Segunda, 09 De Julho De 2018

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O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story

Apesar da insistência de amigos e da família, não assisti à primeira temporada de American Crime Story (ACS), lançada em 2016 e que conta a história do caso OJ Simpson, atleta acusado de assassinar sua mulher, Nicole Brown. Provavelmente, também não assistiria a segunda temporada, por motivos de não ter visto a primeira, claro. Não poderia estar mais enganado!

Isso porque o segundo ano da série não tem nada a ver com o anterior. O caso é outro, é uma outra história fechada, seguindo um formato parecido com a qual o produtor, Ryan Murphy, fez em American Horror Story, série que já está produzindo sua nona temporada e todas são independentes uma da outra.

A grande diferença entre as séries “Crime” e “Horror” é que Ryan Murphy percebeu que o mundo já é feio o suficiente, repleto de monstros reais e que poderia contar sua história de terror, ou triller, sem apelar para demônios, óvnis ou criaturas de circo. “Crime” foca-se em histórias reais. “Horror” é pura ficção (claro que não estamos aqui sugerindo que uma coisa é melhor que a outra, apenas colocamos a diferença).

Então, a segunda temporada de ACS é sobre outro crime famoso na América e, novamente, a é autocontida em 9 episódios de quase uma hora cada, produzidas pelo canal FX. Já haviam comentado comigo que era sobre a morte de um estilista mundialmente famoso, que ocorrera em 1997. Lembro vagamente da polêmica na TV àquela época, afinal eu tinha apenas 15 anos e estava mais preocupado em acompanhar os novos animês da SBT ou Manchete do que assistir aos noticiciários policiais, mas a repercussão foi enorme. Gianni Versace era uma estrela pop, criava roupas para Elton John, Madonna e Lady Di. Mandou na moda durante, praticamente, todo os anos 1980 e 1990, tendo modelos como Naomi Campbell ansiando por desfilar com um vestido assinado por ele. Sua morte não passaria batida, nem mesmo para alguém como eu, que usava havaianas e pochete ainda em 1998.

Versace e Madonna

Mas eu, provavelmente, não teria assistido a série se não fosse uma morosa noite de sábado, quando passava pela sala e meu irmão preparava-se para assistir ao quinto episódio. Droga! Era uma cena da Penelope Cruz (Vicky Cristina Barcelona, Volver, Sem notícias de Deus) discutindo com o Rick Martin (Sim! Ele mesmo. De “Un, dos, tres, un pasito pa’delante Maria. Un, dos, tres, un pasito pa’atras” e “livin’ la vida loca”). Eu tive de assistir! Emendamos o episódio 6 e, já viciado no que estava vendo, começamos a assistir de forma retroativa. Meu irmão disse: “você precisa ver o 4!”. Então nós vimos! Depois o 3, depois o 2 e quando o primeiro episódio terminou eram 2 da madrugada e não continuamos a ver o 7, 8 e 9 porque precisávamos esperar a namorada do meu irmão para concluirmos a série na tarde do domingo.

Rick Martin, como o parceiro de Versace, Antonio d’Amico
Penélope Cruz como Donatella Versace

Você deve estar se perguntando: “porque diabos o cara assistiu o 5 e o 6 e depois foi de ré, do 4º ao 1º?”. É simples: porque de trás para frente seria a ordem cronológica correta dos fatos. A série vai de trás para frente. Não seria um spoiler dizer que o Gianni morre, afinal o nome da temporada é “The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story”. O fato é que sequência de abertura da série é justamente a morte do cara.

Então, do episódio 1 ao 8, nós temos uma narrativa retroativa que começa com a morte do estilista e vai mostrando o passo a passo do protagonista da série, que não é Versace. É o assassino, Andrew Cunanan. Quais foram os últimos passos dele? Quem ele vai matando ao longo de sua jornada que o tornaram um dos 10 mais procurados no FBI na época? E vai voltando no tempo, passando pela sua juventude e infância. O nono episódio é o final. De forma de, se você quiser assistir do oitavo episódio até o primeiro e, por fim, o nono, funcionaria muito bem.

A forma como a série é montada é muito inteligente, porque, provavelmente, a maioria dos espectadores não se interessariam pela infância de Andrew Cunanan antes de ter visto o que ele fez no primeiro episódio. Não que a infância dele seja pouco interessante, muito pelo contrário. Na verdade, todos os episódios são tão hipnotizantes que você seria atraído para a tv se se deixasse parar para assistir por quaisquer 5 minutos (foi o que aconteceu comigo). Tudo é muito envolvente: o exuberante mundo da moda; a personalidade incrível de Gianni Versace, que é praticamente o oposto do que você imagina (ele é supersimpático, receptivo, acessível e odeia modelos magrelas que parecem doentes); até a interpretação novelesca de Penélope Cruz e a superconvincente atuação do Rick Martin.

A trilha sonora é uma estrela à parte. Como diria um amigo: “já quero! ”. Sabe aquela sensação nostálgica de que os anos 90 são os novos anos 80? Pois é! A cena com Cunanan cantando “Pump Up The Jam (make my day)” é impagável!

A noite, as festas, a dança, o figurino horrível que nós vestíamos e reconhecemos na tela. Tudo é tão perto e a história é tão absurdamente próxima que nos sentimos mal. Isso porque o assunto da série não é apenas o assassinato de alguém.

“The Assassination of Gianni Versace” é muito mais sobre a sofrível condição do homossexual nos anos 1990, aqui do lado, do que sobre mais um serial killer dos Estados Unidos, afinal de contas, esse tipo de assassino é produzido aos baldes para ser consumido com fulgor e ânsia na cultura pop norte-americana. Não! Essa temporada de ACS é muito maior! É sobre como o casamento entre pessoas do mesmo sexo não era permitido há tão pouco tempo atrás. É sobre como o exército americano cobrava uma conduta e norma de seus oficiais e soldados e que proibia a menor expressão homo afetiva. É sobre como a Igreja e a polícia pode ignorar ou mesmo não sabe como lidar com o assunto. É sobre como é diferente a vida de um gay pobre e de um gay rico. Além de tudo isso, é sobre como construir uma história de sucesso, sobre como ter sucesso na vida, ser notado, ser especial e o quão importante é a família em todo esse processo.

O ator Darren Criss está excelente no papel de Andrew Cunana

Como trata-se de uma história baseada em fatos reais, algumas lacunas eram incontornáveis, afinal, Gianni está morto e não pôde contar sua versão, ou mesmo não se conhece bem qual seria sua relação com o próprio assassino. Ainda hoje não se sabe, com certeza, as motivações de Cunanan e, assistindo a série você entenderá o porquê. Saber disso, inclusive, explica um pouco a aparenta falta de motivos do personagem. Nesse ponto, é preciso que haja um pouco de sensibilidade e criatividade por parte dos narradores em torno das principais teorias que explicariam todos esses assassinatos.

A temporada é baseada no livro Vulgar Favors, de Maureen Orth, que afirmou: “Eu sou responsável pelo livro, e não pela série. Ela é baseada no meu trabalho, mas não foi escrita por mim”. Os produtores responderam que a pesquisa da autora é muito cuidadosa e que existem muitos pontos verdadeiros, que só precisavam ser meticulosamente costuradas, como um tecido.

Ao longo da temporada, a série procura traçar um paralelo entre a vida e as famílias de Cunanan e Versace, na forma como os dois foram ensinados por seus pais a como enfrentarem ou enxergarem o mundo. E é aqui que a gente aprende como o carinho, o afeto, o trabalho honesto e a sensibilidade de quem nos inspira pode ser o fiel da balança entre uma vida feliz e a psicopatia que envenena quem precisa aparecer, por se achar especial.

Recomendo fortemente. Vou assistir agora o caso OJ Simpson.

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