Quarta, 26 De Setembro De 2018

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Conheça Face Oculta

Face Oculta¬†√© um daqueles t√≠tulos que voc√™ oferece para o leitor, insistindo: ‚ÄúLeia isso, por favor!‚ÄĚ, mas como sou o dono da livraria, ele pensa logo que s√≥ quero vender um tro√ßo estranho que est√° encalhado na prateleira. At√© entendo, por que acompanhei um pouco os problemas da s√©rie no Brasil. Inicialmente, ela foi lan√ßada em novembro de 2012 e deveria seguir o padr√£o original italiano, uma maxi-s√©rie em 14 volumes, mas morreu na segunda edi√ß√£o, deixando os compradores frustrados com dois gibis que provavelmente nunca teriam continua√ß√£o.

 

Mas a esperan√ßa n√£o √© necessariamente gratificante, pode ser torpe, e iludiu uma segunda vez aqueles f√£s do¬†fumetti. Em setembro de 2016, a Panini lan√ßa novamente o t√≠tulo, desta vez encadernando as 4 primeiras edi√ß√Ķes em um volume. A gente faz a matem√°tica e deduzimos que essa nova s√©rie dever√° ter apenas 4 volumes, juntando todas as 14 edi√ß√Ķes originais. O problema √© que a edi√ß√£o custava R$39,9 e vinha de um hist√≥rico com terr√≠vel falha de continuidade. Os eventuais f√£s do escritor¬†Gianfranco Manfredi, que conheciam seu trabalho no excelente M√°gico Vento (s√©rie que a¬†Mythos¬†publicou na √≠ntegra em 151 edi√ß√Ķes e que hoje reimprime em edi√ß√Ķes especiais coloridas e em capa dura), poderiam evitar a nova edi√ß√£o por pura falta de expectativas, j√° que j√° fora frustrado uma vez. J√° o p√ļblico mais amplo, facilmente teria descoberto a hist√≥ria que este t√≠tulo poderia continuar minguando em sua mais tenra idade. Acredito que foi isso que aconteceu.

As poucas Face Ocultas que solicitei em minha livraria, eram recusados até pelo mais bonelliano dos meus clientes, que dirá leitores de X-Men ou One Piece. Encalhou. Mas a gente não quer desistir de um bom gibi e, depois de quase dois anos (agora, em maio de 2018), a Panini anuncia o volume dois, talvez muito por causa do sucesso que foi a retomada de títulos italianos através de iniciativas independentes, como a da Lorentz, com Dylan Dog e Editora 85, com Dampyr. Pelo sim ou pelo não, o que importa é que agora é hora de festejar e tirar a poeira da cara, ou da face, com o perdão do trocadilho.

Mas nem tudo s√£o rosas, o volume dois de Face Oculta custar√° a bagatela de R$51,9, um ponto muito dif√≠cil para barganhar com os leitores. Tudo bem que teremos, nesse encadernado, cinco edi√ß√Ķes da s√©rie original, quase 100 p√°ginas a mais que o volume anterior, totalizando 480 p√°ginas, e, por mais que seja injusto comparar t√≠tulos e pre√ßos, o que importa √© a realidade do bolso do leitor, e pagar R$51,9 por um gibi, 16x21cm, preto e branco, de um personagem completamente desconhecido, √© investir demasiada e cegamente no p√ļblico de nicho que, por estar desde 2012 esperando, duplamente frustrado, pode se negar a comprar, sem contar que existem edi√ß√Ķes do g√™nero muito mais em conta, do pr√≥prio Tex, com cerca 320 p√°ginas pela metade do pre√ßo. Isso sem mencionar gibis como Lobo Solit√°rio, com mais de 300 p√°ginas por apenas de R$18,9.

Quem é o autor?

Escrever esse texto foi uma grande surpresa, pois descobri que Gianfranco Manfredi, al√©m de ser o escritor de M√°gico Vento, √© um artista m√ļltiplo,¬†autor de mais de trezentas can√ß√Ķes, v√°rios roteiros de cinema e televis√£o, ensaios e cr√≠ticas sobre m√ļsica, entre outras coisas, como sua gradua√ß√£o em Hist√≥ria da Filosofia, forma√ß√£o que o permitiu inclusive lecionar na √°rea em institutos de educa√ß√£o italianos.

Manfredi nasceu em 1948 e at√© meados da d√©cada de 1980 produziu m√ļsica intensamente. Quer dizer, ele n√£o √© um aventureiro na √°rea que cria can√ß√Ķes pontuais para se divertir. √Č autor e/ou cantor em, pelo menos, 11 discos (entre √°lbuns e singles) desde 1972, sendo que seu √ļltimo, data de 2003. Sua carreira na m√ļsica dividia-se entre o compor e cantar, mas escrever m√ļsicas acabou tornando-se o foco principal, local mais agrad√°vel e que lhe dava mais espa√ßo criativo dentro dos seus limites. A escrita, afinal, sempre √© mais libertadora, pois os limites s√£o imagin√°rios, talvez esse tenha sido o verdadeiro motivo que o levou a afastar-se do mundo da m√ļsica e imergir nos v√°rios universos das letras.

A partir da segunda metade dos anos 80, come√ßa a dedicar-se √† carreira de escritor, roteirizando 9 filmes e v√°rios programas de TV, mas n√£o ficava apenas atr√°s das c√Ęmeras, pois foi ator em outras 9 pel√≠culas.

Em uma entrevista para o site¬†texwillerblog.com¬†(que tive a pachorra de traduzir usando o google e adaptar livremente), Manfredi comenta sobre porque parou de fazer filmes: ‚ÄúAlguns filmes produzidos na It√°lia n√£o me interessam. H√° √≥timos filmes, pelo amor de Deus, mas o esfor√ßo para completar um de algum valor expressivo, hoje na It√°lia, √© realmente invi√°vel. Estou acostumada a trabalhar duro, mas n√£o estou disposto a trabalhar como uma mula para coisas que terminam n√£o realizadas, ou que s√£o malfeitas, ou conclu√≠das apenas cinco anos depois de algu√©m pensar nelas, ou que n√£o encontram espa√ßo nos cinemas porque a distribui√ß√£o est√° nas m√£os dos americanos‚ÄĚ. Manfredi tamb√©m comente que o cinema italiano √© muito voltado para a aventura e humor, g√™neros que n√£o lhe apetece, preferindo muito mais o horror ou o romance (o que tentou fazer em Face Oculta, do qual trataremos mais √† frente):

 

‚ÄúEscolhi a escrita, que me deixou criativamente mais livre. Meu amor pela escrita, no entanto, foi maior do que para a m√ļsica, que tamb√©m me deu grande satisfa√ß√£o, assim eu aproveitei a boa reputa√ß√£o e estima que tinha ganhado como um cantor/compositor para me apresentar no cinema como roteirista, principalmente, mas tamb√©m como ator e, √†s vezes, como compositor de m√ļsica cinematogr√°fica. Mais tarde, bastante decepcionado com o fato de que na It√°lia na √©poca foram produzidos quase exclusivamente com√©dias, enquanto eu preferia um cinema mais radical em suas escolhas (do western ao horror), decidi abordar a escrita de uma maneira mais ampla e completa e assim cheguei √† narrativa escrita, com uma s√©rie de romances que exploram, digamos assim, os limites do g√™nero (do g√≥tico ao romance hist√≥rico)‚ÄĚ.

Produziu 15 romances, al√©m de um tanto assim de ensaios e cr√≠ticas de m√ļsica. Sua estreia no campo dos quadrinhos ocorreu com a cria√ß√£o de “Gordon Link“, um ca√ßador de fantasmas n√£o convencional, em 1991.¬†A partir de 1994, Manfredi come√ßa a colaborar com a Sergio Bonelli Editore, escrevendo in√ļmeros roteiros para¬†Dylan Dog¬†e¬†Nick Raider.¬†Em 1997, foi a vez de criar seu projeto mais duradouro, o western¬†M√°gico Vento, que mistura elementos de terror e magia (e que futuramente iremos resenhar).¬†Em 2005, fez sua estreia como roteirista de¬†Tex, escrevendo a hist√≥ria “La pista degli agguati“, um gibiz√£o de hist√≥ria fechada com 290 p√°ginas, publicada no Maxi Tex daquele ano.

S√≥ em 2007 come√ßou o Face Oculta, um romance em quadrinhos, fechado em 14 volumes.¬†E agora uma informa√ß√£o que pode deixar todos n√≥s com uma pulga enooooorme atr√°s da orelha: Face Oculta tem uma sequ√™ncia! Mas calma! Ao que tudo indica, a s√©rie original √© conclusiva, o que temos nessa nova hist√≥ria intitulada¬†Shanghai Devil¬†√© outra maxi-s√©rie em dezoito edi√ß√Ķes, utilizando o mesmo protagonista Ugo Pastores, mas que n√£o precisa ser lida para uma plena satisfa√ß√£o com a s√©rie anterior. Manfredi parece escrever como nos moldes das antigas aventuras seriadas, onde o protagonista aventura-se em cen√°rios diferentes a cada vez, saindo da √Āfrica, em Face Oculta, para a China nesta segunda.

Em outubro de 2014 come√ßou sua mais recente obra nos quadrinhos, chamada¬†Adam Wild, uma s√©rie de aventura que volta para um cen√°rio relativamente parecido com o Face Oculta, a √Āfrica oitocentista.

Manfredi, nessa montanha russa criativa que √© sua vida, re√ļne algumas das principais caracter√≠sticas que formam um bom escritor: experi√™ncia e vontade de narrar. Definitivamente, n√£o √© um emergente na √°rea.

 

Mas do que trata mesmo o gibi?

‚ÄúGostaria de escrever hist√≥rias de amor. Nunca fiz isso, mas o experimento me atrai. Tentei fazer um pouco no Face Oculta, e talvez, no futuro, fa√ßa isso em um romance. Dif√≠cil de percorrer todo esse caminho em uma hist√≥ria em quadrinhos, porque nem a Bonelli nem outras editoras na It√°lia parecem estar interessadas em nada al√©m de quadrinhos de aventura ou humor. Eu n√£o escreveria sobre bolos de carne sentimental. Acredito que o amor pode ser contado de outra maneira, mas… Para escrever coisas diferentes, voc√™ deve primeiro ler coisas diferentes, ampliar o alcance de seus interesses‚ÄĚ

Tentarei responder a essa pergunta do tópico, citando esse trecho do autor Gianfranco Manfredi para deixar bem claro que Face Oculta não é exatamente o que aparenta. Quando você vê a capa, um homem de terno com um revólver na mão, um exército formado por tribos africanas e um rosto, ao fundo, coberto por uma misteriosa máscara prateada, tudo parece nos levar para uma exótica aventura, mas isso é apenas o que sugere as primeiras 100 páginas desse encadernado.

 

Sem querer estragar o prazer de sua leitura e procurando apenas preparar o terreno para o leitor desavisado, Face Oculta conta a hist√≥ria de Ugo Pastore e seu pai, Enea. Ambos s√£o representantes de uma sociedade comercial italiana que faz transa√ß√Ķes econ√īmicas e diplom√°ticas entre a metr√≥pole e suas col√īnias. Chato? Poderia ser se o cen√°rio inicial n√£o fosse realmente a ex√≥tica √Āfrica dos 1890. Ent√£o, sim! √Č um gibi sobre intrigas pol√≠ticas e comerciais, que deve ser lido com aten√ß√£o, porque a Eti√≥pia, dividida em v√°rias tribos que lutavam entre si, foi for√ßada a aceitar o reinado de um soberano que subiu ao trono por interesse da pr√≥pria metr√≥pole italiana, afinal, negociar com um √ļnico rei √© mais f√°cil do que com v√°rias tribos de opini√Ķes diversas. Neste cen√°rio, surge a figura enigm√°tica e mitol√≥gica do Face Oculta, personagem que consegue reunir homens de tend√™ncias diversas contra a tirania do rei e contra ex√©rcito italiano.

 

Tudo indica que a hist√≥ria seguiria facilmente por a√≠, mostrando o preparo e a execu√ß√£o de uma guerra sangrenta. Mas as coisas n√£o s√£o t√£o simples e, baseado em fatos reais, Manfredi sabe que n√£o pode resolver as coisas facilmente. Na segunda parte deste volume 1 (dividido em 4), temos um salto temporal de 5 anos, e vemos Ugo morando em Roma, distante desses problemas da col√īnia. E √© fant√°stico l√™ um gibi italiano passando-se em terra natal, pois somos t√£o acostumados a ler aventuras da Bonelli em outros pa√≠ses da Europa ou na Am√©rica que ficamos encantados com os detalhes das ruelas escuras de Roma e suas fachadas em ru√≠nas.

Mas, como estava dizendo, a hist√≥ria parece mudar drasticamente nessas edi√ß√Ķes 2, 3 e 4 que comp√Ķe o volume, deixando Face Oculta em segundo ou terceiro plano e focando no que parece ser uma calma e delicada montagem de um cen√°rio maior. Somos apresentados a novos personagens e outras tramas, envolvendo dramas familiares e oculta√ß√£o de cad√°veres e, ao final deste primeiro volume, voltamos para a √Āfrica, sob novas perspectivas.

 

Nos editoriais da revista, o autor nos informa de algumas influ√™ncias que teve, como as √≥peras dram√°ticas e a constru√ß√£o de personagens femininos, vivendo em um mundo extremamente machista, ent√£o somos apresentados √† personagem Matilde, de uma personalidade profunda que nenhuma pequena resenha deveria ousar explicar, mas que representa, de certa forma, o tipo de personagem rom√Ęntico da √©poca, apaixonada e doente, fr√°gil, mas, ao mesmo tempo, capaz de nos surpreender, fugindo do padr√£o moldado muito mais pela opress√£o externa do que por qualquer outra coisa. Tamb√©m conhecemos Vittorio, um oficial da cavalaria, metido a Don Juan, aventuresco, violento, justo e insens√≠vel (se √© que √© poss√≠vel). Enfim, n√£o s√£o personagens f√°ceis de lidar.

 

Apesar do sens√≠vel distanciamento da narrativa sobre o personagem Face Oculta, tudo parece ser conduzido de volta para l√°, e √© o que vemos acontecer j√° na quarta hist√≥ria desse primeiro volume, pois mesmo l√° na It√°lia, enquanto nossos tr√™s protagonistas enrolam-se em suas pr√≥prias confus√Ķes, descortina-se no fundo do palco o problema constante que envolve a guerra travada entre a It√°lia e a Eti√≥pia e, com certeza, nos pr√≥ximos volumes (que oramos para a Panini publique com uma velocidade superior a uma bienal) teremos muitas aventuras sob um sol escaldante e de paisagens de areia arrastadas pelo vento.

 

Quase esqueci de falar do desenho! A primeira edi√ß√£o √© feita por Goran Parlov, j√° conhecido tanto pelos bonellianos quanto pelos marvetes, quando desenhou o Justiceiro para a ‚ÄúCasa das Ideias‚ÄĚ. Parlov √©, de longe, o melhor desenhista na edi√ß√£o. √Č importante explicar que, na It√°lia, para manter uma s√©rie mensal com 100 p√°ginas de quadrinhos, √© muito comum o rod√≠zio de desenhistas. Pela qualidade das pranchetas, √© completamente invi√°vel que o mesmo artista assuma um t√≠tulo sozinho, j√° que ilustrar essa quantidade de quadrinhos pode demorar, facilmente, de 3 a 4 meses. Por isso, temos 4 desenhistas neste primeiro volume, um para cada edi√ß√£o. Rotundo faz a segunda e segue uma linha parecida com a de Parlov, de tra√ßos angulares e estilizados, de altos e cristalinos contrastes em preto e branco. A terceira edi√ß√£o, de Nespolino, tem um tra√ßo mais pr√≥ximo do que gosto de chamar de um padr√£o bonelliano de qualidade, mais tradicional, mais quadradinho em sua narrativa e estilo de desenho. O autor da quarta edi√ß√£o deste primeiro encadernado, √© Burak, com certeza o que causa mais desconforto em qualquer leitor desavisado. Com uma rachura, por vezes, grosseira, tem o tra√ßo mais distante do que um leitor mais mainstream est√° acostumado, mas tamb√©m de uma riqueza incr√≠vel.

 

Para não me alongar mais, a gente só espera que a torpe esperança não nos iluda uma terceira vez! Vida longa a Manfredi, Face Oculta e que venha logo Shangai Devil.

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