Sexta, 22 De Fevereiro De 2019

LOJA QUINTA CAPA

Crítica – “Mandy” e o pesadelo lisérgico oitentista!

Entrei em êxtase  ao ver o trailer de “Mandy” pela primeira vez! Uma história de vingança. Fanáticos de uma seita religiosa. Nicolas Cage maníaco fazendo um machado de design medieval/futurista. Uma gangue de motoqueiros mutantes. A logo do filme naquela tipografia incompreensível de alguma banda obscura de black metal acompanhada de uma cena com um duelo de serras-elétricas. Finalmente uma alma caridosa – – e de nome esdrúxulo – – iria nos tirar do marasmo atual do cinema de horror americano com suas continuações e spin-offs de franquias que já deram o que tinham de dar. Enfim, alguém para nos dar aquilo o que realmente importa no cinema: um espetáculo gráfico da mais pura demência goresca!

Enfim, divaguei.

Nicolas Cage l “Mandy” – 2018.

Em 1983, Red Miller vive pacificamente junto a sua esposa Mandy em uma localidade chamada Shadows Mountains. Ele, um lenhador e ela, uma desenhista, fã de Metal – – o Rock – – e de leitura. Ambos em harmonia, com direito a passeios no lago, conversas sobre planetas e noites sob o luar, a luz da fogueira. Porém, em um dia fatídico, Mandy cruza com um veículo de uma seita de fanáticos religiosos chamada “Crianças do Novo Amanhecer” onde seu líder acaba se encantando com a moça. Eles fazem um pacto com uma gangue de motoqueiros psicóticos mutantes para os ajudar na tarefa de invadir a casa do casal e torna-la uma de suas seguidoras. O plano dá errado e ela é morta brutalmente na frente de Red que após o choque sai à caça de todos armado de um machado e uma besta – – a arma, não uma pessoa – – turbinado por goró, pó e ácido (falo sério!).

Cobrar sentido e originalidade a um filme como “Mandy” é bobagem e se pela sinopse você o achou com um ar oitentista, não é apenas impressão. A escolha da década de 80 e mais especificamente o ano de 1983 na ambientação não é aleatória. Para o jovem diretor ítalo-canadense Panos Cosmatos essa referência tem a ver com memórias afetivas de sua infância, quando exercitava sua imaginação olhando as capas e sinopses de filmes de terror em VHS, já que ele não podia assistir por conta da idade. Outro fator é ele ser filho de George P. Cosmatos, diretor de dois clássicos dos 80s: “Rambo II” e “Cobra” (ambos estrelados por Sylvester Stallone), sendo assim o jovem pode chafurdar nesse terreno com propriedade.

Andrea Riseborough l “Mandy” – 2018

Felizmente, esses fatores não tornam “Mandy” um pastiche; Cosmatos imprime sua marca nos entregando um longa visualmente espetacular, com cores fortes e saturadas, conferindo uma atmosfera ora psicodélica e onírica – – nas sequências focadas no relacionamento entre Red e Mandy – – ora mais sufocante e agressiva, na segunda parte do filme centrada na revanche de Red. Lembram do ar oitentista que eu citei mais acima? Pois é, ele permeia toda a obra e enriquecem a narrativa: desde a captação de imagens usando o sistema anamórfico da Panavision – – deixando as imagens mais alongadas e distorcidas, ao invés do widescreen padrão, logo, conferindo uma imagem mais “antiga”, passando pela inserção de cenas em animação com forte influência da revista “Heavy Metal”, até a trilha sonora sintetizada composta por Jóhann Jóhannsson, que por tabela ecoa John Carpenter. De bônus, a participação de Bill Duke, famoso coadjuvante em produções como “Predador” e “Comando Para Matar”.

Ter um filme com uma premissa tão tresloucada necessitava de um ator a altura para interpretar um protagonista com tendências destrutivas tão fortes e Nicolas Cage entrega o exagero necessário para isso. Interessante notar que, inicialmente, ele não era cotado para ser Red Miller, mas sim, Jeremiah Sand, seu antagonista. A presença de Cage veio pela indicação de Elijah Wood – – o filme é produzido por sua companhia, a Spectrevision – – que deu o roteiro do filme (escrito pelo próprio Cosmatos) a ele, que empolgado conversou com o diretor para ser o protagonista. Essa empolgação em querer interpretar Red veio como uma maneira de Cage exorcizar o fim de seu terceiro casamento e a perda de seu pai – – já que o personagem
lida justamente com esse sentimento.

Duelo de serras elétricas? Sim! l “Mandy” – 2018.

De uma maneira geral, “Mandy” é um bom filme e Panos Cosmatos é um nome a se prestar atenção, já que este é apenas o seu segundo filme. Na primeira vez que o assisti fiquei levemente decepcionado por não ter o excesso de carnificina que eu esperava – – não para os meus padrões doentios – – mas revendo-o achei que ficou melhor assim, pois poderia cair no risco de ficar caricato em excesso. O cuidado do diretor com toda a produção, além da entrega do elenco, torna a experiência divertida e nos dá um revival honesto.

E palmas para o maravilhoso e satânico comercial de “Cheddar Goblin” em um determinado momento do filme. Depois dele o queijo cheddar nunca mais será o mesmo.

“Mandy” estreou no festival de Sundance em Janeiro e galgou 100% de aprovação no Rotten Tomatoes. A estreia oficial nos USA foi em 14 de Setembro, já aqui no Brasil ainda não foi divulgado.

  • "Mandy" - 2018
  • Direção: Panos Cosmatos
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