Segunda, 09 De Julho De 2018

Notícias sobre Filmes, Séries e Netflix

Crítica | Altered Carbon (1ª Temporada)

Carbono Alterado, o primeiro romance do autor brit√Ęnico¬†Richard Morgan¬†(conhecido nos EUA com um ‚ÄúK‚ÄĚ entre nome e sobrenome), foi lan√ßado em 2002 e a roteirista e produtora Laeta Kalogridis adquiriu os direitos de sua adapta√ß√£o live action. Com certeza, ela viu o potencial das aventuras de Takeshi Kovacs em um futuro dist√≥pico em que a morte √© um mero inconveniente contorn√°vel com a transfer√™ncia da consci√™ncia da pessoa, guardada em um HD na base da nuca, para outros corpos ‚Äď ou ‚Äúcapas‚ÄĚ -, sejam eles clones, corpos ‚Äúusados‚ÄĚ ou at√© mesmo recept√°culos artificiais.
No entanto, ela precisou de nada menos do que 15 anos para finalmente levar o romance √† sua primeira adapta√ß√£o, em uma aquisi√ß√£o arriscada do Netflix considerando o teor violento e altamente sexualizado da obra liter√°ria em um cen√°rio tipicamente¬†cyberpunk noir¬†que √© uma bela fus√£o entre os trabalhos de¬†Philip K. Dick¬†e os de Dashiell Hammett ou Raymond Chandler.¬† Claro que Laeta e as produtoras envolvidas poderiam ter alterado radicalmente o conte√ļdo do texto de Morgan, mas n√£o √© isso que acabou sendo feito, o que √© ao mesmo tempo bom e ruim.
Bom, pois¬†Altered Carbon¬†n√£o √© uma fic√ß√£o cient√≠fica comportada, daquelas que podem ser vistas por toda a fam√≠lia sem constrangimentos. J√° temos muitas obra nessa linha assim e uma pegada mais brusca e crua √© definitivamente bem vinda. Por outro lado ‚Äď o ruim ‚Äď essas caracter√≠sticas poderiam muito facilmente servir de muletas narrativas para a s√©rie, com exageros que passariam por cima dos aspectos narrativos, algo que por muitas vezes a s√©rie n√£o consegue escapar.
J√° adianto que o resultado final me pareceu equilibrado se entendermos a proposta de uma s√©rie que transita ‚Äď assim como a obra original ‚Äď entre argui√ß√Ķes filos√≥ficas relevantes, homenagens entusiasmadas aos g√™neros liter√°rios que s√£o sua fonte prim√°ria, pancadaria descerebrada e sexo e erotismo ao ponto limite da breguice. H√° muito o que se apreciar no esfor√ßo colocado nas telinhas pela empresa de¬†streaming, mas tamb√©m muito o que reclamar, ainda que o conjunto seja harm√īnico e muito interessante, um¬†tour de force¬†que inicia um potencial franquia¬†sci-fi¬†sem muitos freios morais (h√° um epis√≥dio inteiro dedicado ao tema tortura, s√≥ para o espectador ter uma ideia).
Na hist√≥ria, Kovacs (vivido primordialmente por¬†Joel Kinnaman) √© acordado 250 anos depois de ser preso por soldados do Protetorado e √© encapado em uma capa que n√£o √© o corpo original dele para resolver um crime. O multimilion√°rio (para usar um eufemismo) Laurens Bancroft (James Purefoy) mexe os pauzinhos para retir√°-lo da geladeira de forma que ele possa elucidar sua pr√≥pria morte que a pol√≠cia, representada pela tenente Kristin Ortega (Martha Higareda), considera que foi suic√≠dio e se recusa a investigar mais profundamente. Sem sa√≠da e com uma oferta realmente irrecus√°vel, Kovacs parte para fazer as vezes de detetive particular em um mundo ao qual n√£o est√° muito familiarizado (apesar de sua adapta√ß√£o ser r√°pida demais e 250 anos n√£o parecerem que trouxeram evolu√ß√Ķes tecnol√≥gicas significativas desde que o protagonista fora encarcerado) e em uma trama que, logicamente, fica cada vez mais complexa, com um redemoinho de novas informa√ß√Ķes surpreendentes praticamente a cada epis√≥dio e com novos personagens gradativamente se juntando ou se opondo a ele de uma forma ou de outra, com destaque para a sensacional intelig√™ncia artificial Poe (Chris Conner), que adotara a apar√™ncia de ningu√©m menos do que Edgar Allan Poe e administra (na verdade √©) o hotel O Corvo (claro, o poema mais famoso do autor).
A narrativa rocambolesca s√≥ √© complicada na superf√≠cie, mas ela √© suficientemente bem constru√≠da para prender a aten√ß√£o ao longo dos 10 epis√≥dios da primeira temporada que, fico feliz em afirmar, √© em grande parte auto-contida, contando uma hist√≥ria com come√ßo, meio e fim. O que realmente importa ‚Äď at√© certo ponto, pelo menos ‚Äď √© o subtexto que faz as perguntas realmente interessantes, a primeira delas sendo √≥bvia: em que a humanidade se tornaria se a morte fosse retirada da equa√ß√£o? As implica√ß√Ķes s√£o muitas e a tentativa de resposta a essa pergunta pode levar a um universo de discuss√Ķes enriquecedoras. Se eu posso fazer o que quiser sem o risco de morrer (de verdade), ser√° que eu assumiria mais riscos ou a pr√≥pria vida tornar-se-ia t√£o banal ao ponto de n√£o ter mais import√Ęncia?
Em cima disso, a s√©rie indaga como isso afetaria a quest√£o s√≥cio-econ√īmica lidando com a enorme diferen√ßa que existe entre a volta √† vida para quem n√£o tem meios e o mesmo para quem tem muitos meios. Em outras palavras, os roteiros tentam replicar nossa sociedade atual nesse futuro estranho ‚Äď mas familiar ‚Äď no s√©culo XXIV sem esquecer das camadas religiosas e morais que¬† a imortalidade pode trazer.
Mas n√£o,¬†Altered Carbon¬†n√£o √© uma s√©rie que para com o objetivo de fazer essas perguntas ou mesmo mergulha muito profundamente nelas. A s√©rie preza por um ritmo forte e uma escolha narrativa clara: trata-se de uma s√©rie de a√ß√£o e a√ß√£o √© o que vemos a cada epis√≥dio, normalmente envolvendo armas de toda natureza, desde gigantescas metralhadoras dilacerantes que saem do teto, passando por armas de raio e chegando at√© mesmo a katanas e pequenas, mas destrutivas facas. E as c√Ęmeras n√£o se furtam de mostrar detalhes da carnificina, nem de usar e abusar de c√Ęmeras lentas e coreografias imposs√≠veis para dar conta do recado. Kovacs √© como o¬†Exterminador do Futuro¬†com anabolizantes misturado com¬†Neo¬†e todo o arsenal da¬†matrix¬†e mais um pouco em um cen√°rio em que, como disse, a morte real √© apenas um inconveniente.
Visualmente, a s√©rie n√£o tem vergonha alguma de praticamente pegar emprestado tudo aquilo que¬†Ridley Scott¬†construiu e notabilizou com seu seminal¬†Blade Runner. O visual sujo, mas colorido est√° todo l√°, com direito a becos mal iluminados, luzes de neon piscando, carros voadores, pr√©dios alt√≠ssimos, cigarros e u√≠sque (esses v√≠cios, pelo visto, acompanhar√£o para sempre a humanidade), e, claro, em termos de figurino, a transforma√ß√£o de Kovacs em uma vers√£o, digamos, bem menos sutil e muito mais mortal do Rick Deckard original, al√©m da presen√ßa de¬†femmes fatales¬†curvil√≠neas. E esse ‚Äúempr√©stimo‚ÄĚ todo faz pleno sentido considerando que tamb√©m a obra original de Morgan evoca a mesma coisa, s√≥ que sugando da fonte inesgot√°vel do autor cuja obra inspirou¬†Blade Runner.
Mas h√° um evidente exagero nesses visuais todos ao ponto de cansar um pouco, al√©m de um CGI que, quando toma a tela inteira, distrai o espectador quando deveria ajudar na imers√£o. O que em¬†Blade Runner¬†ou¬†Matrix¬†era sutil, em¬†Altered Carbon¬†√© escancarado, inclusive com v√°rios minutos de texto expositivo ou explica√ß√Ķes pseudo-cient√≠ficas de revirar os olhos. O que era sombrio nos cl√°ssicos, foi repaginado para o famoso ‚Äúescuro‚ÄĚ da chamada modernidade, daquele tipo que est√° l√° s√≥ para confundir o espectador. O que havia de clima e constru√ß√£o narrativa abre espa√ßo para obviedades e uma viol√™ncia e uma sexualiza√ß√£o (especialmente feminina) t√£o extrema que elas acabam se tornando progressivamente menos impressionantes a cada epis√≥dio. √Č a fadiga do exagero, do mais como sin√īnimo de melhor, dos fogos de artif√≠cio ocupando lugar de di√°logos marcantes e elenco azeitado. De toda maneira, mesmo com seus problemas,¬†Altered Carbonnunca tenta enganar o espectador e entrega aquilo que promete desde seu primeiro epis√≥dio: um espet√°culo tipicamente hollywoodiano, s√≥ que acima da m√©dia.
Quando falei brevemente do elenco, de forma alguma quis dizer que ele est√° ruim. Nada disso. Kinnaman, que se mostrou um excelente ator na espetacular¬†The Killing, aqui cumpre sua fun√ß√£o de ser a vers√£o mais magra e sem √≥culos escuros do T-800.¬†Martha Higareda como a policial Ortega tamb√©m funciona bem como a mulher sofredora e durona vinda de uma muito bem utilizada fam√≠lia cat√≥lica que ilustra o conflito entre acreditar em Deus e notar que o Homem tornou-se Deus nesse cen√°rio futurista. O mesmo vale para¬†Ato Essandoh, que vive Vernon Elliott, um torturado pai que acaba se tornando um hesitante parceiro de Kovacs. No entanto, os √ļnicos reais destaques s√£o James Purefoy e¬†Chris Conner, o primeiro em sua divertida canastrice extrema de vil√£o de filme de¬†James Bond¬†e o segundo por ser um leg√≠timo, mas tr√°gico al√≠vio c√īmico que incorpora muito bem o personagem digital com base no real que vive, quase como um¬†HAL 9000¬†palha√ßo.
Altered Carbon, mesmo com seus problemas, √© divers√£o garantida para quem comprar a premissa de ‚Äúpancadaria primeiro, filosofia depois‚ÄĚ que a s√©rie imprime desde o come√ßo. Sua mitologia √© bem explorada e bem costurada no caso detetivesco e a resolu√ß√£o √© suficientemente l√≥gica e bem amarrada para agradar em cheio quem n√£o quiser nada transcendental. H√°, sem d√ļvida, o potencial para mais do mesmo em uma segunda temporada, isso se o espectador n√£o ficar exausto depois de tanto sangue, sexo e cyberpancadas.
Altered Carbon ‚Äď 1¬™ Temporada (EUA, 02 de fevereiro de 2018)
Desenvolvimento:  Laeta Kalogridis (baseado em romance de Richard Morgan)
Direção: Miguel Sapochnik, Nick Hurran, Alex Graves, Uta Briesewitz, Andy Goddard, Peter Hoar
Roteiro: Laeta Kalogridis, Steve Blackman, Brian Nelson, Russel Friend, Garrett Lerner, Nevin Densham, Casey Fisher
Elenco: Joel Kinnaman, James Purefoy, Martha Higareda, Chris Conner, Dichen Lachman, Ato Essandoh, Kristin Lehman, Trieu Tran, Renée Elise Goldsberry, Leonardo Nam, Hayley Law, Will Yun Lee, Marlene Forte, Byron Mann, Tamara Taylor, Adam Busch, Olga Fonda, Waleed Zuaiter, Hiro Kanagawa, Matt Frewer, Tahmoh Penikett, Michael Eklund
Duração: 46 a 66 minutos por episódio (10 episódios no total)

Quem é PikachuSama

Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.

 

  

Posts Relacionados
%d blogueiros gostam disto: