Sexta, 17 De Agosto De 2018

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Frankenstein aos 200 anos‚Ää‚ÄĒ‚Ääpor que Mary Shelley n√£o recebeu o respeito que ela merece?

O Frankenstein de Shelley vem falando sobre ansiedades tecnol√≥gicas e culturais do Iluminismo ao #MeToo. Mas as realiza√ß√Ķes da sua autora foram muitas vezes rejeitadas ou tratadas com ceticismo.

[Autoria: Fiona Sampson]

[Tradu√ß√£o:¬†Dani Marques (idealizadora do zine ‚ÄúDesembucha, mulher!‚ÄĚ), e Nayara Barros (doutoranda em Filosofia pela UFSC)]

 

¬† ¬† ¬† ¬†FIQUEI¬†fascinada por Mary Shelley e sua novela mais famosa por causa de seu marido. Por volta de 2011, encontrei-me tentando dar sentido √† poesia dePercy Bysshe Shelley¬†. Foi uma tarefa complicada. Percy era acima de tudo uma criatura de seu pr√≥prio momento cultural, e nada como um¬†zeitgeist. No entanto, o¬†Frankenstein¬†de Mary sai do mesmo tipo de √™xtase pol√≠tico e de conex√Ķes culturais semelhantes que o verso de seu marido e √© o romance dela que continuou nos fascinando.

Creation … Boris Karloff in Frankenstein (1931), directed by James Whale. Photograph: Allstar/Universal

¬† ¬† ¬† ¬†Duzentos anos ap√≥s sua publica√ß√£o em janeiro de 1818, a obra ainda nos fala diretamente como um mito sobre a vida contempor√Ęnea. Ela inspirou adapta√ß√Ķes de filmes em todos os g√™neros, desde a com√©dia¬†Caper Abbott and Costello Meet Frankenstein¬†at√© a √≥pera quase-rock¬†The Rocky Horror PictureShow¬†e, cl√°ssicos de fic√ß√£o cient√≠fica, como¬†Blade Runner¬†. Depois, existem toda a parafern√°lia e cafonice aparentemente sem fim em quadrinhos e¬†cosplay¬†(onde os f√£s se vestem como seus personagens de fic√ß√£o favoritos). Tornou-se recurso jornal√≠stico para abreviar o sentido de interven√ß√Ķes tecnol√≥gicas em biologia humana ou ci√™ncia m√©dica: o Dr. Frankenstein e sua criatura fazem o seu caminho pela via principal da vida moderna. Eles reaparecem em nossas fantasias e pesadelos de forma mais consistente que a maioria das personagens de fic√ß√£o ou hist√≥ricos. Agora, podemos esperar uma s√©rie de novos Frankensteins, com as confus√Ķes do gigante cheio de cicatrizes favorito de todo mundo e seu criador, refeitos, mais uma vez.

       Mary tem sido muito pesquisada, muitas vezes em termos de ser boa ou ruim para Percy. Mas ela não tinha sido colocada no centro de sua própria história desde a biografia magistral de Miranda Seymour em 2000. Eu queria descobrir uma Mary Shelley para nossos tempos: encontrar a garota atrás do livro e reconstruir o que ela deveria ter gostado de escrever. Sua história é tão arquetípica como a dos dois personagens mais famosos de Mary: sua vida e relacionamentos com os homens não podem ser mais relevantes para nossa era #MeToo . Mary tinha apenas 18 anos quando teve a ideia de Frankenstein; 19 quando ela terminou de escrever o livro. Como uma adolescente pode apresentar não um, mas dois arquétipos duradouros: o cientista obcecado pela pureza de sua pesquisa, mas incapaz de ver que ela tem consequências éticas e sociais e o quase-humano que ele cria?

¬† ¬† ¬† ¬†√Č uma conquista surpreendente, e ainda mais quando nos lembramos de que, sendo uma menina, Mary n√£o foi educada da mesma forma que muitos de seus colegas de escrita rom√Ęntica. Ao contr√°rio de Percy, ela n√£o tinha Eton nem Oxford, mas tinha aulas na escola dom√©stica e seis meses na Escola Feminina da Senhorita Pettman em Ramsgate, e aprendeu a folhear os livros da biblioteca de seu pai. Seus pais eram dois dos mais not√≥rios radicais de sua √©poca: sua m√£e, que morreu de complica√ß√Ķes 11 dias ap√≥s seu nascimento, era Mary Wollstonecraft, autora de¬†A Vindication of the Rights of Woman[Reivindica√ß√£o dos Direitos das Mulheres]; seu pai era o fil√≥sofo pol√≠tico e romancista William Godwin. Ele pode ter sido um defensor do anarquismo, mas sustentou muitas conven√ß√Ķes contempor√Ęneas em casa. Uma vez que Mary fugiu com Percy aos 16 anos, por exemplo, o ex-ap√≥stolo do amor livre cortou rela√ß√Ķes com sua filha at√© que ela se tornasse respeit√°vel.

¬† ¬† ¬† ¬†Ent√£o, como foi que Mary criou sua obra-prima precoce? Uma resposta dada pelos leitores e cr√≠ticos ao longo dos anos √© que ela n√£o o fez. Num primeiro momento, os revisores an√īnimos supuseram que essa novela cheia de id√©ias foi escrita por algu√©m pr√≥ximo a Godwin, mas n√£o sua filha. Percy, como genro, foi creditado em seu lugar. Mesmo nos √ļltimos anos, as corre√ß√Ķes de Percy, vis√≠veis nos cadernos Frankenstein mantidos na Biblioteca Bodleiana, em Oxford, foram apreendidas como prova de que ele deve ter pelo menos co-autor do romance. Na verdade, quando examinei os cadernos pessoalmente, percebi que Percy fazia muito menos do que qualquer editor trabalhando em publica√ß√£o hoje.

¬† ¬† ¬† ¬†Uma segunda resposta c√©tica √† surpreendente conquista de Mary a menospreza, sugerindo que os arqu√©tipos de Frankenstein e suas criaturas n√£o s√£o de fato originais. Tais c√©ticos citam o mito cl√°ssico de Pigmali√£o, um escultor que cria um amante para si mesmo, ou a figura meio humana de Calib√£, em ‚ÄúA Tempestade‚ÄĚ. Ambos faziam parte do c√Ęnone cultural do in√≠cio do s√©culo 19 e, crescendo em uma casa liter√°ria, Mary teria conhecimento deles.

Ostracised for her relationships, held back as a writer … Mary Shelley. Photograph: National Portrait Gallery London

¬† ¬† ¬† ¬†Mas suas pr√≥prias cria√ß√Ķes diferem das duas, e s√£o essas qualidades diferentes que nos falam t√£o vividamente hoje em dia. Pigmali√£o, pelo menos nas ‚ÄúMetamorfoses‚ÄĚ, de Ov√≠dio, n√£o se prop√Ķe a criar um humano, ele simplesmente se apaixona por uma de suas pr√≥prias cria√ß√Ķes. A deusa Afrodite √© t√£o tocada por isso que ela traz a escultura para a vida para ele. A pe√ßa de George Bernard Shaw de 1913, ‚ÄúPigmali√£o‚ÄĚ, reconta essa par√°bola a respeito da vaidade art√≠stica. Sua hist√≥ria sobre Henry Higgins, o ling√ľista que reeduca uma jovem vendedora de flores de rua, mas o faz em benef√≠cio pr√≥prio, n√£o dela, permanece familiar na vers√£o de Lerner e Loewe, no musical¬†My Fair Lady.

¬† ¬† ¬† ¬†Uma est√°tua tamb√©m se transforma em uma mulher em ‚ÄúConto do Inverno‚ÄĚ, de Shakespeare, quando a figura da falecida esposa do rei Leontes ganha vida. Todo menino da escola prim√°ria do s√©culo XVI recebeu um punhado de educa√ß√£o cl√°ssica; √Č prov√°vel que o jovem Shakespeare tenha encontrado o mito de Pigmali√£o em sua sala de aula da cidade de¬†Stratford-upon-Avon. Assim, d‚ÄúA tempestade‚ÄĚ ecoa outro mito cl√°ssico em que o Minotauro, como Calib√£, um habitante da ilha, representa a hedionda descend√™ncia de uma m√£e humana e um pai sobrenatural, que domina a ilha at√© ser subjugada por um her√≥i que chega.

¬† ¬† ¬† ¬† Claramente, nenhum dos dois √© precursor do jovem e ambicioso m√©dico de Mary, que quer criar o humano perfeito, mas n√£o consegue faz√™-lo. De fato, Frankenstein √© um dos grandes romances de fracasso, tomando seu lugar entre a obra-prima do s√©culo 17 de Cervantes, Don Quixote (que Mary leu enquanto ela estava trabalhando em seu romance) e a novela de 1952 de Hemingway, O Velho e o Mar¬†. Em ambos os livros, por√©m, o fracasso √© visto com compaix√£o, no contexto da dignidade humana e dos ideais. Frankenstein, por outro lado, retrata isso como o resultado destrutivo da ideia de supera√ß√£o. O retrato que Mary faz do fracasso como o cora√ß√£o escuro da arrog√Ęncia, √© expresso em termos t√£o fortes, que parecem quase religiosos. Com certeza, essa jovem filha idealista de um ex-ministro dissidente acreditava que o certo e o errado eram uma quest√£o de fato, n√£o apenas uma opini√£o.

¬† ¬† ¬† ¬†No entanto, o apelo apaixonado de Frankenstein pela justi√ßa est√° em movimento, n√£o em serm√Ķes. Mary nunca teve a chance de ser uma pedante. Mesmo quando ela estava escrevendo o que se tornou seu primeiro romance, anos de uma censura severa da vida privada de uma mulher que hoje seria chamada de ‚Äúvergonha‚ÄĚ come√ßaram. Ela havia sido condenada ao ostracismo por familiares e amigos por fugir com Percy, um homem casado, e foi submetida a especula√ß√Ķes e risos por conhecidos do sexo masculino. O casal se casou depois que a primeira esposa de Percy, Harriet, tirou a pr√≥pria vida, mas foram considerados t√£o desonrados que, em uma decis√£o sem precedentes, foram-lhes recusada a cust√≥dia dos filhos do primeiro casamento de Percy. Nos anos que se seguiriam, Mary participaria de um serm√£o pregado contra ela, encontraria o marido visto envolvido com outras mulheres, e seus sogros fariam campanha para tirar seu filho sobrevivente.

¬† ¬† ¬† ¬†Mesmo assim, por mais sincera e envolvente que seja, sua postura moral n√£o √© o que faz Frankenstein se sentir t√£o contempor√Ęneo. Nem sua tecnologia do in√≠cio do s√©culo XIX. Mary imaginou primeiro uma combina√ß√£o de matem√°tica e alquimia‚Ää‚ÄĒ‚Ääe depois eletricidade em sua edi√ß√£o revisada de 1832‚Ää‚ÄĒ‚Ääanimando seu corpo de retalhos. Nenhum dos dois realmente ressoa na era atual dos avan√ßos bioqu√≠micos e da engenharia gen√©tica. A cena de eletrocuss√£o de laborat√≥rio imaginada pela primeira vez no cl√°ssico filme de 1923 de Frankenstein, de James Whale, agora parece fabulosamente cafona.

¬† ¬† ¬† ¬†Mas na novela, n√£o h√° outro caminho que n√£o poderes m√≠ticos tecnol√≥gicos. Frankenstein nos mostra que a aspira√ß√£o e o progresso s√£o indistingu√≠veis da arrog√Ęncia‚Ää‚ÄĒ‚Ääat√© que algo d√™ errado, quando, de repente, vemos tudo claramente o que era um esfor√ßo razo√°vel e o que √© exagero. No momento em que ela escreveu seu cl√°ssico, Mary estava ciente de que o homem com quem ela havia se casado era um exagero emocional e filos√≥fico. Por toda a riqueza de sua fam√≠lia, Percy estava muitas vezes endividado. E seu timing era assustadoramente ruim: mesmo durante sua primeira gravidez, ele havia pressionado Mary, de 17 anos, a dormir com seu melhor amigo em busca do amor livre, enquanto seu envolvimento rom√Ęntico com a meia-irm√£ de Mary come√ßara na √©poca da fuga do casal. Al√©m disso, para uma pretensa escritora, notavelmente pouco de seu trabalho havia sido publicado; Mary gastou muito tempo copiando-o para enviar aos editores.

¬† ¬† ¬† ¬†Mas Frankenstein n√£o √© um livro de mem√≥rias. A quest√£o que se coloca: ‚ÄúAt√© que ponto √© longe demais?‚ÄĚ, Est√° no cora√ß√£o da modernidade. Os rom√Ęnticos, Mary entre eles, ‚Äúse apoiaram‚ÄĚ para progredir. O grande historiador Eric Hobsbawm chamou o per√≠odo desde o in√≠cio da Revolu√ß√£o Francesa em 1789 at√© a eclos√£o da primeira guerra mundial ‚Äúo longo s√©culo 19‚ÄĚ. Publicado no in√≠cio desta era cl√°ssica da modernidade, o romance de Mary ainda nos ajuda a definir seus termos hoje. S√≠ntese do modo como nos sentimos dentro de um mundo de crescente complexidade humana, a ‚Äúmodernidade‚ÄĚ √© tanto positiva quanto negativa, sinalizando esperan√ßa para o progresso, bem como nosso medo de mudar. Frankenstein identifica o descompasso entre a experi√™ncia humana e o que se espera que nos tornemos como avan√ßo tecnol√≥gico e cient√≠fico.

¬† ¬† ¬† ¬†Al√©m de ser emocionalmente expressivo, Frankenstein foi informado pelo debate intelectual contempor√Ęneo. Em 1816, quando Mary come√ßou a escrev√™-lo, o estudo dos fen√īmenos naturais ainda n√£o era uma profiss√£o adequada; o termo ‚Äúcientista‚ÄĚ ainda tinha que ser inventado. Especula√ß√£o amadora pode ser de ponta. Aqueles que eram profissionais davam palestras p√ļblicas na moda, o que incentivava mais a participa√ß√£o de amadores. Quando Mary estava na adolesc√™ncia, esses palestrantes inclu√≠am o amigo do pai, o qu√≠mico e inventor Sir Humphry Davy; o f√≠sico e fil√≥sofo italiano Dr. Luigi Galvani e seu sobrinho Giovanni Aldini, cada um dos quais deram demonstra√ß√Ķes de como passar uma corrente el√©trica pelos nervos de um corpo morto.

¬† ¬† ¬† ¬†Sua √©poca parece t√£o adequada para o romance de Mary, que eu fui brevemente tentada por uma terceira resposta ao enigma de como Frankenstein surgiu: uma mulher muito jovem, simplesmente canalizou o que quer que estivesse acontecendo em seu meio social e cultural em seu livro. √Č claro que isso reduz a hist√≥ria cultural √† sabedoria popular de que ‚Äútodo mundo tem um livro neles‚ÄĚ e ignora o trabalho e a t√©cnica necess√°rios para produzir uma obra que seja public√°vel‚Ää‚ÄĒ‚Ääpara n√£o mencionar uma grande obra. No entanto, √© fascinante a frequ√™ncia com que as escritoras incorrem nessa rea√ß√£o. Pense na recep√ß√£o generalizada daquela escritora imponente do s√©culo XX, Sylvia Plath‚Ää‚ÄĒ‚Ään√£o menos poeta transformadora do que seu marido Ted Hughes‚Ää‚ÄĒ‚Ääsimplesmente expressando seus sentimentos. Na verdade, pense hoje na poeta norte-americana Sharon Olds, for√ßada durante anos ao equ√≠voco sobre se o material de seu trabalho premiado com o Pulitzer √© autobiogr√°fico, para que ela n√£o seja igualmente esquecida. A quest√£o n√£o √© como Mary escreveu Frankenstein, mas por que √© t√£o dif√≠cil acreditar que ela o fez? Afinal, ela mesma deixou um retrato do tipo de pensamento de que gostava: o intelecto saltitante e quase intuitivo que lhe d√° o Dr. Frankenstein. Apenas o tipo de ‚Äúaha!‚ÄĚ Que pode de repente, e brilhantemente, sintetizar uma s√©rie de id√©ias aparentemente n√£o relacionadas, exatamente como a hist√≥ria de Mary.

¬† ¬† ¬† ¬†Tudo o que sabemos sobre o seu processo de escrita‚Ää‚ÄĒ‚Ääe sabemos muito, gra√ßas ao seu di√°rio e cartas‚Ää‚ÄĒ‚Äänos diz que foi conscientemente liter√°rio, meticulosamente trabalhado. At√© mesmo seu famoso gatilho foi liter√°rio. Depois de terem passado uma noite em junho de 1816 lendo hist√≥rias de fantasmas juntos, Lord Byron colocou um grupo de convidados na Villa Diodati, √†s margens do Lago de Genebra, uma competi√ß√£o de reda√ß√£o. Como Mary lembrou: ‚Äú‚ÄėCada um de n√≥s escrever√° uma hist√≥ria de fantasmas‚Äô, disse Lord Byron‚Ķ eu me ocupei em pensar em uma hist√≥ria, uma hist√≥ria que rivalizasse com as que nos animaram nessa tarefa.‚ÄĚ Enquanto isso, os homens na sala‚Ää‚ÄĒ‚ÄäPercy e Byron ou o m√©dico de Byron, John William Polidori‚Ää‚ÄĒ‚Ääestavam tendo uma conversa s√©ria sobre ‚Äúos princ√≠pios da vida‚ÄĚ. Parece n√£o ter ocorrido a ningu√©m que Mary, tendo j√° dado √† luz duas vezes e perdido seu primeiro filho aos 12 dias de idade, provavelmente sabia mais sobre tais ‚Äúprinc√≠pios‚ÄĚ do que qualquer outra pessoa presente.

       Mas tudo o que a mãe adolescente não teve o direito de mencionar no salão de Byron abastece seu romance. Mary completou grande parte de Frankenstein enquanto morava em Bath, numa época em que Percy frequentemente estava ausente. Foi um ano tempestuoso no qual tanto sua meia-irmã Fanny quanto Harriet Shelley se mataram, a filha de sua meia-irmã com Byron nasceu, Mary se casou e ficou grávida pela terceira vez. Não é surpresa que o romance seja tão cheio de percepção interior e compreensão humana: ansiedades maternas sobre a criação de um humano perfeito; medos de fealdade, falta de amor e rejeição; uma análise do que é ser não-mãe e sozinha no mundo.

¬† ¬† ¬† ¬†Esses s√£o temas universais e, em agosto de 1818, o livro ‚Äúparece ser lido universalmente‚ÄĚ, como relatou seu amigo escritor Thomas Love Peacock a Mary e Percy. Mas Mary n√£o estava gozando de seu sucesso. Ela j√° havia seguido Percy para o ex√≠lio pol√≠tico na Europa, e dentro de um ano ela sofreria a morte de seus dois filhos. Arrastada do seu pilar para acompanhar o homem carism√°tico e pouco confi√°vel com quem estava comprometida, mesmo quando ele se tornava cada vez mais infiel a ela, ela, at√© a morte de Percy em 1822, n√£o se pareceria com nada como uma ‚Äúesposa rendida‚ÄĚ.

¬† ¬† ¬† ¬†√Č imposs√≠vel contar a hist√≥ria de sua vida sem perceber, a cada momento, que Mary era uma escritora. Vi√ļva pouco antes de completar 25 anos, ela descobriu que a maioria dos amigos n√£o a viam mais que algu√©m que era um cruzamento entre a mera amante de um poeta e uma desmancha-prazeres de estilo limitado. Ela retornou a Londres e passou as pr√≥ximas duas d√©cadas pagando uma mesada para seu filho sobrevivente- que seu sogro lhe emprestou. O filho mais velho de Sir Timothy Shelley era ileg√≠timo, mas ele nunca aceitou Mary‚Ää‚ÄĒ‚Ääque viveu e teve dois filhos com Percy antes de se casar com ele‚Ää‚ÄĒ‚Ääna fam√≠lia Shelley.

¬† ¬† ¬† ¬†Ainda assim, uma sobrevivente obstinada e uma profissional realizada, Mary sustentou-se e viu seu filho entrando em Harrow e Oxford, por meio de sua escrita, cuja grande parte tinha que ser feita anonimamente. Os arquivos est√£o cheios de tentativas malsucedidas de lan√ßar artigos para editores. √Č dif√≠cil imaginar um autor do sexo masculino que tenha experimentado um sucesso populares e cr√≠ticos similares sendo t√£o consistentemente reprimido. Mas Mary teve o azar de n√£o ter come√ßado a vida de escritora sob um pseud√īnimo masculino. Not√≥ria nos c√≠rculos liter√°rios por causa de seu relacionamento com Percy, ela nunca aproveitou as liberdades de seus contempor√Ęneos um pouco mais jovens, os Bront√ęs e George Eliot. Depois de Frankenstein, ela n√£o foi lida apenas como escritora, mas sempre julgada como mulher.

¬† ¬† ¬† ¬†Em uma reveladora publica√ß√£o de 21 de outubro de 1838, aos 41 anos, Mary tentou conciliar o sentimento de que ‚Äúser algu√©m grande e bom era o preceito que me foi dado‚ÄĚ, com sua incapacidade de escrever filosofia radical para uma ‚Äúboa causa‚ÄĚ. ‚ÄúMinha total falta de amigos, meu horror ao atrevimento e incapacidade de me colocar √† frente, muito menos liderado, somente aconchegando e apoiando, tudo isso me afundou.‚ÄĚ For√ßada a se sentir inferior pelos padr√Ķes duplos pesando contra ela e ainda envergonhada em sua falha em alcan√ßar tudo o que um homem conseguiria, sem essas desvantagens: Mary se sente absolutamente contempor√Ęnea. N√≥s a encontramos hoje em debates sobre o pr√™mio feminino de fic√ß√£o, em artigos de revistas comparando a sorte de escritores masculinos e femininos, nos horrores do teste do sof√°. Frankenstein nos mostra como o fracasso e a arrog√Ęncia s√£o dois lados da mesma moeda. A vida de Mary revela a tremenda auto confian√ßa que essa adolescente precisou ter para dar √† luz dois dos mais duradouros e influentes mitos do nosso tempo.

Link original: https://www.theguardian.com/books/2018/jan/13/frankenstein-at-200-why-hasnt-mary-shelley-been-given-the-respect-she-deserves-?CMP=share_btn_tw Acesso 23/03/2018.

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