Terça, 10 De Julho De 2018

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Falta bom senso nas editoras de quadrinhos no Brasil?

Devir acaba de anunciar um quadrinho do qual gosto muito chamado Estranhos no Paraíso. Há décadas o título merece ser lançado corretamente no Brasil, já que os trabalhos anteriores, apesar de bem intencionados, infelizmente, não encontraram longevidade.

Estranhos no Paraíso, da DEVIR. Pouco mais de 200 páginas, por R$105

Pois bem! Vem a Devir e, para nossa alegria, promete lan√ßar TUDO em seis volumes (l√° vem o golpe), cada edi√ß√£o custando a “bagatela” de¬† R$105 (cento e cinco reais!). Segue a sinopse oficial no site da editora:

“Uma das hist√≥rias em quadrinhos independentes mais aclamadas da d√©cada de 90 est√° de volta, numa bel√≠ssima edi√ß√£o de luxo, t√£o atual e comovente agora no s√©culo XXI, quanto foi no passado.¬†Vencedora do pr√™mio Eisner de melhor hist√≥ria seriada na sua estreia, Estranhos no Para√≠so, tem uma legi√£o de f√£s ardorosos mundo afora e volta, finalmente, a ser publicada no Brasil.¬†A Devir publicar√° a s√©rie completa em seis volumes de luxo.¬†¬†QUADRINHOS. Formato: 17 x 26cm, 224* p√°ginas PB, capa dura, lombada quadrada”

Parabéns, Devir! Aparentemente, você conseguiu fazer pior que o Escalpo da Panini (18.5 x 27.5cm, 296 páginas por R$120).

Muitos v√£o dizer que √© injusto fazer esse tipo de compara√ß√£o:¬† “s√£o t√≠tulos diferentes, de editoras diferentes, os custos editorias s√£o outros bl√°-bl√°-bl√°, mi-mi-mi”. No final, o que importa s√£o nossos bolsos. Estamos falando de um t√≠tulo de 224 p√°ginas, em preto e branco, por R$105.

Os dias est√£o obscuros para os colecionadores de quadrinhos, que est√£o virando cada vez mais ca√ßadores de descontos on line. Pagar o t√≠tulo de capa dos gibis (que deveria ser o comum) est√° virando pr√°tica irreal e insensata. Cada vez fica mais √≥bvio a necessidade de criar um pre√ßo alto injustific√°vel para contrabalancear os 30% de desconto que voc√™ conseguiria na Amazon, ou similar. Nesse esquema, Estranhos no Para√≠so custaria uns R$73,5. Um pre√ßo justo. Como livreiro, j√° ouvi bastante clientes dizendo “n√£o vou pegar esse agora. Vou esperar o desconto da Amazon”. Eu entendo! Porque, repito, R$73,5 por um gibi capa dura, 224 p√°ginas, p&b,¬†√Ȭ†um pre√ßo justo. R$105, n√£o.

Recentemente, em um evento liter√°rio aqui em Teresina, levei minha livraria e estava l√° no meu estande. Tentei me livrar dos encadernados de Escalpo que adquiri na distribuidora. Normalmente, compro com 30% de desconto no pre√ßo de capa, ou seja, paguei R$84 pelo quadrinho que custa R$120. Risquei uma promo√ß√£o com marcador na capa do produto: “de R$120 por R$100”. Eu ganharia apenas R$16 naquela venda e provavelmente parcelaria em 2 ou 3x (perdendo uns bons 4% para o cart√£o) e ainda precisaria pagar os custos do estande e meu almo√ßo. Uma cliente pegou a Escalpo. Meu cora√ß√£o bateu forte. Ela ficou curiosa com o gibi. Uma gota de suor desceu pela minha fronte. Ela viu a promo√ß√£o que escrevi na capa… Ela sorriu de deboche, acenou negativamente com a cabe√ßa e colocou o produto de volta na prateleira. Essa √© a realidade editorial brasileira, n√£o importa os argumentos dos editores ou de seus defensores.

O preço ideal para uma edição como Escalpo é justamente os R$84 que eu paguei nela, mas não posso vender por esse preço, senão eu não seria um capitalista dono de uma empresa e estaria fazendo caridade, oferecendo meus serviços de livreiro gratuitamente.

Passeando pelo facebook, certo dia, vi uma pessoa defendendo a Mythos na “quest√£o Dylan Dog”. Se voc√™ n√£o sabe do que estou falando, vou tentar resumir: Dylan Dog √© um t√≠tulo italiano que estava h√° anos sem ter nada publicado no Brasil. Tr√™s amigos fundam uma pequena editora chamada Lorentz e lan√ßaram, provavelmente, as tr√™s melhores edi√ß√Ķes que o personagem j√° teve no Brasil, pelo pre√ßo de R$16 cada. A s√©rie da Lorentz √© “descontinuada” e a Mythos retoma a publica√ß√£o, mantendo o mesmo formato anterior, mas custando R$26,9. O mesmo t√≠tulo, o mesmo formato, que saiu de uma iniciativa pequena e independente e migrou para uma das maiores editoras do ramo no Brasil, com tiragem, recursos e distribui√ß√£o melhores, e o t√≠tulo aumentou R$10,90.¬†Nem vou entrar no caso, se isso foi uma rasteira que a Mythos deu na Lorentz ou n√£o, pois procurando o editor, ele disse-me apenas “sempre externamos nosso desejo em continuar nos 3 editoriais. N√£o iremos nos manifestar publicamente sobre o ocorrido.”

Pois bem, vi coment√°rios no facebook criticando a Lorentz, chamando-os de “aventureiros”, reclamando que os pre√ßos praticados por ela s√£o impratic√°veis e que a editora precisaria vender 90% da tiragem para manter o t√≠tulo em banca. Pode at√© existir certa verdade aqui, afinal de contas¬† os custos de distribui√ß√£o no Brasil s√£o enormes (quase 50% do pre√ßo de capa) e quase metade da impress√£o acaba encalhando. Ent√£o, se voc√™ s√≥ vende metade do que produz, e se metade do que voc√™ vende fica na m√£o da distribuidora, isso quer dizer 25% da sua tiragem precisa custear toda a publica√ß√£o (e que os outros 75% s√£o, ou encalhe, ou custos de distribui√ß√£o), e n√£o 90% (considerando aqui que a conta do detrator da Lorentz esteja correta).

Ou seja, se você gasta R$10mil pra fazer um título (considerando todos os custos editoriais e de impressão) e imprime 1mil unidades, você precisaria que 25% da tiragem (250 unidades) custeie esses R$10mil. Ou seja, o gibi precisaria custar R$40 e a editora precisa que, pelo menos 250 unidades sejam vendidos para pagar as contas de produção, mas o ideal é que venda pelo menos o dobro, 50%, para custear também a distribuição. Vendendo 500 unidades a R$40, você junta R$20mil, sendo que metade dessa grana vai para os custos editoriais e a outra metade para a distribuidora.

Mas estas contas s√£o apenas especula√ß√Ķes. Deixa eu falar de uma experi√™ncia pr√≥pria, real. Meu pr√≥ximo quadrinho a ser lan√ßado, Foices e Fac√Ķes, custar√° cerca de R$7,5, apenas o custo de impress√£o unit√°rio na gr√°fica. Digamos que, se eu fosse uma grande editora que precisasse pagar todos os custos envolvendo direito aos autores (eu e meu irm√£o), editora√ß√£o (que eu fa√ßo) e tudo mais (que eu fa√ßo tamb√©m), isso provavelmente duplicaria esse pre√ßo unit√°rio para uns R$15. Acredito que, com a qualidade final do produto, um pre√ßo justo n√£o poderia ser maior que uns R$32,9. Ou seja, para eu juntar R$15mil para pagar todos os custos do Foices e Fac√Ķes, eu preciso vender 456 unidades. Isso se eu vender diretamente para o comprador. Se eu terceirizar a venda e fizer minha pr√≥pria distribui√ß√£o nas bancas e livrarias da cidade oferecendo 30% para o livreiro ou jornaleiro, teria de vender cerca de 650 unidades do livro para pagar os autores, os custos editoriais, a impress√£o e o revendedor. Ou seja, apenas 35% da tiragem pode ser considerada lucro real (SE eu vender a tiragem completa, o que √© muito improv√°vel ou quase vi√°vel, considerando muitos anos na prateleira e promo√ß√Ķes futuras).

Colocando tudo isso na balan√ßa, Escalpo, Estranhos no Para√≠so ou o Dylan Dog da Mythos est√£o realmente caros ou √© o nosso dinheiro que n√£o vale nada? Ser√° que o pre√ßo justo do Dylan Dog oferecido pela Lorentz √© uma “aventura” irrespons√°vel? Quanto tempo durar√° a atual necessidade de “esperar o desconto da Amazon”, uma realidade injustific√°vel?

Novamente, s√£o apenas especula√ß√Ķes. A √ļnica coisa que livreiros como eu posso fazer, olhando a pilha crescente de t√≠tulos bonellianos encalhando que a Mythos lan√ßou recentemente e que custam o assustador pre√ßo de R$26,9 (100 p√°ginas, preto e branco). S√≥ posso observar, esperan√ßoso, para o cliente que tenta despertar curiosidade por aquelas novos t√≠tulos e dizer para ele, com um sorriso nervoso nos l√°bios: “Te dou 25% de desconto neles”.

O cliente calcula o pre√ßo na cabe√ßa, “vai dar uns 20 conto, ainda t√° caro”…

Essa é a realidade do quadrinho no Brasil.

 

* Errata! Pegamos esse release no site da distribuidora da própria Devir (o J4B, que é onde pedimos a maioria de nossas revistas). Hoje, dia 25/06, o release foi alterado e somos informados que a quantidade de páginas do livro de Estranhos no Paraíso não será 224 páginas, mas 360. Que bom! Mas isso muda, significativamente, o sentido de nosso texto. Afinal, são 136 páginas a mais. Infelizmente (para nós) não temos como mostrar uma imagem do site J4B mostrando o erro porque foi, justamente, corrigido lá e, não tínhamos porque ter feito um print da informação antes.

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