre “Shazam! & A Sociedade dos Monstros”, lan√ßada originalmente nos Estados Unidos em 2007 e no Brasil apenas em 2014, pela Panini.

Se você chegou até aqui sem conhecer nossos textos anteriores sobre as origens do Shazam, sugiro que leia a parte 1 e parte 2 para entender melhor como estamos tratando o assunto. Nossa ideia é fazer uma comparação entre 4 origens diferentes disponíveis para o mesmo personagem, e agora é a vez da versão criada por Jeff Smith.

Jeff Smith é o premiado autor do quadrinho Bone, já lançado aqui no Brasil (infelizmente, de forma incompleta) pela editora Via Lettera e HQM. Se você ainda não conhece Bone, sugiro que aguarde a versão que será lançada pela editora Todavia, porque vale muito à pena. Agora, se você já conhece Bone mas não leu Sociedade dos Monstros,  deve ter uma boa ideia do que lhe aguarda neste de Shazam.

Na livraria Quinta Capa Quadrinhos, onde trabalho, costumo indicar “Shazam & A Sociedade dos Monstros” para pais e filhos, pois acredito que √© um desses livros especiais que falam para, e podem agradar, uma longa faixa et√°ria de p√ļblico.

Na introdu√ß√£o de “Sociedade dos Monstros”, Alex Ross (Marvels / Reino do Amanh√£) diz que “n√£o √© com frequ√™ncia que vemos os super-her√≥is abordados como eram originalmente”, apesar disto, a¬†vers√£o de Jeff Smith √©, sem sombra de d√ļvidas, a mais ousada e diferente do Capit√£o Marvel que abordaremos aqui, justamente por trazer de volta o esp√≠rito carism√°tico simplista dos quadrinhos dos anos 40 ou 50, t√£o anacr√īnico e mal aceito no mundo complicado dos dias de hoje.

Com um tra√ßo t√≠pico de quem vem de uma escola de anima√ß√£o, Jeff Smith nos apresenta a vers√£o mais l√ļdica e “fofinha” que o personagem j√° teve, ao tempo que nos lembra desse esp√≠rito original do personagem, de que nos falou Alex Ross.

O que Jeff Smith traz de volta é, justamente, uma versão que o próprio Jerry Ordway não abordou em sua origem anterior: um Capitão Marvel sábio, diferente de Billy, com uma própria personalidade. Mas a linha que divide Billy do Capitão é muito tênue. Jeff aborda Billy como um novo hospedeiro para o Capitão, ao tempo em que eles se dividem e se completam.

Um detalhe curioso de ser colocado √© que, observando as vers√Ķes do Billy que encontramos nas origens da d√©cada de 1940, 1990 e, mesmo na vers√£o do novo mil√™nio (Novos 52), que analisaremos futuramente, Billy aparenta ser um jovem, beirando ali entre os 12 e 16 anos. Eu diria que na vers√£o de Jeff Smith temos, de verdade, uma crian√ßa com, no m√°ximo, uns 8 anos de idade.

Billy Batson de Jeff Smith, uma criança de verdade.

 

A escolha por mostrar um personagem mais infantil que as demais vers√Ķes do Capit√£o Marvel, transparece por todo o gibi, desde uma trama bem simples at√© a forma como apresenta os vil√Ķes “monstros” e as c√īmicas cenas de batalha, tudo muito cartunesco.

Capitão Marvel enfrentando os terríveis monstros jacarés e outras criaturas macabras e divertidas

 

Al√©m disso, sobre esse Capit√£o Marvel, Alex Ross nos lembra ainda que “por muitos anos, a abordagem padr√£o era simplesmente considerar que Billy era um garoto dentro do corpo de um homem. Jeff sabia que o conceito original era bem maior que isso. Trazer de volta a ideia¬† de que o Capit√£o Marvel √© o g√™nio dentro da l√Ęmpada Billy Batson, com diferen√ßas de maturidade e mentalidade entre eles, foi uma mudan√ßa tamb√©m bem-vinda”.¬†Na primeira parte de nossa pesquisa sobre as origens do personagem, onde lemos sua primeira vers√£o, de 1940, abordamos justamente isso: Capit√£o Marvel n√£o age como uma crian√ßa, ele √© altivo e imponente.

Guy Gardner, o mais irritante (e legal) Lanterna Verde de todos os tempos, chamava o Capit√£o Marvel, na d√©cada de 1980, nos tempos da Liga da Justi√ßa c√īmica do Keith Giffen, como “Capit√£o Fraudinha”. Da√≠ n√≥s podemos ter uma ideia de como o personagem vinha sendo representado durante muitos anos: uma crian√ßona no corpo de adulto, normalmente ignorando o fato de que Billy poderia facilmente acessar √† sabedoria de Salom√£o.

Esse é o tipo de erro de interpretação que Jeff Smith procura contornar.

Uma das cenas onde essa dualidade Billy/Capit√£o Marvel fica mais evidente, √© quando Billy vai at√© a emissora de tv SNN e tenta fazer uma den√ļncia querendo falar diretamente ao dono, o Sr. Morris. A crian√ßa √© ignorada pela rep√≥rter de tv Helen Fidelity e, depois volta como Capit√£o Marvel. A mo√ßa, completamente simp√°tica e “dispon√≠vel” ao Capit√£o, tenta conversar com ele e oferece ajuda, ele responde: “Acho que seria melhor conversar diretamente com o Sr. Morris”. Ele d√° uma cortada na mo√ßa, que vai atr√°s de encontrar o Sr. Morris. Satisfeito com sua atitude, Capit√£o Marvel pergunta pra si: “gostou dessa, Billy?”, ao que ele mesmo responde: “gostei sim”, deixando claro que se tratam de dois seres dividindo mesmo corpo e mente.

 

Billy e Capit√£o Marvel s√£o duas identidades e personalidades diferentes dividindo o mesmo corpo.

 

Quanto à origem do personagem, é tudo muito simples e fiel à hq de 1940. A figura encapuzada (que Billy reconhece como seu pai, algo que não está claro naquela primeira edição) que leva nosso protagonista até um trem estranho, que segue o mesmo visual do trem original, assim como as enormes estátuas que representam os sete inimigos mortais da humanidade.

O processo de escolha que torna Billy apto para o papel de substituto do mago Shazam √© muito simples: o poderoso velho de longas barbas brancas, padr√£o em todas as origens at√© aqui, apenas testa uma fa√≠sca no dedo de Billy para perceber se sua “eletricidade” √© boa e se ele serviria.

“Billy Batson! Diga a palavra M√°gica!”. “Shazam!” “BABOOM!” Tudo muito r√°pido. A pedra cai sobre o Mago, ele morre mas explica que pode ser invocado quando a chama no braseiro for acesa. Tudo conforme o combinado e como j√° vimos anteriormente.

As diferen√ßas dessa primeira aventura, em compara√ß√£o √†s outras, s√£o no foco dos vil√Ķes e em como Jeff Smith recria e introduz Malhado e Mary Marvel logo de cara, nessa nova vers√£o.

Pra come√ßar, Malhado, que √© um personagem muito marcante na hist√≥ria do Shazam, n√£o havia aparecido nas outras edi√ß√Ķes de origem abordadas nas partes anteriores de nossas “reportagens”. Mas quem √© Malhado? √Č um enorme tigre de bengala, a melhor tradu√ß√£o do l√ļdico que podemos ter em Shazam. Ele s√≥ veio aparecer pela primeira vez apenas oito anos ap√≥s a cria√ß√£o de Billy Batson, na revista¬†Capitain Marvel #79, de dezembro de 1948. Na origem de Jerry Ordway, ele aparece apenas como um boneco de pel√ļcia, onde √© escondido parte do colar de escaravelho que criaria Ad√£o Negro. O boneco s√≥ vem ganhar vida na sua s√©rie mensal, tornando-se um tigre b√≠pede, usando terno e roupas quadriculadas, como os leitores j√° conheciam desde a d√©cada de 40.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O que temos para Malhado, na vers√£o de Jeff Smith, √© bem diferente. No come√ßo do gibi ele aparece como um mendigo que vive nas ruas e √© amigo de Billy. Ele est√° ali desde o come√ßo, meio que j√° observando o garoto, esperando o momento certo para se revelar como um Ifrit, um esp√≠rito andarilho que muda de forma e que trabalha para o Mago Shazam, e que ir√° ajudar Billy ao longo de sua jornada no gibi. Ele aparece tamb√©m como um pequeno gato preto (n√£o sei se este tipo de transforma√ß√£o j√° foi apresentado por Malhado em vers√Ķes anteriores).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Outro personagem com sens√≠vel mudan√ßa √© Mary Marvel que, acidentalmente tamb√©m ganha poderes em A Sociedade dos Monstros, sofrendo uma pequena descarga de poder quando est√° pr√≥ximo ao Billy em um momento de transforma√ß√£o. Nas outras vers√Ķes da Mary Marvel, ela n√£o √© apresentada como uma adulta, igual Billy se parece transformado no Capit√£o Marvel. Desde que Mary Marvel surgiu, em 1942, ela torna-se uma garota beirando seus 15 ou 18 anos de idade, principalmente na vers√£o dos Novos 52 (que trabalharemos na parte 4).

Primeira aparição de Mary Marvel, em Capitão Marvel de 1942.

No gibi de Jeff Smith, Mary √© uma crian√ßa como Billy, e quando transforma-se em uma integrante da fam√≠lia “Marvel” continua sendo uma criancinha, e √© muito divertido v√™-la, t√£o diminuta, agindo ao lado de um gigante como fica o Billy, transformado ao seu lado.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Existe ainda um ponto que deve ser real√ßado nesta origem, que s√£o os vil√Ķes. Primeiro n√≥s temos um Dr. Silvana diferente do que j√° vimos antes. Ele n√£o √© um “cientista do mal”, como vimos em 1940 e nem √© um bandido rico e envolvido com pesquisas arqueol√≥gicas, como vimos nos anos 1990. O que temos aqui √© uma terceira vers√£o de um dos ic√īnicos vil√Ķes do Capit√£o Marvel: um pol√≠tico corrupto, com mania de grandeza.

Ele envolve-se na história não porque tenha algo a ver com a origem do personagem, como vimos na versão de Jerry Ordway, mas simplesmente porque ele dirige o Departamento de Tecnologia e Segurança Nacional, e a aventura de Sociedade dos Monstros gira em torno de um figura robótica gigante que ameaça a soberania dos EUA e Dr. Silvana torna-se o porta-voz do país diante deste problema.

Por fim, o terceiro e mais bizarro dos principais vil√Ķes do Capit√£o Marvel (que inclui o Dr. Silvana Ad√£o Negro),¬† aparece apenas nesta origem do personagem: o Sr. C√©rebro! √Ȭ†um verme alien√≠gena vindo de V√™nus que, ao chegar √† Terra, come√ßou a dominar os c√©rebros dos humanos! Mas n√£o vamos entrar em detalhes, para que leiam o gibi!

Essas são as principais diferenças desta versão da origem do Shazam com relação às demais origens apresentadas.

Posts Relacionados
%d blogueiros gostam disto: