Quinta, 21 De Fevereiro De 2019

LOJA QUINTA CAPA

Crítica | Ergo Proxy, O existencialismo filosófico em forma de anime

Filosofia, existencialismo, razão e o vazio fazem de Ergo Proxy um dos animes mais interessantes da última década.

O texto é elaborado para quem já viu o anime, então se não assistiu – ele já tem 12 anos. Suma daqui!

Ergo Proxy é tão superior que já quebra as pessoas pela sua abertura. Coisa que até hoje poucos animes fizeram. Apenas veja:

 

 

Mas de volta ao anime, Ergo Proxy, ou conhecido no Japão como algo semelhante a “Erugo Purakushī” é uma obra que estreou no canal Japonês “WOWOW” em 25 de Fevereiro de 2006, sendo dirigido por Shikou Murase (Gangsta, Witch Hunter Robin…) e com roteiro de Dai Sato (Freedom, Eureka Seven…) produzido pelo estúdio Manglobe (Deadman Wonderland, Gangsta…). A obra cheia de elementos góticos, psicológicos e Cyber Punk, foi inicialmente muito bem recebida, apesar que após se revelar de fato, acabou sendo bastante contestada tanto no Japão, quanto fora. Porém apesar de não ter conquistado todos os corações, conseguiu boa reputação, e posteriormente em julho de 2008 a Geneon Entertainment e a Funimation Entertainment até mesmo trouxeram oficialmente o DVD da obra para ser comercializada na América do Norte, dando sinal de que a obra era lucrativa o suficiente para ganhar investimento, mesmo fazendo mais de dois anos do lançamento original. De 2006 até 2007 também foi lançado um mangá com o nome de “Ergo Proxy: Centzon Hitchers and Undertaker” inspirado no universo da obra, o mangá bastante curto encerrou com apenas 2 volumes, totalizando 10 capítulos.

Ele foi feito em um estilo de animação novo para sua época, a mistura de 2D com uma modelagem computadorizada em 3D chama atenção a distancia, assim como a protagonista feminina, Re=L, que para quem não notou foi inspirada em Amy Lee, que na época estava fazendo um tremendo sucesso. Além da parte gráfica ousada, o anime vem trazendo um enredo complexo, confuso e profundo. De fato o público alvo da obra é Seinen, ou seja, um público mais velho e definido na vida, mas o que você precisa saber é que para entender completamente a obra você vai precisar de muito conhecimento filosófico extra…

 

 Ergo proxy

 

…e nos apresenta a um terrível futuro distópico onde um apocalipse ambiental finalmente ocorreu, e o que resta no mundo são algumas “cúpulas” onde a vida humana pode existir sem problemas. A história se inicia em um dessas cúpulas conhecida como “Romdo” um lugar onde quase tudo é artificial, e a vida humana quase beira a perfeição. Em Romdo seres humanos são gerados através de úteros artificiais, e cada pessoa já nasce com sua “raison d’être” ou literalmente “Razão de ser”. Liderada por Donov Mayer, avô da protagonista da história, a população de Romdo quase não tem vontade própria, e vivem baseados em ordens, e em sua própria razão de ser. Cada humano nesse futuro anda acompanhado por um Autoreiv (Android) que os auxilia em seus afazeres cotidianos. Tais Androids tem uma inteligência artificial tão profunda, que podem até mesmo compreender dilemas humanos e os auxiliar a encontrar respostas, mas apesar disso eles não tem de fato uma existência. O enredo começa a correr de fato quando um vírus nomeado Cogito começa a infectar os Autoreiv, e faz com que eles comecem a agir por vontade própria, e isso muitas vezes acaba em assassinatos e desastres.

Ergo Proxy carrega logo em seu enredo inicial algo extremamente incomodo! Vamos pensar sobre o enredo? Cada humano nasce com uma Razão de Ser “de fábrica”, isso já vai contra o que acreditava Soren Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês do século XIX considerado pai do existencialismo, que sustentava a ideia de que “indivíduo é o único responsável em dar significado à sua vida e em vivê-la de maneira sincera e apaixonada”. Bom, o que há de tão ruim em ir contra as palavras de um filósofo antigo não é mesmo? Basta assistir Ergo Proxy, e é fácil entender como ir contra esse caminho natural pode acabar sendo ruim…

 

 Ergo proxy

 

O Vírus Cogito, que chega para arrasar com a complexa sociedade, nada mais é que a consciência, que infecta os Androids, lhes concedendo uma alma, fato esse que é revelado não só através do enredo, como também na ending da obra de nome “Paranoid Android” que durante a música conta a história de um Android consciente, inclusive o Vírus Cogito leva um nome que nos sugere tal fato. Cogito, vindo da famosa frase em latim de René Descartes: “Cogito, ergo sum” ou “Penso, logo existo”. Questionar a própria razão de existir, leva os Androids a descontrole, fúria, e enfim a cometer atos antes impossíveis para eles em Ergo Proxy.

 

E cá entre nós, os filósofos do “Existencialismo” eram bastante dramáticos com a questão da existência, resumindo o pensamento de muitos posso adicionar que vários deles encontraram a conclusão de que se caso Deus não existisse, não haveria motivo para existir, logo o suicídio ou a admissão de uma vida miserável e desgraçada são as únicas opções, logo a fé é necessária para uma vida esperançosa. Indo nesse caminho, Ergo Proxy nos apresenta a criaturas humanoides que quando ganham o direito de existir, preferem matar seus donos, ou cometerem suicídio, afinal eles diferentes dos humanos não tem a razão de existir, logo é melhor a morte, já que não são humanos com fé e um pós morte esperado por todos.

Dividindo protagonismo com Re=L temos Vincent Law, um estrangeiro que logo de inicio aparenta ser diferente de qualquer outro humano, afinal ele parece não ter uma razão de ser. E de fato não tem mesmo… Do lado de fora do domo apenas poucas pessoas doentes e miseráveis vivem. O céu coberto por nuvens negras impede o sol de aparecer, a terra devastada, o vento que corre livre sobre a superfície vazia, a escuridão e a solidão. A morte parece estar livre sobre a terra, e não permite que nem mesmo as mais asquerosas criaturas sobrevivam. Por que precisaríamos de um herói? Não precisamos… Vincent nem precisa se incomodar em tentar ser um…

 

Vincent Law

 

Quantas vezes não quis ser protagonista de um enredo pós apocalíptico? Combater Zombies, Titans, Kabanes, seja o que for, existe um inimigo, que tornou a terra impossível de ser habitada, e você, o herói, tem como objetivo reaver a terra para os seus, matar o vilão, e pegar a mocinha(o). A “razão de ser” de um protagonista é vencer o antagonista e demonstrar que o bem sempre vence. Lutar contra o que está errado, e tornar certo. Abrir espaço para que todos sejam diferentes ou semelhantes, possam viver em paz. Agora, eu levanto o questionamento: Qual é a razão de ser de um protagonista sem antagonista? Qual a batalha de um herói que não tem como vencer? Esse é o cenário proposto em Ergo Proxy.

Um mundo onde quem causou a destruição foram humanos, humanos esses que já morreram há várias gerações. O mundo está deserto, a vida abandonou a terra, existem inimigos, mas não um motivo para lutar contra eles. Arriscar a vida para conseguir um pedaço de pão? Lutar por um amontoado de metal retorcido para usar como teto? Não existem milagres, não existem soluções. Todo o apocalipse popular da cultura pop é baseado em liberdade, um mundo sem regras, e com objetivos bem definidos que se cumpridos levam a sobrevivência da espécie e a exaltação de um herói. Em contrapartida, Ergo proxy tem como cenário um último instante de sobrevivência de uma espécie, onde sobreviver é bem mais doloroso que morrer. Por um longo espaço do enredo, o protagonista luta sem motivo, vive sem razão, isso faz o enredo parecer bagunçado, mas a verdade é que ele é apenas triste, vazio e realístico.

Em Romdo quem reina é Donov Mayer, um homem velho e debilitado, com ideais bastante questionáveis, e que se faz existir através de quatro estátuas baseadas em algumas das obra de Michelangelo, e que são nomeadas em homenagem a quatro grandes filósofos: Derrida, Lacan, Husserl e Berkeley. Tal homem tem como ambição dominar a tecnologia há muito deixada por ancestrais humanos, para agirem como deuses sobre a terra, chamados Proxy. Em todo o caos do enredo, encontramos o nosso protagonista Vincent Law, se descobrindo ser o “Mensageiro da Morte”, aquele que vem para marcar o fim de algo, nesse caso aparentemente o fim da existência humana, fato que mais tarde vem a se desenrolar com o verdadeiro fim de Romdo, mas o prevalecimento da raça humana. Em cenário de fundo, o anime nos revela a verdadeira função dos proxy, que foram deixados para preservar cada domo, mas quando suas missões terminassem, certamente morreriam, sem nenhum tipo de recompensa ou motivo, tal função descontrolou a maior parte deles, e por um tempo perturbou até mesmo Vincent Law, que busca uma razão de ser. Um protagonista desmotivado, e que se descobre como vilão.

 Donov Mayer

 

Ergo Proxy é complexo, filosófico, e tem em seu enredo alguns sub temas bem incomuns em animes como o Biopunk e o apocalipse ambiental. Mas o que considero a maior particularidade dessa obra é a “falta de motivo“, a “falta de objetivo” para os personagens, que são movidos pela busca da razão de ser. Re=L é o tempo todo movida por sua razão de ser, que é questionar. Ela questiona tudo, e busca resposta para qualquer acontecimento. Não é preciso ser grande, e interessante para causar atenção nela, afinal o mundo está destruído, nada de realmente importante existe mais, a própria sobrevivência é um esforço quase desnecessário, viver se tornou uma tortura, mas para esse personagem, o conhecimento ainda vale a pena o esforço, contrastando com grande parte do elenco, que se demonstra apenas viver por medo da morte. Vincent Law como afirmei acima, é um herói sem vilão, e quando é carregado por Re=a buscar a verdade, acaba se deparando com uma realidade, onde ele mesmo é o vilão que ele mesmo busca. No fim, não tem a quem culpar…

Já tive a oportunidade de ler comentários de pessoas que afirmam que Ergo Proxy não é interessante, e nesse texto do inicio ao fim eu preferi provar ao contrário; é interessante até demais. Um futuro pós apocalíptico onde há solução é uma fantasia tão egocêntrica, que chega a ser infantil. Muitos desejam viver uma situação semelhante, e depositam essa vontade em obras que seguem esse ritmo egocêntrico de destruir o mundo, para um herói salvar e reconstruir, para no fim ser como era antes. Após os Titans morrerem, os Zumbis perecerem, e os Kabanes desaparecerem, o mundo enfim volta a ser normal, sem existência do sobrenatural, aventuras ou heróis. Após o vilão morrer, um herói é desnecessário, e perde a sua “raison d’être“, após a guerra soldados se tornam indesejados, são tratados como desequilibrados e afastados da sociedade. Em Ergo Proxy, para começo de conversa nunca foi necessário um herói, e no fim ninguém acabou se tornando o grande vilão, o enredo apenas iniciou, passou, e aconteceu; sem deixar para trás grandes culpados ou heróis, uma obra singular e bastante interessante de observar.

 Donov Mayer

 

 

 

Quem é PikachuSama

Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.

 

  

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