Segunda, 17 De Dezembro De 2018

Anuncie Aqui!

Crítica | Ergo Proxy, O existencialismo filosófico em forma de anime

Filosofia, existencialismo, raz√£o e o vazio fazem de Ergo Proxy um dos animes mais interessantes da √ļltima d√©cada.

O texto é elaborado para quem já viu o anime, então se não assistiu Рele já tem 12 anos. Suma daqui!

Ergo Proxy é tão superior que já quebra as pessoas pela sua abertura. Coisa que até hoje poucos animes fizeram. Apenas veja:

 

 

Mas de volta ao anime, Ergo Proxy, ou conhecido no Jap√£o como algo semelhante a “Erugo Purakushńę” √© uma obra que estreou no canal Japon√™s “WOWOW” em 25 de Fevereiro de 2006, sendo dirigido por Shikou Murase (Gangsta, Witch Hunter Robin…) e com roteiro de Dai Sato (Freedom, Eureka Seven…) produzido pelo est√ļdio Manglobe (Deadman Wonderland, Gangsta…). A obra cheia de elementos g√≥ticos, psicol√≥gicos e Cyber Punk, foi inicialmente muito bem recebida, apesar que ap√≥s se revelar de fato, acabou sendo bastante contestada tanto no Jap√£o, quanto fora. Por√©m apesar de n√£o ter conquistado todos os cora√ß√Ķes, conseguiu boa reputa√ß√£o, e posteriormente em julho de 2008 a Geneon Entertainment e a Funimation Entertainment at√© mesmo trouxeram oficialmente o DVD da obra para ser comercializada na Am√©rica do Norte, dando sinal de que a obra era lucrativa o suficiente para ganhar investimento, mesmo fazendo mais de dois anos do lan√ßamento original. De 2006 at√© 2007 tamb√©m foi lan√ßado um mang√° com o nome de “Ergo Proxy: Centzon Hitchers and Undertaker” inspirado no universo da obra, o mang√° bastante curto encerrou com apenas 2 volumes, totalizando 10 cap√≠tulos.

Ele foi feito em um estilo de anima√ß√£o novo para sua √©poca, a mistura de 2D com uma modelagem computadorizada em 3D chama aten√ß√£o a distancia, assim como a protagonista feminina, Re=L, que para quem n√£o notou foi inspirada em Amy Lee, que na √©poca estava fazendo um tremendo sucesso. Al√©m da parte gr√°fica ousada, o anime vem trazendo um enredo complexo, confuso e profundo. De fato o p√ļblico alvo da obra √© Seinen, ou seja, um p√ļblico mais velho e definido na vida, mas o que voc√™ precisa saber √© que para entender completamente a obra voc√™ vai precisar de muito conhecimento filos√≥fico extra…

 

 Ergo proxy

 

…e nos apresenta a um terr√≠vel futuro dist√≥pico onde um apocalipse ambiental finalmente ocorreu, e o que resta no mundo s√£o algumas “c√ļpulas” onde a vida humana pode existir sem problemas. A hist√≥ria se inicia em um dessas c√ļpulas conhecida como “Romdo” um lugar onde quase tudo √© artificial, e a vida humana quase beira a perfei√ß√£o. Em Romdo seres humanos s√£o gerados atrav√©s de √ļteros artificiais, e cada pessoa j√° nasce com sua “raison d’√™tre” ou literalmente “Raz√£o de ser”. Liderada por Donov Mayer, av√ī da protagonista da hist√≥ria, a popula√ß√£o de Romdo quase n√£o tem vontade pr√≥pria, e vivem baseados em ordens, e em sua pr√≥pria raz√£o de ser. Cada humano nesse futuro anda acompanhado por um Autoreiv (Android) que os auxilia em seus afazeres cotidianos. Tais Androids tem uma intelig√™ncia artificial t√£o profunda, que podem at√© mesmo compreender dilemas humanos e os auxiliar a encontrar respostas, mas apesar disso eles n√£o tem de fato uma exist√™ncia. O enredo come√ßa a correr de fato quando um v√≠rus nomeado Cogito come√ßa a infectar os Autoreiv, e faz com que eles comecem a agir por vontade pr√≥pria, e isso muitas vezes acaba em assassinatos e desastres.

Ergo Proxy carrega logo em seu enredo inicial algo extremamente incomodo! Vamos pensar sobre o enredo? Cada humano nasce com uma Raz√£o de Ser “de f√°brica”, isso j√° vai contra o que acreditava Soren Kierkegaard, fil√≥sofo e te√≥logo dinamarqu√™s do s√©culo XIX considerado pai do existencialismo, que sustentava a ideia de que “indiv√≠duo √© o √ļnico respons√°vel em dar significado √† sua vida e em viv√™-la de maneira sincera e apaixonada”. Bom, o que h√° de t√£o ruim em ir contra as palavras de um fil√≥sofo antigo n√£o √© mesmo? Basta assistir Ergo Proxy, e √© f√°cil entender como ir contra esse caminho natural pode acabar sendo ruim…

 

 Ergo proxy

 

O V√≠rus Cogito, que chega para arrasar com a complexa sociedade, nada mais √© que a consci√™ncia, que infecta os Androids, lhes¬†concedendo uma alma, fato esse que √© revelado n√£o s√≥ atrav√©s do enredo, como tamb√©m na ending da obra de nome “Paranoid Android” que durante a m√ļsica conta a hist√≥ria de um Android consciente, inclusive o V√≠rus Cogito leva um nome que nos sugere tal fato. Cogito, vindo da famosa frase em latim de Ren√© Descartes: “Cogito, ergo sum” ou “Penso, logo existo”. Questionar a pr√≥pria raz√£o de existir, leva os Androids a descontrole, f√ļria, e enfim a cometer atos antes imposs√≠veis para eles em Ergo Proxy.

 

E c√° entre n√≥s, os fil√≥sofos do “Existencialismo” eram bastante dram√°ticos com a quest√£o da exist√™ncia, resumindo o pensamento de muitos posso adicionar que v√°rios deles encontraram a conclus√£o de que se caso Deus n√£o existisse, n√£o haveria motivo para existir, logo o suic√≠dio ou a admiss√£o de uma vida miser√°vel e desgra√ßada s√£o as √ļnicas op√ß√Ķes, logo a f√© √© necess√°ria para uma vida esperan√ßosa. Indo nesse caminho, Ergo Proxy nos apresenta a criaturas humanoides que quando ganham o direito de existir, preferem matar seus donos, ou cometerem suic√≠dio, afinal eles diferentes dos humanos n√£o tem a raz√£o de existir, logo √© melhor a morte, j√° que n√£o s√£o humanos com f√© e um p√≥s morte esperado por todos.

Dividindo protagonismo com Re=L¬†temos Vincent Law, um estrangeiro que logo de inicio aparenta ser diferente de qualquer outro humano, afinal ele parece n√£o ter uma raz√£o de ser. E de fato n√£o tem mesmo… Do lado de fora do domo apenas poucas pessoas doentes e miser√°veis vivem. O c√©u coberto por nuvens negras impede o sol de aparecer, a terra devastada, o vento que corre livre sobre a superf√≠cie vazia, a escurid√£o e a solid√£o. A morte parece estar livre sobre a terra, e n√£o permite que nem mesmo as mais asquerosas criaturas sobrevivam. Por que precisar√≠amos de um her√≥i? N√£o precisamos… Vincent nem precisa se incomodar em tentar ser um…

 

Vincent Law

 

Quantas vezes n√£o quis ser protagonista de um enredo p√≥s apocal√≠ptico? Combater Zombies, Titans, Kabanes, seja o que for, existe um inimigo, que tornou a terra imposs√≠vel de ser habitada, e voc√™, o her√≥i, tem como objetivo reaver a terra para os seus, matar o vil√£o, e pegar a mocinha(o). A “raz√£o de ser” de um protagonista √© vencer o antagonista e demonstrar que o bem sempre vence. Lutar contra o que est√° errado, e tornar certo. Abrir espa√ßo para que todos sejam diferentes ou semelhantes, possam viver em paz. Agora, eu levanto o questionamento: Qual √© a raz√£o de ser de um protagonista sem antagonista? Qual a batalha de um her√≥i que n√£o tem como vencer? Esse √© o cen√°rio proposto em Ergo Proxy.

Um mundo onde quem causou a destrui√ß√£o foram humanos, humanos esses que j√° morreram h√° v√°rias gera√ß√Ķes. O mundo est√° deserto, a vida abandonou a terra, existem inimigos, mas n√£o um motivo para lutar contra eles. Arriscar a vida para conseguir um peda√ßo de p√£o? Lutar por um amontoado de metal retorcido para usar como teto? N√£o existem milagres, n√£o existem solu√ß√Ķes. Todo o apocalipse popular da cultura pop √© baseado em liberdade, um mundo sem regras, e com objetivos bem definidos que se cumpridos levam a sobreviv√™ncia da esp√©cie e a exalta√ß√£o de um her√≥i. Em contrapartida, Ergo proxy tem como cen√°rio um √ļltimo instante de sobreviv√™ncia de uma esp√©cie, onde sobreviver √© bem mais doloroso que morrer. Por um longo espa√ßo do enredo, o protagonista luta sem motivo, vive sem raz√£o, isso faz o enredo parecer bagun√ßado, mas a verdade √© que ele √© apenas triste, vazio e real√≠stico.

Em Romdo quem reina √© Donov Mayer, um homem velho e debilitado, com ideais bastante question√°veis, e que se faz existir atrav√©s de quatro est√°tuas baseadas em algumas das obra de Michelangelo, e que s√£o nomeadas em homenagem a quatro grandes fil√≥sofos: Derrida, Lacan, Husserl e Berkeley. Tal homem tem como ambi√ß√£o dominar a tecnologia h√° muito deixada por ancestrais humanos, para agirem como deuses sobre a terra, chamados Proxy. Em todo o caos do enredo, encontramos o nosso protagonista Vincent Law, se descobrindo ser o “Mensageiro da Morte”, aquele que vem para marcar o fim de algo, nesse caso aparentemente o fim da exist√™ncia humana, fato que mais tarde vem a se desenrolar com o verdadeiro fim de Romdo, mas o prevalecimento da ra√ßa humana. Em cen√°rio de fundo, o anime nos revela a verdadeira fun√ß√£o dos proxy, que foram deixados para preservar cada domo, mas quando suas miss√Ķes terminassem, certamente morreriam, sem nenhum tipo de recompensa ou motivo, tal fun√ß√£o descontrolou a maior parte deles, e por um tempo perturbou at√© mesmo Vincent Law, que busca uma raz√£o de ser. Um protagonista desmotivado, e que se descobre como vil√£o.

 Donov Mayer

 

Ergo Proxy √© complexo, filos√≥fico, e tem em seu enredo alguns sub temas bem incomuns em animes como o Biopunk e o apocalipse ambiental. Mas o que considero a maior particularidade dessa obra √© a “falta de motivo“, a “falta de objetivo” para os personagens, que s√£o movidos pela busca da raz√£o de ser. Re=L¬†√© o tempo todo movida por sua raz√£o de ser, que √© questionar. Ela questiona tudo, e busca resposta para qualquer acontecimento. N√£o √© preciso ser grande, e interessante para causar aten√ß√£o nela, afinal o mundo est√° destru√≠do, nada de realmente importante existe mais, a pr√≥pria sobreviv√™ncia √© um esfor√ßo quase desnecess√°rio, viver se tornou uma tortura, mas para esse personagem, o conhecimento ainda vale a pena o esfor√ßo, contrastando com grande parte do elenco, que se demonstra apenas viver por medo da morte. Vincent Law como afirmei acima, √© um her√≥i sem vil√£o, e quando √© carregado por¬†Re=L¬†a buscar a verdade, acaba se deparando com uma realidade, onde ele mesmo √© o vil√£o que ele mesmo busca. No fim, n√£o tem a quem culpar…

J√° tive a oportunidade de ler coment√°rios de pessoas que afirmam que Ergo Proxy n√£o √© interessante, e nesse texto do inicio ao fim eu preferi provar ao contr√°rio; √© interessante at√© demais. Um futuro p√≥s apocal√≠ptico onde h√° solu√ß√£o √© uma fantasia t√£o egoc√™ntrica, que chega a ser infantil. Muitos desejam viver uma situa√ß√£o semelhante, e depositam essa vontade em obras que seguem esse ritmo egoc√™ntrico de destruir o mundo, para um her√≥i salvar e reconstruir, para no fim ser como era antes. Ap√≥s os Titans morrerem, os Zumbis perecerem, e os Kabanes desaparecerem, o mundo enfim volta a ser normal, sem exist√™ncia do sobrenatural, aventuras ou her√≥is. Ap√≥s o vil√£o morrer, um her√≥i √© desnecess√°rio, e perde a sua “raison d’√™tre“, ap√≥s a guerra soldados se tornam indesejados, s√£o tratados como desequilibrados e afastados da sociedade. Em Ergo Proxy, para come√ßo de conversa nunca foi necess√°rio um her√≥i, e no fim ningu√©m acabou se tornando o grande vil√£o, o enredo apenas iniciou, passou, e aconteceu; sem deixar para tr√°s grandes culpados ou her√≥is, uma obra singular e bastante interessante de observar.

 Donov Mayer

 

 

 

Quem é PikachuSama

Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.

 

  

Posts Relacionados
%d blogueiros gostam disto: