Terça, 10 De Julho De 2018

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Crítica | Vingadores: Guerra Infinita (Com todos os Spoilers possíveis)

Tem nosso crítica sem Spoiler Aqui.
 
Zona de Spoiler. Leia por sua conta e risco.

Personagens demais, depend√™ncia quase total de acontecimentos de outros filmes, dura√ß√£o inchada, CGI aos borbot√Ķes e expectativas extremadas. Em outras circunst√Ęncias, estaria formada a tempestade perfeita para que¬†Vingadores: Guerra Infinita¬†desapontasse profundamente. Mas o cume da montanha de 19 filmes que a Marvel Studios n√£o s√≥ construiu como escalou sozinha, mesmo que com alguns leves percal√ßos aqui e ali, √© o imposs√≠vel cinematogr√°fico acontecendo diante de nossos olhos, um filme que, se os f√£s j√° estavam predispostos a gostar pouco importando qualquer coisa, √©, de seu pr√≥prio modo, uma obra-prima da convers√£o de quadrinhos em Cinema, esse com ‚ÄúC‚ÄĚ mai√ļsculo mesmo, al√©m de tamb√©m funcionar como uma obra que at√© um espectador casual poderia sentar para assistir sem perder o fio da meada b√°sico tamanha √© a familiaridade estrutural que o roteiro de¬†Christopher Markus¬†e¬†Stephen McFeely¬†imprime e que a dire√ß√£o dos¬†Irm√£os Russo¬†coloca na telona com maestria.
Mas, claro,¬†Guerra Infinita¬†√© muito mais um filme para f√£s; um presente, na verdade, para aqueles que investiram nesses 10 anos de Universo Cinematogr√°fico Marvel ‚Äď os primeiros 10 anos como o est√ļdio faz quest√£o de frisar ‚Äď tamanha √© a costura de refer√™ncias internas que √© feita aqui. Se, habitualmente, os filmes do UCM eram ricos em refer√™ncias ao material fonte, ou seja, aos quadrinhos, agora h√° material inter-filmes mais do que suficiente para que os pontos possam ser ligados desde a Fase Um at√©¬†Pantera Negra, o mais recente da Fase Tr√™s. √Č, literalmente, como se uma gigantesca saga dos quadrinhos se materializasse em filme diante dos nossos olhos.
√Č curioso que, quando o filme foi anunciado,¬†Guerra Infinita¬†tinha duas partes para que, depois, o subt√≠tulo da segunda parte fosse alterado e mantido em mist√©rio. Digo curioso pois¬†Guerra Infinita¬†√©, inescapavelmente, a parte um de dois de uma hist√≥ria s√≥, independente do subt√≠tulo que seja anunciado. Na verdade, mais do que o come√ßo de alguma coisa, o filme √©, mais propriamente falando, a parte do meio de uma hist√≥ria cuja primeira parte √© composta por nada menos do que 18 filmes. S√£o 18 prel√ļdios auto-contidos que cont√™m pe√ßas de um quebra-cabe√ßas maior que come√ßa a ser montado aqui e ter√° seu fim efetivo um ano depois. Portanto, olhando friamente,¬†Guerra Infinita, assim como o pr√≥prio infinito, n√£o tem come√ßo e n√£o tem fim, iniciando em meio √† a√ß√£o diretamente conectada com¬†Thor: Ragnarok¬†e acabando em um mega-√ľber-cliffhanger¬†que imediatamente d√° vontade de correr atr√°s da Joia do Tempo somente para avan√ßar meses no futuro para ver como √© que o c√≠rculo ser√° fechado.
Em circunst√Ęncias normais, essa caracter√≠stica seria um aspecto negativo, mas, aqui, ela √© da ess√™ncia do filme e n√£o pode ser constru√≠da como algo que detraia do todo, ainda que, como mencionei, esse todo funcione at√© mesmo para quem n√£o viu as obras anteriores, j√° que a hist√≥ria, em sua camada mais externa, √© simples e objetiva: vil√£o quer destruir metade do universo e, para isso, tenta recolher seis MacGuffins coloridos, com duas d√ļzias de super-her√≥is em seu encal√ßo tentando impedi-lo. √Č muito mais f√°cil algum incauto entender¬†Guerra Infinita¬†de chofre do que, por exemplo, outros tr√™s c√©lebres e magn√≠ficos ‚Äúfilmes do meio‚ÄĚ, ou seja,¬†O Imp√©rio Contra-Ataca,¬†De Volta para o Futuro Parte II¬†e¬†As Duas Torres.¬† No entanto, como tamb√©m afirmei, a caracter√≠stica de presente aos f√£s e cume de uma antes inimagin√°vel montanha s√≥ ser√° verdadeiramente capturado por quem tiver acompanhado a jornada completa at√© a chegada definitiva de Thanos e seus¬†minions¬†√† Terra.
Feito esse prel√ļdio, vamos conversar ent√£o sobre mais detalhes desse¬†tour de force¬†de fazer qualquer f√£ ter ataques card√≠acos sucessivos na cadeira do cinema. Como fiz na¬†cr√≠tica com¬†spoilers¬†de¬†Pantera Negra, inseri meus¬†quadros azuis de implic√Ęncia¬†que s√£o s√≥ isso mesmo, ‚Äúimplic√Ęncias‚ÄĚ inconsequentes para a forma√ß√£o da avalia√ß√£o final.

Thanos, Thanos, Thanos e mais Thanos

 

Visto apenas em cenas esparsas ao longo de alguns dos 18 prel√ļdios, Thanos manteve-se como uma figura misteriosa por 10 anos. O medo era que ele fosse apenas ‚Äúmais um vil√£o‚ÄĚ da Marvel Studios que, temos que convir, muito raramente trazia para as telonas encarna√ß√Ķes realmente interessantes de seus antagonistas cl√°ssicos dos quadrinhos. E esse medo era plenamente justificado n√£o s√≥ pelos exemplos pregressos, como tamb√©m pelo fato √≥bvio que, com algo como 25 super-her√≥is zanzando pelo filme, n√£o haveria espa√ßo para o Tit√£ Louco mostrar a que veio.
Mas esse receio √© dissipado completamente em¬†Guerra Infinita. Ali√°s, mais do que isso, diria que o jogo vira no filme desde seus minutos iniciais, quando Thanos, com sua famosa armadura dos quadrinhos, espanca o Hulk sem d√≥ nem piedade ao ponto de, depois, o Gigante Esmeralda passar a ter medo de aparecer para um segundo¬†round.¬† E, nessa mesma toada, que transforma¬†Thor: Ragnarok¬†de uma com√©dia¬†sci-fi¬†em um filme sombrio, tr√°gico mesmo, vemos que os asgardianos foram exterminados, com Loki (Tom Hiddleston) tendo seu pesco√ßo quebrado e Heimdall (Idris Elba) seu ventre perfurado diante de nossos incr√©dulos olhos. Afinal, como assim o Hulk √© nocauteado e Loki ‚Äď LOKI! ‚Äď √© assassinado sem mais nem menos? N√£o havia, por√©m, melhor come√ßo para¬†Guerra Infinita¬†e, especialmente, para Thanos. Esse √© o ponto em que, com nem 10 minutos de filme, compramos a gravidade da situa√ß√£o e a impon√™ncia e seriedade do vil√£o.
Acontece, por√©m, que isso n√£o era suficiente para a dupla de roteiristas. Thanos, na cabe√ßa deles, precisava de mais espa√ßo e √© isso que eles d√£o ao personagem, impressionantemente reduzindo o brilho de absolutamente todos os super-her√≥is ‚Äď alguns mais, outros menos ‚Äď e enxertando camadas ao antagonista de maneira que sua empreitada de destrui√ß√£o em massa, por mais absurda que possa parecer, n√£o consegue minar completamente a empatia que sentimos pelo personagem e nem parece t√£o absurda assim no final das contas. Fa√ßo, aqui, aquela compara√ß√£o cl√°ssica entre os vil√Ķes do estilo que vemos nos¬†filmes de James Bond¬†com o Sr. Queixo Enrugado. Enquanto l√° o vil√£o parece ‚Äúmaior do que a vida‚ÄĚ, com aquele jeit√£o maquiav√©lico, com direito, √†s vezes, a risadas sinistras ou a gatos angor√° brancos no colo, aqui Thanos √© um personagem completo, talvez o √ļnico que efetivamente tenha desenvolvimento satisfat√≥rio em um filme em que, sinceramente, n√£o esperava desenvolvimento de absolutamente nenhum personagem em raz√£o da pr√≥pria estrutura da obra. N√£o h√°, em Thanos, a vilania pela vilania. Ao contr√°rio, seu objetivo √© bem explicado, apesar de exagerado ao extremo (mas estamos falando de um filme que re√ļne duas d√ļzias de super-her√≥is, pelo que o objetivo n√£o poderia ser apenas ‚Äúdominar a Terra‚ÄĚ como o Dr. Gori), tem um sentido que √© puxado diretamente dos quadrinhos e que se relaciona com uma das mazelas que vivenciamos aqui: a superpopula√ß√£o. Claro que a solu√ß√£o do problema n√£o √© exterminar metade, mas se Thanos estivesse sugerindo terraformar planetas desabitados para transferir metade da popula√ß√£o para l√°, ele n√£o seria exatamente um vil√£o.
Implic√Ęncia 1:
Cad√™ o Adam Warlock? Se teve um erro na estrat√©gia da Marvel Studios ao longo desses 10 anos, foi sua hesita√ß√£o em introduzir um de seus mais ic√īnicos her√≥is c√≥smicos, Adam Warlock. √Č compreens√≠vel a hesita√ß√£o, por√©m, dada a complexidade do personagem e seu total desconhecimento at√© de boa parte dos leitores de quadrinhos. No entanto, sua falta √© ainda mais fortemente sentida aqui, j√° que, nos quadrinhos, n√£o s√≥ ele √© o principal n√™mesis de Thanos, como, esporadicamente, √© aliado do Tit√£ Louco e isso sem contar com o fato de que √© na testa de Warlock que reside a joia da alma, um presente de seu pai adotivo Alto Evolucion√°rio. Era essencial que ele estivesse presente em¬†Guerra Infinita? Certamente que n√£o, pois a solu√ß√£o dada √† joia da alma foi mais do que satisfat√≥ria, mas, como algu√©m que simplesmente adora o personagem, n√£o pude deixar de detecta diversos ‚Äď DIVERSOS! ‚Äď momentos em que sua ‚Äúentrada triunfal‚ÄĚ teria sido t√£o perfeita que, receio, teria no m√≠nimo tido uma arritmia.
Al√©m disso, ele n√£o √© um genocida. Reparem como isso √© diretamente abordado no filme por meio de um de seus confrontamentos com sua filha Gamora (Zoe Saldana). Seu plano n√£o leva em considera√ß√£o ra√ßa, religi√£o,¬†status¬†social ou qualquer outro elemento que divida popula√ß√Ķes. Ele ‚Äútrabalha‚ÄĚ com absoluta aleatoriedade, criando um sistema justo. Mas calma antes que algu√©m arregale os olhos por eu estar afirmando isso de um cara que quer matar metade dos seres vivos do universo. √Č apenas um exerc√≠cio e uma demonstra√ß√£o de que existe uma l√≥gica nas a√ß√Ķes de Thanos que o roteiro se d√° ao trabalho de nos informar, o que automaticamente retira do plano assassino aquela pecha do ‚Äúsou mau como o Pica-Pau e, portanto, quero matar todo mundo pelo prazer da coisa‚ÄĚ. Mas, mais al√©m ainda, o filme ainda tem tempo para focar na liga√ß√£o pai e filha dele com Gamora, revelando o ponto fraco de Thanos e que ele, sim, tem sentimentos e nenhuma vergonha de mostr√°-los. O que mais podemos esperar de um vil√£o de quadrinhos?
Ali√°s, s√≥ um par√™nteses: vejo nas motiva√ß√Ķes por tr√°s do assassinato em massa que Thanos quer promover algo mais bem constru√≠do do que a motiva√ß√£o que o sensacional¬†Jim Starlin¬†criou para o personagem, ou seja, o presente que ele quer dar ao amor de sua vida, a Morte, representada, nos quadrinhos, por uma bela mulher de manto preto. N√£o que fosse impens√°vel trazer esse elemento bizarramente rom√Ęntico para o filme, mas tendo a acreditar que ele funciona melhor nos quadrinhos e s√≥ l√°, pelo que a adapta√ß√£o feita n√£o s√≥ mant√©m o esp√≠rito original, mas efetivamente o encaixa de maneira fluida ao UCM.
Mas Thanos n√£o seria Thanos sem outros dois elementos essenciais:¬†Josh Brolin¬†e o CGI. Brolin √© Thanos. N√£o falo nem necessariamente na captura de¬†performance, que √© muito boa, mas especialmente em seu trabalho de voz. Sentimos o peso do que o personagem faz a cada s√≠laba que o ator profere, com pesar para o que ele acha que precisa fazer, desd√©m quando o super-her√≥i que o amea√ßa n√£o √© mais do que uma mosca para ele, surpresa quando ele encontra seu par ou se depara com um ato de coragem extraordin√°rio, comando absoluto em momentos-chave de a√ß√£o e, finalmente, um estranhamente complexo sentimento de amor n√£o apenas por Gamora, que √© mais evidente, mas, antiteticamente, pela vida. Esse √ļltimo aspecto √© simplesmente uma maravilha, pois Brolin, apesar do tipo dur√£o que sempre viveu no cinema, conseguiu passar um tipo de do√ßura que ele modula para fazer de seu Thanos um vil√£o mais filos√≥fico, mais complexo pela forma como ele encara o mundo e, l√≥gico, por defender a vida por meio de matan√ßa.
O CGI, que eu mesmo tanto reclamei quando o¬†primeiro¬†trailer¬†saiu, era o fiel da balan√ßa aqui. Se n√£o funcionasse, Thanos provavelmente n√£o funcionaria. Mas foi alvissareiro notar que, tanto nas sequ√™ncias em espa√ßo confinado e mais escurecidas com a inicial no espa√ßo, como quando em campo aberto e de dia, como na sequ√™ncia em Wakanda ao final, o CGI manteve-se intacto, com o vil√£o mantendo sua poderosa presen√ßa por seu porte natural (espetacular o contraste do tamanho da m√£o de Thanos com o Ferroso e o Aranha tentando puxar a manopla em Tit√£) quanto por seu peso f√≠sico, algo t√£o problem√°tico no CGI atual que, muitas vezes feito √†s pressas, faz monstros gigantes parecerem bailarinas do Bolshoi. Em¬†Guerra Infinita, Thanos √© t√£o personagem quanto o Capit√£o Am√©rica em termos de presen√ßa em tela e esse aspecto fecha um inestim√°vel conjunto que faz do personagem o melhor vil√£o do UCM at√© agora e, qui√ß√°, um dos melhores vil√Ķes de filmes de super-her√≥is.

Dividir para Conquistar


Sei que foquei em Thanos, mas √© que o personagem merecia. Al√©m disso, √© uma tarefa imposs√≠vel abordar cada um dos demais, at√© porque o texto de Markus e Freely n√£o pede isso, muito ao contr√°rio at√©. Usando a √ļnica estrat√©gia poss√≠vel para lidar com tanta gente em t√£o pouco tempo, os dois promoveram a boa e velha divis√£o em grupos ou equipes usando, em seu favor, o treinamento que tiveram com¬†Capit√£o Am√©rica: Guerra Civil, chegando quase √† perfei√ß√£o aqui.
O aspecto mais interessante √© a facilidade e a l√≥gica com que a divis√£o acontece. Se o Hulk (Mark Ruffalo) √© arremessado √† Terra gra√ßas ao √ļltimo suspiro de Heimdall e serve de arauto do Apocalipse (substituindo o Surfista Prateado na exata mesma fun√ß√£o em¬†Desafio Infinito, saga em quadrinhos que inspirou mais diretamente o filme) e acaba catalisando a reuni√£o do Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) com o Homem de Ferro (Robert Downey, Jr.) e, depois, com o Homem-Aranha (Tom Holland), Thor (Chris Hemsworth) √© ‚Äúexplodido‚ÄĚ no espa√ßo e acaba estatelando-se na Milano, nave dos Guardi√Ķes da Gal√°xia, logo tamb√©m gerando uma reuni√£o e, em seguida, uma divis√£o, com Rocket (Bradley Cooper), Groot (Vin Diesel) e o Deus do Trov√£o seguindo para Nidavellir para forjar uma nova arma no cora√ß√£o de uma estrela de n√™utron e o Senhor das Estrelas (Christ Pratt), Gamora, Mantis (Pom Klementieff) e Drax (Dave Bautista) partindo para Luganenhum para tentar impedir que Thanos abocanhe a joia que est√° com o Colecionador. Dessa estrutura, decorre um novo ‚Äúembaralhamento‚ÄĚ de cartas, com o encontro do Senhor das Estrelas e equipe com o Homem de Ferro e equipe em Tit√£, com Bruce Banner servindo de conex√£o, na Terra, para chamar o fugitivo Capit√£o Am√©rica (Chris Evans)¬†e seu grupo renegado formado pela Vi√ļva Negra (Scarlett Johansson) e Falc√£o (Anthony Mackie) que, por sua vez, salvam a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e o Vis√£o (Paul Bettany) na Esc√≥cia e re√ļnem-se com o M√°quina de Combate (Don Cheadle) na base dos Vingadores, confrontando, no processo, o Secret√°rio de Estado Thunderbolt Ross (William Hurt) e, finalmente, usando os ferimentos no sintozoide como elemento de conex√£o com o Pantera Negra (Chadwick Boseman) e Wakanda. Ufa!
Todas essas interconex√Ķes permitem uma bel√≠ssima fluidez √† narrativa, al√©m de, claro, momentos √©picos para fazer o f√£ bater palmas, como as entradas triunfais do Hulk como um foguete verde, Capit√£o Am√©rica nas sombras e o Homem de Ferro com sua armadura¬†Bleeding Edge¬†baseada em nanotecnologia que ‚Äúmorfa‚ÄĚ em foguetes, armas de envergadura avantajada e assim por diante. Ali√°s, entradas triunfais √© o que n√£o faltam no filme, com uma acontecendo a cada 10 minutos para que ningu√©m se atreva a fechar os olhos. √Č certamente um abuso do artif√≠cio, mas, aqui, ele √© plenamente justificado.

Implic√Ęncia 2:
Hulk com medinho, √© s√©rio? Quer dizer ent√£o que o peso-pesado da Marvel, o descerebrado Hulk √© um banan√£o? Apanhou do queixudo roxo e n√£o quis mais sair da casa do Banner? Fico pensando o quanto n√£o teria sido mais √©pico ainda colocar Hulk e Thor novamente lado-a-lado contra o enxame de monstrinhos multi-bra√ßos em Wakanda. Certamente bem melhor do que Banner estabanado dentro da Hulkbuster de segunda m√£o de Stark. E isso sem contar que perdemos a chance de ver a Vi√ļva Negra botar o grandalh√£o para dormir com sua can√ß√£o de ninar‚Ķ

Mas, al√©m dos pareamentos inusitados das diversas pequenas equipes, temos o respeito absoluto das mitologias de cada personagem ou grupo de personagens, com um dil√ļvio de refer√™ncias internas conectadas a cada um deles, al√©m de um cuidado visual que mant√©m a identidade de cada um. O exemplo mais evidente disso √© com a entrada (triunfal) dos Guardi√Ķes da Gal√°xia, que, claro, √© precedida de m√ļsica e um ambiente relaxado, mais colorido e c√īmico de verdade, no interior da Milano. At√© mesmo Thor, que protagoniza o come√ßo sombrio, n√£o perde seu passado c√īmico recente, j√° que, claro, eles ‚Äút√™m um Hulk‚ÄĚ e seus m√ļsculos espantam Drax, Gamora e deixam o Senhor das Estrelas furioso. Os dois metidos de cavanhaque colocados imediatamente em choque egoc√™ntrico s√£o hil√°rios de sua pr√≥pria maneira, especialmente ao opor ci√™ncia √† magia. Ali√°s, a dupla formada pelo Doutor Estranho e Homem de Ferro ganham especial destaque no filme, o primeiro por servir de canal pelo qual aprendemos sobre as joias do infinito e por portar uma delas e, claro, por certamente ter visto, dentre as 14 milh√Ķes de futuros poss√≠veis, que, aquele que levaria √† vit√≥ria dos Vingadores, inclui a entrega de sua joia do tempo a Thanos e seu auto-sacrif√≠cio. Estar√≠amos testemunhando o in√≠cio da forma√ß√£o dos Illuminati, j√° que, obviamente, Estranho n√£o morreu de verdade?
Outro her√≥i muito destacado √© Thor que finalmente ganha aquilo que uma boa parcela dos f√£s vinha pedindo: nobilidade e gravidade. Logo deixando seu lado c√īmico de lado diante da desgra√ßa que viveu, o Deus do Trov√£o carrega quase que sozinho uma boa parte do filme, com os detalhes da fabrica√ß√£o de sua nova arma, a Rompe-Tormentas, originalmente usada nos quadrinhos pelo ‚ÄúThor Cavalo Cibern√©tico‚ÄĚ Bill Raio Beta. Ajudado pelo an√£o gigante vivido por¬†Peter Dinklage¬†em uma √≥tima ponta (ok, √© mais do que s√≥ uma ponta) e por Rocket e Groot, este √ļltimo sem uma entrada triunfal, mas certamente com um momento triunfal ao usar uma parte de seu corpo como cabo do machado, o Deus do Trov√£o √© encarado por lentes mais guturais, mais ‚Äúsujas‚ÄĚ e que abrem espa√ßo para a demonstra√ß√£o de todo seu poder e f√ļria quando ele finalmente volta √† Terra em, sim, voc√™ adivinhou, uma entrada triunfal. Toda a sequ√™ncia de Thor no espa√ßo seja talvez um pouco longa demais, ocupando mais tempo do que deveria dentro da engrenagem dos Irm√£os Russo, mas ela funciona bem ao nos permitir ver esse Thor com dentes trincados e uma dor interna que s√≥ muita machadada alivia.
De todos os n√ļcleos, aquele que ganha abordagem menos inspirada √© o do Capit√£o Am√©rica e Pantera Negra ou, para facilitar, o ‚Äúgrupo de Wakanda‚ÄĚ. O objetivo dos Irm√£os Russo, claro, foi de incluir uma sequ√™ncia de guerra em larga escala para que o pessoal chato que reclamou que n√£o teve guerra em¬†Guerra Civil,¬† parasse de encher a paci√™ncia deles. E, apesar de a pancadaria desenfreada contra os monstrengos gen√©ricos da Ordem Negra (n√£o falo ‚Äď ainda ‚Äď da Ordem Negra em si) ser bem coreografada, com belas tomadas a√©reas e alguns travellings bem no meio da a√ß√£o, h√°, ali, uma certa dilui√ß√£o da import√Ęncia dos personagens. O Capit√£o n√£o √© mostrado em seu papel natural de lideran√ßa ou como estrategista constante e o Pantera Negra chega at√© mesmo a ter um papel de certa forma conflitante com o do Capit√£o. N√£o √© que isso seja um grande problema, pois n√£o √©, mas √© vis√≠vel qual foi o elo mais fraco nessa divis√£o de grupo.

Buchas de Canh√£o


Ainda como parte da divis√£o de fun√ß√Ķes e de grupos, n√£o poderia deixar de abordar o papel da t√£o falada e t√£o esperada Ordem Negra, ou os¬†minions¬†mais robustos de Thanos que s√£o enviados para a Terra para recolher as joias do Doutor Estranho e do Vis√£o. Se, de um lado, a import√Ęncia desses personagens ‚Äď Fauce de √Čbano (Tom Vaughan-Lawlor), Pr√≥xima Meia-Noite (Carrie Coon), Corvus Glaive (Michael James Shaw) e Cull Obsidian (Terry Notary) ‚Äst √© reduzida em compara√ß√£o ao que se esperava e √† amea√ßa que representavam como devotos do deus Thanos (nos quadrinhos, filhos), por outro o enfoque dado pelos Irm√£os Russo a eles impediu sua redu√ß√£o a meras buchas de canh√£o.
Afinal, as buchas de verdade, aqui, s√£o as criaturas que morrem √†s arrobas na batalha de Wakanda. A Ordem Negra, dividida em frentes de a√ß√£o, √© de dif√≠cil elimina√ß√£o, o que acaba valorizando cada um deles, com especial destaque para Fauce de √Čbano, que segue para Nova York para obter a joia do tempo do Doutor Estranho e que mostra ter vastos poderes psi√īnicos que fazem Estranho, Wong, Stark e Parker cortarem um dobrado, s√≥ mesmo vindo a morrer depois que este √ļltimo convence seu mentor a usar a ‚Äúestrat√©gia¬†Aliens, o Resgate‚Äú.
At√© mesmo o grandalh√£o Cull Obsidian √© uma dificuldade para matar, considerando que os vil√Ķes maiores normalmente s√£o os que v√£o primeiro e isso sem contar com o bom combate que Pr√≥xima Meia-Noite oferece √† Vi√ļva Negra e Okoye (Danai Gurira), em outro daqueles ‚Äúmomentos triunfais‚ÄĚ talhados cuidadosamente para os f√£s vibrarem. Mas, no final das contas, a tropa de elite de Thanos ainda √© formada de buchas de canh√£o glorificadas que, por√©m, cumprem bem sua tarefa de estabelecer o n√≠vel de amea√ßa necess√°rio para os her√≥is que ficam na Terra.

Uma Caixinha de Surpresas


Um filme da escala de Guerra Infinita não tinha espaço para detalhes. O que os roteiristas e os diretores fizeram poderia ser enquadrado no crime inafiançável de abuso de fã inocente. Não só vemos as já citadas auto-referências inter-UCM perfeitamente encaixadas em cada diálogo, em cada interação entre personagens, como eles conseguiram deixar espaço para algumas magníficas cartas na manga.
A presen√ßa de Peter Dinklage como o an√£o gigante Eitri √© a primeira grande sacada, colocando o ator que notabilizou-se por seu Tyrion Lannister de¬†Game of Thrones, em um papel de bom destaque e que ele vive muito eficientemente, misturando energia e amargura pelo acontecido em seu lar e com seus pares. V√™-se o cuidado em dar √™nfase a todo e qualquer personagem, mesmo que seja o coadjuvante de fun√ß√£o √ļnica e com escala√ß√£o s√≥ para agradar um outro grupo de f√£s. Tomara que Eitri volte em algum outro filme do UCM, talvez finalmente quando (e n√£o ‚Äúse‚ÄĚ) Bill Raio Beta singrar as telonas.
Mas o melhor momento WTF √© quando o Dementador (Stonekeeper, segundo os cr√©ditos) que serve de guardi√£o para a joia da alma √© revelado como sendo ningu√©m menos do que o Caveira Vermelha, desta vez vivido por¬†Ross Marquand¬†(o Aaron, de¬†The Walking Dead). A volta do vil√£o era h√° muito especulada por todos, mas sua inclus√£o completamente de surpresa em meio ao mist√©rio da √ļnica joia cujo paradeiro n√£o conhec√≠amos √© alvissareira e muito bem-vinda, j√° que abre as portas para a reinser√ß√£o do personagem na mitologia do Capit√£o Am√©rica, qui√ß√° como grande vil√£o de um futuro filme dos Vingadores at√©. A presen√ßa do personagem, no filme, bebe diretamente de sua ‚Äúmorte‚ÄĚ em¬†Capit√£o Am√©rica: O Primeiro Vingador, tornando-se circular e, por isso, facilmente compr√°vel por quem acompanha o UCM desde seu come√ßo, jamais parecendo aleat√≥rio ou apenas um¬†fan service.

Implic√Ęncia 3:
Se Loki tiver morrido de verdade, farei greve de UCM! Afinal, até o advento de Thanos, ele era o melhor e mais bem desenvolvido vilão do Universo Cinematográfico Marvel e um potencial candidato, na minha lista pessoal, a ganhar um filme solo (raios, se Venom pode ter filme solo, porque não Loki?). Espero que, com o inevitável restabelecimento dos mortos empoeirados no próximo filme, Loki volte também ou que ele tenha usado sua magia para enganar Thanos. Ou qualquer coisa. Afinal, personagens de quadrinhos que não se chamam Ben não morrem para sempre nunca! (ah, era mentira sobre a greve, ok?).

Ainda nesse diapas√£o, a pr√≥pria mitologia da joia da alma √© inserida √† perfei√ß√£o na narrativa. Ao apenas mencionar que a joia de Xandar j√° fora obtida por Thanos depois de ele arrasar o planeta, algo que realmente n√£o precis√°vamos testemunhar e as outras terem seus paradeiros clara e explicitamente abordados, faltava uma explica√ß√£o razo√°vel para a joia mais importante. E ela vem dentro da estrutura de pai e filha entre Thanos e Gamora que ganha o √ļnico¬†flashback¬†da fita, dedicada ao momento em que o Tit√£ adota a menina verde logo antes do massacre de metade da popula√ß√£o de seu planeta. Claro que o roteiro toma algumas liberdades que substituem aquilo que n√£o fora antes pensado, como a faca que Thanos presenteia sua filha e o conhecimento, por Gamora, da localiza√ß√£o da √ļltima joia. No entanto, o pre√ßo √© pequeno a se pagar por essas breves liberdades que n√£o atravancam a narrativa, especialmente porque o resultado √© tr√°gico ‚Äď mais uma morte importante pr√©-Manopla do Infinito completa ‚Äď e reveladora da grande e, provavelmente, √ļnica fraqueza de Thanos.

Nem Tudo é Perfeito


Al√©m dos pequenos probleminhas que fui mencionando ao longo da cr√≠tica, gostaria de aproveitar a oportunidade para falar de um que me incomodou bastante e que est√° bem no come√ßo do filme: a morte dos asgardianos. N√£o sei se todo mundo morreu ‚Äď nada leva a crer o contr√°rio -, mas, mesmo assim, a aniquila√ß√£o de quase todos (onde est√° Valqu√≠ria e, mais importante ainda, Korg?) esvazia¬†Thor: Ragnarok¬†quase que completamente. Logicamente, essa √© mais uma situa√ß√£o que pode ser remediada com outro estalar de dedos com a manopla, mas, levando em considera√ß√£o apenas as informa√ß√Ķes que tempos nessa primeira parte, considero uma escolha equivocada do roteiro para dar peso dram√°tico ao in√≠cio da obra, ainda que, no final das contas, ela funcione.
Ali√°s, falando em primeira parte, outro aspecto que me deixou incomodado foi toda a gin√°stica feita por Kevin Feige ao retirar o subt√≠tulo¬†Guerra Infinita ‚Äď Parte 2¬†do quarto filme dos Vingadores, dando a entender que ele seria independente. N√£o s√≥ ficou evidente que ele n√£o ser√° independente, como essa escolha revelou-se como uma jogada marketeira boba e desnecess√°ria. O tamanho do¬†cliffhanger¬†√© t√£o gigantescamente descomunal ‚Äď mas bem feito e n√£o aquela coisa horrorosa que¬†Peter Jackson¬†fez ao ‚Äúfinal‚ÄĚ de¬†O Hobbit: A Desola√ß√£o de Smaug¬†‚Äď que chega a ser uma trapa√ßa n√£o deixar logo evidente pelo t√≠tulo que¬†Guerra Infinita¬†tem duas partes. Afinal, ningu√©m realmente acha que o Homem-Aranha, o Doutor Estranho e os Guardi√Ķes da Gal√°xia morreram, n√£o √© mesmo?

Implic√Ęncia 4:
Não adianta: sejam nos quadrinhos, seja no filme, EU SIMPLESMENTE ODEIO A ARMADURA DO ARANHA DE FERRO (até o nome é ridículo…). Preferiria acreditar que um dos poderes do Aracnídeo é respirar no vácuo do que ver aquela coisa horrorosa no filme. Espero fortemente que ela seja aposentada já!

Fora isso, h√° outras pequenas conveni√™ncias que eram completamente desnecess√°rias, al√©m de pregui√ßosas, como o ‚Äúolho m√°gico‚ÄĚ que Thor ganha de presente de Rocket e a redu√ß√£o dr√°stica ‚Äď pela segunda vez! ‚Äď do papel do Vis√£o no UCM. O segundo caso, claro, √© mais grave, pois o potencial do personagem √© novamente deixado de lado, ainda que, aqui, haja uma constru√ß√£o mais l√≥gica. No entanto, os Irm√£os Russo definitivamente ainda nos devem uma cena √©pica encabe√ßada pelo personagem (e n√£o, ele n√£o morreu tamb√©m n√£o‚Ķ).

O Futuro Infinito


Guerra Infinita¬†√©, sem d√ļvida alguma, um grande marco nos filmes de super-her√≥i, uma prova que, com grandes planejamentos, v√™m grandes filmes (sim, isso foi uma cutucada em voc√™s sabem quem‚Ķ). √Č um filme ‚Äúdo meio‚ÄĚ, sem d√ļvida alguma, mas √©, mesmo assim, uma obra de relev√Ęncia dentro de seu sub-g√™nero e uma prova do amadurecimento dos Irm√£os Russo na dire√ß√£o, que conseguem segurar sua decupagem enlouquecida e suas tentativas de fazer uso de c√Ęmeras tremidas. Esses dois elementos ainda se fazem presentes, n√£o tenham d√ļvida, mas a dupla os minimizou incrivelmente, entendendo que menos √© mais, mesmo diante da escala quase inimagin√°vel do que eles fizeram aqui. Ali√°s, o ‚Äúmenos‚ÄĚ tamb√©m provavelmente ser√° o mote do Parte 2, pois voltamos √† forma√ß√£o original dos Vingadores com o ‚Äúempoeiramento‚ÄĚ dos demais, mesmo que a Capit√£ Marvel venha para salvar o dia, como ficou evidente pela cena p√≥s-cr√©dito e que o time seja refor√ßado pelo aposentado Clint Barton e pela dupla em miniatura Homem-Formiga e Vespa.
Ao mesmo tempo, Guerra Infnita abre espaço para uma reformulação do UCM, algo que é inevitável assim como os reboots editoriais. A eliminação de boa parte dos heróis significa a oportunidade de eles serem trazidos de volta em contextos diferentes, expandindo os horizontes ainda mais para outros caminhos para a Fase 4 e além. E, claro, o filme mostra que não há limite para o que a Marvel Studios pode fazer agora em diante, ainda que isso seja algo que venha com um lado negativo: Guerra Infinita é tão impressionante em sua escala que qualquer coisa que vier pela frente será inevitavelmente comparado com o filme, o que pode levar a arroubos e delírios michaelbayanos se não houver freios pelas equipes de produção. Mas é aquilo: depois de 19 tentativas bem-sucedidas em sua maioria esmagadora, não há razão alguma para achar que o que vem por aí será menos impressionante.
Make Mine Marvel forever!
Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War, EUA ‚Äď 2018)
Direção: Anthony Russo, Joe Russo (Irmãos Russo)
Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth, Benedict Cumberbatch, Scarlett Johansson, Mark Ruffalo, Chadwick Boseman, Tom Holland, Benedict Wong, Don Cheadle, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Josh Brolin, Tom Hiddleston, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Letitia Wright, Danai Gurira, Winston Duke, Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Pom Klementieff, Karen Gillan, Bradley Cooper, Vin Diesel, Carrie Coon, Peter Dinklage, Terry Notary, Benicio del Toro, Gwyneth Paltrow, Stan Lee, Idris Elba, William Hurt, Tom Vaughan-Lawlor, Michael James Shaw, Ross Marquand
Duração: 149 min.
Texto do Ritten Fan

Quem é PikachuSama

Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.

 

  

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