Quinta, 21 De Fevereiro De 2019

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As Origens E A Trajetória Do Gênero Gótico

“Pode-se dizer que o romance gótico é um conto policial primitivo, no qual Deus ou o Destino são os detetives” ~E.F. Beiler, editor, Three Gothic Novels

Imagine um cenário situado em um tempo antigo, muito similar a uma versão extremamente romântica da nossa própria era medieval. Um mundo que ainda se apega a crenças e superstições antigas. Um pequeno e corajoso grupo de rapazes e garotas explora uma ruína antiga, tentando desvendar uma teia sinistra de segredos, trancada dentro de um labirinto de passagens secretas. Nesses corredores sombrios, nossos heróis enfrentam diversas ameaças sobrenaturais – Mas nenhuma é tão terrível quanto o poderoso e corrupto mestre da fortaleza, que permanece no centro das ruínas e dos mistérios.

Essas imagens, familiares para quaisquer exploradores de masmorra dos jogos modernos, surgiram nos meios literários com o nascimento do gênero gótico no final do século XVIII. O pai desse gênero foi Horace Walpole, um autor diletante encantado por sua visão romântica da Idade Média. Seu romance O Castelo de Otranto criou a base temática que todos os romances góticos iriam seguir.
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Contos Góticos Antigos

Os romances góticos antigos eram contos de mistério, romance e horror psicológico. Embora geralmente se situassem em tempos remotos, seus autores estavam mais preocupados em estabelecer uma atmosfera de decadência e deteriorização do que alcançar qualquer senso de exatidão histórica. No coração dessas fábulas antigas, permanecem os vastos castelos góticos que batizaram o gênero. Essas cidadelas ancestrais eram mais do que simples cenários. Sua lenta transformação em ruínas pitorescas refletia a decadência espiritual de seus mestres, suas passagens secretas revelavam mistérios ancestrais e os espectros que perambulavam por seus corredores ocultavam pecados antigos, nunca vingados ou esquecidos.

O senhor do castelo – e o vilão do conto – era um assassino e usurpador que havia sacrificado inconscientemente toda a sua esperança e felicidade numa perseguição faustiana interminável por conhecimento, poder ou prazer. O protagonista, insignificante em comparação ao seu algoz, geralmente assumia o papel de uma garota encantadora e inocente em perigo nas mãos do vilão, ou de um bravo rapaz injustiçado ao ter seus direitos de nascença roubados.

Os contos góticos estão repletos de uma atmosfera de pavor sobrenatural. Maldições ancestrais e fantasmas perturbados manipulavam os acontecimentos e arruinavam a sanidade dos personagens. Deformidades incomuns, como cicatrizes, marcas de nascença estranhas ou corcundas, transformavam homens em monstros, aparentemente punindo-os pelo crime de seus pais. Os contos góticos evocavam horrores sutis, derivados de presságios, não da carnificina – A consciência de que o pôr do Sol iminente libertará um vampiro de sua cripta, e não os detalhes mórbidos da fúria de um lobisomem. Na verdade, o sobrenatural era apresentado de maneira tão sutil nos romances góticos antigos que muitas vezes só era explicado completamente depois que o mistério havia sido resolvido. Na claridade do dia, os fantasmas se tornavam meros truques de luz e as criaturas revelavam-se apenas como ermitões enlouquecidos.

Mas não se pode negar a existência da presença do sobrenatural nessas obras. Nos bastidores, as forças divinas do Bem e do Mal duelavam para determinar o fim da trama. A maioria desses contos góticos aderia fielmente a um mesmo roteiro: O vilão tirano cometera um crime terrível e escapara da justiça, mas sua existência fora corrompida e assombrada por seus pecados. Os jovens e inocentes protagonistas chegavam aos domínios do vilão. Este, enfurecido pela pureza dos heróis ou temendo que eles descobrissem sua culpa, começava a perseguir os jovens inocentes. Conforme o conto desdobrava, os caprichos do destino e intrusos espectrais revelavam os crimes do vilão e as injustiças cometidas contra os heróis. Eram os próprios erros do vilão e as forças da justiça – muito mais que os infelizes protagonistas – que conduziam o vilão à sua ruína. No final, todos os crimes eram vingados, o mal devorava a si mesmo e o amor verdadeiro emergia vitorioso.

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A Tradição Gótica Atual

O gênero Gótico desenvolveu-se no começo do século XIX. Novas gerações de autores quebraram a rígida fórmula do gótico antigo, acrescentando camadas às bases de Otronto. Os infelizes protagonistas dos contos antigos foram deixados de lado, servindo apenas como meras testemunhas da ruína do vilão. O gênero gótico pertencia aos vilões: Anti-heróis sofisticados que eram ao mesmo tempo repugnantes e carismáticos, detentores de um potencial surpreendente, mas desperdiçado em meio a terríveis falhas mortais. Entre esses vilões está Victor Frankestein, que foi condenado por suas ambições divinas, e o califa Vathek, que perseguiu sua ganância por poder através de um inferno Árabe.

As maldições nebulosas e as assombrações dos contos antigos agora eram muito reais. Os novos autores góticos reinterpretavam as lendas ancestrais para inventar novos arquétipos do horror. Mary Shelley criou o golem de carne, dando vida aos perigos e responsabilidades da paternidade. John Polidori se inspirou em seu “companheiro”, o famoso poeta Lorde Byron, para criar o primeiro vampiro aristocrata e carismático do mundo. (Não por acaso, Byron roubou sua ideia e publicou como se fosse dele, causando uma confusão no verdadeiro autor de “Vampyre” que até hoje perdura.)

Os fantasmas e carniçais da tradição gótica eram, acima de qualquer outra coisa, cópias alegóricas: Reflexões sobre o mal humano. Quando Frankestein rejeitou seu monstro, afastou as terríveis consequências de suas ações profanas. Essas mesmas ações iriam retornar para assombrá-lo na forma da sua miserável criação

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O Restabelecimento Vitoriano

Conforme o século XIX se desenrolava, as tradições góticas foram distorcidas além de suas raízes. Quando o gênero começou a declinar, Edgar Allan Poe adicionou contos de demência e obsessão e em Os Assassinatos da Rua Morgue transportou o senso gótico de pavor antinatural para sua nova criação: o “detetive erudito” na forma de Dupin, que mais tarde serviria de inspiração para Sherlock Holmes.

Mais uma vez, o gênero gótico “retornava à vida” no final do século. Os novos autores aplicaram os temores sociais de seu tempo aos estilos mais antigos. Os campos férteis da evolução e da psicologia ameaçavam provar que o homem era apenas uma besta oculta sob o fino véu da civilização. Desses medos, derivados de paixões reprimidas e traições, surgiram Dorian Gray, que escondia um retrato de sua verdadeira depravação; Dr. Moreau, que tentou transformar homens em animais e a si mesmo em deus; e Dr. Jekyll, cuja luta contra sua selvageria oculta formaria as bases do lobisomem gótico.

À medida que o século XIX abria espaço para o século XX, um aspecto da antiga tradição gótica começava inesperadamente a voltar à tona: o herói. Os protagonistas de Drácula, de Bram Stoker, perseguiram seu adversário imortal através de toda a Europa para acabar com seu reinado maligno. Os detetives eruditos saíram de cena para dar lugar aos “detetives ocultistas”, como o general Spielsdorf de Le Fanu, van Helsing de Stoker, John Silence de Blackwood e Carnacki de Hodgson. Esses personagens mão estudavam as ciências ocultas para conseguir poder, mas para combater o mal – esses virtuosos estudiosos deixavam seus correspondentes faustianos em regiões ainda mais profundas da escuridão.

Com seus contos sobre o caçador de bruxas puritano Solomon Kane, Robert E. Howard (autor também de Conan) chegou a levar os estilos góticos para mundos de pura aventura fantástica, os mesmos gêneros de espada e magia que um dia originariam os RPGs de fantasia.

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Ida e Volta do Cemitério

Com o surgimento do século XX, o gênero de horror continuou existindo. A tradição gótica deu lugar a contos estranhos de autores como H.P. Lovecraft; que mantinha uma aura de decadência ao mesmo tempo em que criava entidades estranhas e terríveis, refletindo uma sociedade humilhada pelas descobertas científicas e a falta de humanidade durante a primeira Grande Guerra. Vampiros, fantasmas e lobisomens foram logo descartados como clichês gastos.

Mas eles sempre retornam. Algumas décadas se passaram e a tradição gótica voltou com força total ao mundo, como o Sr. Hyde reprimido há muito tempo. A cada ressurgimento do gênero gótico, os novos escritores distorciam os antigos arquétipos, aplicando sobre eles as inquietações de suas épocas. Cada era possui uma doença que poderia estar oculta nas botas de um vampiro; cada geração assistiu aos contos de Frankenstein e Moreau se aproximarem um pouco mais da realidade.

O gênero gótico se recusa a repousar silenciosamente em sua tumba. Seus horrores – Vampiros, maníacos, fantasmas – continuam a ressoar dentro de nós, porque somos esses horrores.

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N. do E.: Encontrei este texto perdido em um dos livros que li durante minha intensa pesquisa de inspiração para “Curse of Strahd”, e acabei achando que mais pessoas mereciam lê-lo (com alguns adendos)

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