Terça, 10 De Julho De 2018

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Crítica | A extraordinária e intensa minissérie La Casa de Papel

A Netflix vem dando para os f√£s de s√©ries √© a oportunidade de acesso a produ√ß√Ķes fora do eixo¬†USA-UK¬†sem adapta√ß√Ķes.¬†Dark¬†foi s√≥ o come√ßo. Produ√ß√£o do canal¬†Antena 3¬†da Espanha,¬†La Casa de Papel¬†foi uma miniss√©rie espanhola que estreou no in√≠cio de 2017 por l√° e agora conquista o mundo gra√ßas aos pulsos do¬†streaming¬†internacional. N√£o, esta n√£o √© uma original da Netflix, registre-se.
Quem nunca fantasiou com a ideia de imprimir ilimitadamente seu pr√≥prio dinheiro quando descobriu o conceito de Casa da Moeda? A hist√≥ria de¬†La Casa de Papel¬†√© absurda desde a sua concep√ß√£o, exatamente por esse motivo: um grupo de delinquentes vestidos com m√°scaras de Salvador Dal√≠ s√£o liderados por um sujeito chamado ‚Äúo Professor‚ÄĚ que organizou, durante anos, um plano mirabolante para tomar a¬†f√°brica de dinheiro¬†espanhola e produzir bilh√Ķes de Euros.
La Casa de Papel¬†√© uma minis√©rie em duas partes extraordin√°ria e que faz voc√™ querer at√© aprender espanhol s√≥ pra sair dizendo¬†Folla, Salva, Rehenes, Cojones¬†e muito mais. √Č intensa, envolvente e eloquente desde o primeiro epis√≥dio em que vemos a perseguida assaltante T√≥quio (√örsula Corber√≥, maravilhosa) sendo recrutada pelo idealista organizador do maior assalto da hist√≥ria do mundo e se juntar a uma trupe de tipos, digamos, interessantes.
E de megalomaníaca, La Casa de Papel tem tudo e sua narrativa não faz o menor sentido. Isso, contudo, não é nenhum problema, como veremos.
A suspens√£o da descren√ßa √© um fen√īmeno necess√°rio para a conex√£o humana com filmes, quadrinhos, pe√ßas de teatro e s√©ries desde o in√≠cio da cultura e isso n√£o √© novidade. O que difere uma boa produ√ß√£o das med√≠ocres √© aquela que consegue atingir o espectador A DESPEITO do que sua trama mirabolante sugere. Exemplos disso temos aos montes.
Voc√™ acha que Neo √© o salvador do mundo na Matrix? Que Jack e Kate precisavam voltar √† ilha? Ou que algu√©m t√£o incompetente como Michael Scott seria o gerente de uma empresa? N√£o importa. O que importa √© a conex√£o com os personagens e¬†El Professor(√Ālvaro Morte), Raquel Murillo (Itzar Itu√Īo), Berlin (Pedro Alonso), Nairobi (Alba Flores), Rio (Miguel Herr√°n), Denver (Jaime Lorrente), Moscou (Paco Tous) garantem isso.

La Casa de Papel se ancora em excelentes e cativantes personagens para se tornar uma minissérie excelente, apesar do roteiro LOTADO de falhas, quebrando barreiras linguísticas e temáticas e estabelecendo uma conexão profunda com o espectador. Isso acontece justamente por que ela conta uma história sobre oprimidos que resolvem rebelar contra o sistema vigente.
H√° que se fazer in√ļmeras concess√Ķes para acompanhar esta produ√ß√£o. Lembra quando, em¬†Prison Break, os agentes penitenci√°rios estavam pra abrir uma porta e encontrar Michael Scofield ou um dos¬†Fox River 8, mas a montagem malandramente indicava que aquilo n√£o estava ocorrendo em tempo real? Pois bem, este drama pega esse conceito e eleva √† en√©sima pot√™ncia,¬†rindo na cara dos limites.
Limites? ‚ÄúKkkkkk limites‚ÄĚ: , diz¬†La Casa de Papel¬†em todos os epis√≥dios.
Semana após semana (para os espanhóis) e episódio por episódio (para nós assinantes da Netflix) acompanhamos esse grupo de assaltantes da Casa da Moeda driblarem a lógica narrativa na missão de imprimir seus Euros enquanto a polícia (e a pior inspetora da história) assiste inerte e impotente, graças às artimanhas do infalível Professor, que pensou em tudo. Bem, em quase tudo.
O fator imprevis√≠vel numa obra sobre ‚Äúassalto a banco‚ÄĚ √© essencial e aqui eles bebem o improv√°vel direto na fonte. Todos: os ‚Äúbandidos‚ÄĚ, os ‚Äúherois‚ÄĚ (sim, as aspas s√£o propositais), os ref√©ns e os colaterais s√£o fundamentais para essa hist√≥ria e¬†La Casa de Papel¬†se preocupa com o desenvolvimento de cada um, fazendo com que nos importemos com cada um.
Ouso dizer que aqui n√£o h√° vil√Ķes. Voc√™ n√£o torce incondicionalmente pelos bandidos, nem odeia totalmente a pol√≠cia. √Č um jogo de gato e rato em que ora estamos torcendo para o ca√ßador e para a presa, pois o conceito de ‚Äúca√ßador‚ÄĚ e ‚Äúpresa‚ÄĚ muda a cada instante, √†s vezes de forma deveras vol√°til e inveross√≠mil.
Mas pra quem busca verossimilhan√ßa,¬†La Casa de Papel¬†√© a s√©rie errada. V√° ver um jornal (embora ultimamente isso tamb√©m n√£o se aplique tanto). Pois √© no absurdo de suas situa√ß√Ķes que essa produ√ß√£o √© eficaz e plena, pois seus roteiristas e idealizadores (que rapidamente ser√£o recrutados por canais norte-americanos ou brit√Ęnicos) n√£o t√™m o menor medo, inclusive medo do rid√≠culo.
H√° cenas, sequ√™ncias e passagens que n√£o fazem o menor sentido, mas isso n√£o importa. Por vezes eu quis pausar a reprodu√ß√£o para comentar no Twitter, apenas para ver depois que eles estavam o tempo todo cientes da rea√ß√£o que queriam causar, pois logo em seguira ver√≠amos uma reviravolta que explicava ou compensava certas suposi√ß√Ķes.

La Casa de Papel é, antes de tudo, uma série completamente ciente de que é absurda, o que muda completamente as regras do jogo.
Eu não quero dar spoilers, pois quando terminei a primeira parte disponível na Netflix (a 2ª metade da história poderá ser acompanhada a partir de 6 de abril por nós) só quis vir correr aqui pra escrever, além de pesquisar mais sobre esse elenco maravilhoso.
A produ√ß√£o √© impec√°vel tecnicamente e deixa no ch√£o diversas produ√ß√Ķes milion√°rias. As loca√ß√Ķes e cen√°rios s√£o magn√≠ficos e o esmero da fotografia, decupagem, montagem e dire√ß√£o √© digno de nota, assim como tamb√©m de outros departamentos art√≠sticos como o de¬†casting,¬†ilumina√ß√£o e at√© mesmo de sele√ß√£o da trilha sonora, que homenageia ritmos latinos e ib√©ricos.
H√° uma raz√£o pelo qual, numa partida entre Brasil e Camar√Ķes na Copa do Mundo, a maior parte do p√ļblico n√£o brasileiro torce para a sele√ß√£o africana: o ser-humano adora uma hist√≥ria de perseveran√ßa e supera√ß√£o, como diz o Professor em determinado momento.¬†La Casa de Papel¬†sabe¬†disso.
A primeira parte, com 13 episódios, segue disponível na Netflix e é digna de uma maratona que vai extrair, riso, tensão, ódio e uma incontrolável vontade de sempre passar para o próximo, tamanho envolvimento que desenvolvemos com aquelas pessoas, dos mais centrais aos mais coadjuvantes.
N√£o √©, e nem de longe, a melhor miniss√©rie do mundo como muitos fazem quest√£o de bradar para cada novo lan√ßamento da Netflix. √Č uma √ďTIMA s√©rie, cujo roteiro est√° repleto de buracos, mas que funciona em todos os sentidos justamente por cativar o seu p√ļblico entregando surpresas, reviravoltas e momentos emocionantes em meio a galhofas novelescas, pitorescas e muita (mais muita( ‚Äúfor√ßa√ß√£o de barra‚Äô.
Esse é o zeitgeist desse começo de ano, sim, mas é bom demais!

Quem é PikachuSama

Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.

 

  

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