Quinta, 12 De Julho De 2018

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Crítica | Com Selton Mello, O Mecanismo, série sobre a Lava Jato chega à Netflix

Bichos escrotos
Saiam dos esgotos
Bichos escrotos
Venham enfeitar
Meu lar, meu jantar
Meu nobre paladar!
‚Äď Tit√£s

Produzir conte√ļdo audiovisual sobre eventos, especialmente eventos pol√≠ticos, que, de uma forma ou de outra, ainda est√£o em andamento, √© uma tarefa ao mesmo tempo corajosa e arriscada, especialmente se levarmos em considera√ß√£o o mundo polarizado em que vivemos, com lados entrincheirados, aguerridos e prontos para boicotar obras e vociferar contra tudo que n√£o compartilha de suas respectivas ideologias. √Č uma pena que isso aconte√ßa, mas isso de forma alguma significa que eventos presentes ‚Äď ou pelo menos recentes ‚Äď n√£o devam ser convertidos em obras de fic√ß√£o, sejam de um lado ou de outro do espectro pol√≠tico.
O Mecanismo, produ√ß√£o brasileira do¬†Netflix¬†capitaneada por¬†Jos√© Padilha, cuja primeira colabora√ß√£o nos trouxe¬†Narcos, d√° um tratamento ficcional, em sua primeira temporada, ao come√ßo da Opera√ß√£o Lava Jato, com base no livro¬†Lava Jato: O Juiz Sergio Moro e os Bastidores da Opera√ßaŐÉo que Abalou o Brasil, de Vladimir Netto. Padilha, mestre em abordar a hist√≥ria brasileira recente, sabe transformar um texto √°rido e potencialmente moroso (sem trocadilho) em um¬†thriller¬†policial interessante e aterrador que de forma alguma tenta esconder ‚Äď e nem deveria ‚Äď seu posicionamento pol√≠tico. O vi√©s √© de exalta√ß√£o da opera√ß√£o capitaneada pela Pol√≠cia Federal (aqui Federativa) de Curitiba, com personagens que se aproximam muito dos originais, com apenas mudan√ßas de nomes ‚Äď por vezes jocosas e caricaturais como Dilma Roussef ser Janete Ruscov e Michel Temer ser¬† Samuel Themes ‚Äď e situa√ß√Ķes que espelham de maneira eficiente os meandros ou ‚Äúmecanismos‚ÄĚ da corrup√ß√£o no Brasil, algo que o roteiro deixa muito claro que n√£o √© novidade e nem exclusividade daqueles retratados na s√©rie.
Os roteiros dos epis√≥dios, todos escritos por¬†Elena Soarez, s√£o para l√° de did√°ticos, com repeti√ß√Ķes infind√°veis que batem na mesma tecla monoc√≥rdia praticamente a todo cap√≠tulo como o ‚Äúcombater o c√Ęncer n√£o deixa ningu√©m inc√≥lume‚ÄĚ e coisas assim. Mas existe uma raz√£o para isso, ainda que n√£o absolva seus textos: a s√©rie √© brasileira, mas foi feita para ser ‚Äúvendida‚ÄĚ para o mundo todo, assim como s√£o todas as s√©ries produzidas pelo Netflix. Portanto, assim como outras s√©ries fortemente politizadas como a terr√≠vel¬†Marseille, os eventos s√£o compassadamente explicados em seus m√≠nimos detalhes, at√© porque, para muito pa√≠s por a√≠, os meandros da podrid√£o que envolve doleiros, estatais, empreiteiras e diretamente o governo e toda a base pol√≠tica √© coisa de fic√ß√£o cient√≠fica, pelo menos no grau de amplitude e de profundidade com que isso se fincou no Brasil basicamente desde que Cabral chegou por aqui.
Mas a nojeira hist√≥rica tamb√©m n√£o pode servir de salvo conduto para o loda√ßal do presente ser perpetuado e a opera√ß√£o Lava Jato ‚Äď a verdadeira ou a ficcional ‚Äď tem seu papel importante na tentativa de se colocar o pa√≠s novamente nos trilhos. O que realmente espanta nos roteiros de Soarez, sendo seu verdadeiro e principal ponto positivo, √© como a autora deixa claro, nas entrelinhas, que esse ‚Äúmecanismo‚ÄĚ n√£o √© unicamente algo criado da cabe√ßa de pol√≠ticos bandidos ajudados por empres√°rios mais bandidos ainda. Ao contr√°rio, de maneira elegante e discreta, Soarez coloca a culpa em n√≥s, brasileiros, em nossa cegueira em compreender que aquilo que fazemos de errado no dia-a-dia ‚Äď desde jogar lixo na rua, passando por parar em vagas de idosos ‚Äús√≥ por um minutinho‚ÄĚ, entrar no vag√£o de mulheres no metr√ī ‚Äúsem querer‚ÄĚ, at√© dar um ‚Äúdinheirinho‚ÄĚ para policiais para n√£o levar multa e muito mais ‚Äď √© a base para a roubalheira em larga escala que estamos vendo a c√©u aberto hoje em dia. Tenho certeza que muita gente discordar√° dessa afirma√ß√£o, mas √© justamente a discord√Ęncia sobre esses aspectos pequenos que vemos acontecer toda hora que se transforma em neglig√™ncia ao ser encarada com naturalidade e ‚Äúparte da vida‚ÄĚ, desaguando na postura simplista do ‚Äúeles √© que s√£o corruptos, eu n√£o!‚ÄĚ. Basta parar e pensar para ver que o famoso ‚Äújeitinho‚ÄĚ √© a raiz de um ciclo vicioso inquebrant√°vel.
O m√©rito do roteiro, por√©m, acaba sendo dilu√≠do n√£o s√≥ pelo didatismo exacerbado representado pelas narra√ß√Ķes em¬†off, como tamb√©m pela quantidade de chav√Ķes e frases de efeito que Soarez insere na narrativa, algo que obviamente ecoa a base dos bem sucedidos¬†Tropa de Elite, mas que, aqui, cansa pela repeti√ß√£o, ainda que o ‚ÄúFez merda, n√©? Bom, vamos comigo que a gente vai desfazer essa merda.‚ÄĚ e o ‚ÄúQuem √© que foge para Bras√≠lia?‚ÄĚ sejam memor√°veis.
No campo das atua√ß√Ķes,¬†Selton Mello¬†mais uma vez mostra que √© um dos melhores atores brasileiros de sua gera√ß√£o, mesmo considerando sua irritante incapacidade de falar para fora, marca registrada sua desde os prim√≥rdios que torna a compress√£o do que ele balbucia bastante complicada (santa legenda!). Mas ele realmente est√° bem como o obsessivo e completamente perturbado delegado da policial federal Marco Ruffo (o avatar do delegado Gerson Machado) que, em 2003, consegue finalmente prender seu colega de inf√Ęncia e doleiro infame Roberto Ibrahim (Enrique D√≠az encarnando a vers√£o da s√©rie de¬†Alberto Youssef), somente para ver o trabalho de sua vida desfeito pela sana justiceira do Minist√©rio P√ļblico.
Aqui, a s√©rie faz algo inesperado e, em uma elipse de 10 anos, nos arremessa de 2003 para 2013, agora com a delegada Verena Cardoni (Caroline Abras¬†como o avatar da agente¬†Erika Marena) n√£o s√≥ no comando da nova vers√£o da opera√ß√£o, como tamb√©m no protagonismo efetivo da s√©rie at√© seu fim. Foi uma escolha arriscada, mas Abras mostra firmeza interpretando sua personagem, mesmo que por vezes pare√ßa muito ‚Äúdura‚ÄĚ, talvez em fun√ß√£o de um roteiro que n√£o lhe d√™ l√° muito espa√ßo interpretativo.
Quem realmente, porém, se destaca é mesmo Enrique Díaz, em atuação que imediatamente me lembrou a de Robert Knepper como T-Bag, em Prison Break, ou seja, um bandido safado e cafajeste moldado para que o odiemos, mas ao mesmo tempo que o amemos. Chega a ser uma incongruência, mas é um daquele prazeres inevitáveis que volta e meia temos que encarar e aceitar no cinema e na televisão. Díaz é o grande destaque da temporada, mastigando o cenário em todas as cenas em que aparece, mesmo quando contracena com Mello.
Em termos estruturais, a s√©rie √© como seu roteiro: burocr√°tica. S√£o tomadas externas com c√Ęmera parada intercaladas com internas da mesma forma, √†s vezes com arroubos de movimenta√ß√£o que n√£o acrescentam dramaticidade √† narrativa al√©m de um fim em si mesmo. N√£o √© nada que desabone a s√©rie, mas tamb√©m n√£o lhe traz qualquer qualidade efetivamente dest√°cavel, parecendo que a fotografia principal foi feita na correria. O mesmo vale para a dire√ß√£o de fotografia em si que usa filtros chapados, fazendo com que as sequ√™ncias ‚Äď independente do lugar onde se passam ‚Äď sejam quase que completamente iguais, diferenciadas apenas pelas legendas ‚Äúgeogr√°ficas‚ÄĚ e pelos¬†establishing shots¬†a√©reos de cada cidade.
O Mecanismo¬†√© uma s√©rie com potencial, mas que n√£o √© plenamente realizado aqui. Ela incomoda? Certamente. √Č feita para isso, especialmente quem se recusa a aceitar a exist√™ncia do problema e quem defende seus pol√≠ticos de estima√ß√£o. Portanto, inevitavelmente, ela cumpre sua fun√ß√£o e o boicote de certas pessoas que preferem n√£o encarar tudo que contrarie seu posicionamento pol√≠tico s√≥ ajuda seu IBOPE. √Č torcer para que Padilha saiba isolar o que a primeira temporada teve de bom e caprichar de verdade na pr√≥xima. Pois material √© o que n√£o falta, infelizmente‚Ķ

O Mecanismo (Brasil, 23 de março de 2018)
Showrunner: José Padilha, Elena Soarez
Direção: José Padilha, Felipe Prado, Marcos Prado, Daniel Rezende
Roteiro: Elena Soarez (baseado em obra de Vladimir Netto)
Elenco: Selton Mello, Caroline Abras, Enrique Díaz, Otto Jr., Jonathan Haagensen, Antonio Saboia, Alessandra Colassanti, Lee Taylor, Leonardo Medeiros, Ravel Cabral, Susana Ribeiro
Duração: 43 min. por episódio (8 episódios no total)
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