Quinta, 21 De Fevereiro De 2019

LOJA QUINTA CAPA

Caverna do Dragão e "clickbaits".

Os anos oitenta são uma fonte de saudosismo muito grande para os trintões e quarentões dos dias atuais. Muitos se lembram com carinho da escola(há controvérsias), da música da época e da programação que os divertia nos programas infantis. E nossas lembranças são poderosas, tornando tudo aquilo que vivenciamos em algo mágico e acalentador. E esse saudosismo recentemente foi trazido à tona com força, há umas duas semanas, com uma notícia que causou alvoroço nas redes sociais: a de que a adaptação de Caverna do Dragão sairia em 2021. Para quem viveu a década de oitenta e até mesmo em tempos mais atuais(já que a animação sempre foi reprisada), foi um grande notícia…e a surpresa e ansiedade é tão grande que antes mesmo que alguém diga um “espere um minuto”, a notícia já viralizou.

Poster criado por fã mas usado como se fosse real. Fonte: Belo Br

E não parou por aí, pois na busca pelos cliques, vale tudo. Muitos sites e perfis, para acertadamente conseguir a atenção do fã, já colocam em seu título que a notícia é sobre a adaptação live action de Caverna do Dragão. Embora mencionem o RPG no qual foi baseado, dão sempre a entender de que se trata da série. Muitos perfis dão mesmo a certeza de que é isso realmente, e outros já até citam celebridades que foram chamadas para atuar  no filme. O próprio Vin Diesel já se mostrou interessado em uma adaptação…. há dois anos atrás.

Ele teria dado um bom Minsc, em uma adaptação de Baldur’s Gate. Fonte: Kotaku

A maioria dos perfis chega a falar sobre vários detalhes verdadeiros, mas pondo em dúvida sobre o que está sendo realmente noticiado. Mesmo em perfis que esclarecem sobre o que se trata a produção, sempre se utiliza “Caverna do Dragão” no título, já induzindo o leitor ao erro. O saudosismo do fã brasileiro potencializa a farsa, embora isso não seja realmente culpa dele.

Vamos aos fatos: há realmente um filme de Dungeons & Dragons anunciado para 2021. O site Polygon já havia anunciado o filme em dezembro de 2017. Nada consta no anúncio sobre ser a adaptação da animação oitentista e sim com referências ao clássico jogo de RPG de mesa, que data da década de 1970 e inspirou a animação. Em fevereiro deste ano, o site Variety anunciou que  o diretor Chris McKay (Lego Batman: O Filme) estava cotado para assumir a direção do longa. A notícia foca mais nos detalhes da criação do estúdio AllSpark, criado para rivalizar com a Marvel Studios para a adaptação de franquias. O site nacional Observatório do Cinema foca a adaptação como inspirada no famoso RPG, cita o filme do ano 2000 e enfatiza que a produção não terá conexão com a animação da década de oitenta.

Pode-se dizer que tudo é possível e Hollywood procura adaptar tudo. Mas o fato é que, embora Caverna do Dragão tenha sido uma boa série animada, mesmo para a época ela não era tão popular. Embora tenha gerado três temporadas, a série sequer gerou algum merchandise decente; e a maior parte do barulho que gerou nos últimos anos foi a respeito do tal episódio perdido, que gerou muitas especulações descabidas, apenas esclarecidas com o lançamento do roteiro que você pode conferir aqui.

E não é de hoje que se tenta emplacar notícias sobre a produção desta adaptação. Há anos vários sites trazem “notícias” sobre estas adaptações, chegando até mesmo a criar um elenco “oficial”. O poster citado algumas linhas atrás não passou de um projeto de faculdade do ilustrador Fábio Rodrigz. Este havia deixado de lado, porém as finalizou. As imagens passaram a circular na internet em setembro de 2017 e o site e-farsas descobriu a origem das mesmas. Você pode conferir o trabalho do ilustrador aqui.

Ele é bom!

O jogo, criado por Gary Gygax e Dave Ameson na década de 1970, surgiu quando a dupla ainda jogava jogos de guerra de tabuleiro. Não satisfeitos em meramente rolar dados e movimentar peças, a dupla focou em cada jogador com um personagem. Influenciados pela mitologia e literatura(principalmente Tolkien), ambos elaboraram uma divisão de classes, raças e alinhamentos comportamentais, além de várias e complexas regras para combate e magia. Cada partida conta com um grupo de jogadores e um mestre chamado de Dungeon Master(Mestre da Masmorra, do inglês). A série animada usou vários dos conceitos do jogo, apenas introduzindo um grupo de garotos que não são nativos do mundo em que se passa a animação e guiados por um senhor misterioso chamado de Mestre dos Magos(mas que no original se chamava Dungeon Master). A sacada da série animada foi mostrar garotos com personalidades críveis e guiados em suas aventuras por alguém que estabelece suas buscas. É como se realmente fosse uma partida ali, e não é incomum compartilharmos uma mesa de jogo com alguém como o Presto, o Erick ou o Bobby. Quem nunca jogou com um reclamão?

Novamente, não dá para culpar os fãs por acreditarem nisso. Vivemos em um mundo onde a informação está em todo o lugar e é espalhada de forma incrivelmente rápida.  Uma mentira bem dita e que apele ao coração é tomada como verdade, e isso só beneficia a quem ganha visualizações com conteúdo errôneo. É difícil prosperar no mundo online, ainda mais quando necessitamos da atenção do público para garantir visualizações e prosperarem. Porém, até que ponto vale à pena chamar a atenção a qualquer custo? Um bom número de visualizações temporárias compensa mesmo mais do que um bom e consistente trabalho?

É um trabalho árduo se manter relevante, mas a atração de clicks a qualquer custo só tem a causar mais mal do que bem. E, do jeito que a coisa anda, ao invés de termos um Atrasados do ENEM, teremos um Desapontados com Caverna do Dragão em 2021.

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