Domingo, 30 De Dezembro De 2018

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O que é Mana para Magic, Religião e filosofia

Se você é uma pessoa religiosa, um jogador de Magic The Gatering (MTG) ou as duas coisas (afinal, uma característica não deveria anular a outra), você deve saber o que é o mana (ou maná).

Mas se voc√™ n√£o se enquadra em nenhuma das op√ß√Ķes acima, deixa eu explicar primeiro o que √© o MTG. √Č, provavelmente, o jogo de cartas mais popular do mundo depois do Poker, Truco, Buraco, Paci√™ncia ou Burro em p√©. Trata-se de um jogo onde cada jogador tem um baralho pr√≥prio, personalizado √† sua prefer√™ncia e, normalmente, com 60 cartas, divididas entre criaturas, m√°gicas, feiti√ßos, artefatos e terrenos.

Desde que o jogo foi criado, no in√≠cio dos anos 90, MTG desenvolve uma longa hist√≥ria com v√°rios personagens e certa trama. Em meio √† toda essa fantasia, voc√™ pode jogar como se interpretasse um mago duelando contra seu colega e, como todo bom mago, voc√™ conjura m√°gicas, voc√™ invoca suas criaturas, suas m√°gicas instant√Ęneas de interrup√ß√£o (que fazem seu oponente te odiar) e uma infinidade de outras coisas legais e coloridas.

E, em sua maioria, são coloridas mesmo. Isso porque, para criarmos toda essa variedade de elementos, todo jogador precisa ter em seu baralho uma boa quantidade de terrenos, pois são eles que geram os manas (não exclusivamente, algumas criaturas ou artefatos ou outras cartas e habilidades especiais também podem gerar mana). São cinco tipos de terrenos e cada um deles cria um tipo de mana com sua cor específica: Floresta Рverde; Montanha Рvermelho; Ilha Рazul; Pantano Рpreto; Planície Рbranco.

Terrenos b√°sicos de magic the gatering

Você pode entender cada cor de mana como a energia estática de um plano, que se concentra em certos lugares, são como grandes artérias ou veios nas quais aquele mana corre. Imagine que uma montanha é um grande receptáculo pra onde linhas de forças naturais vermelha convergem e você, como jogador, usa essa força como moeda para realizar suas magias.

O mundo de Magic, na verdade, funciona como um multiverso, existindo em v√°rios planos. Alguns desses planos relacionam-se ou alinham-se mais a determinadas cores do que outras, por isso, algumas cole√ß√Ķes do jogo (costumam sair tr√™s cole√ß√Ķes por ano) tendem para determinadas cores em detrimento √† outras.

Existem também os manas incolores, normalmente gerados, quase que mecanicamente, por artefatos ou criaturas sem cor, e o mana phyrexiano que gera energia para conjurar mágicas quando o jogador paga sua execução com pontos de vida. Mas calma! Não chamem a inquisição ainda! São apenas dois pontos de vida (no formato mais comum, a partida começa com 20) e ninguém usa um punhal no processo. Você não morrerá por isso, a não ser que seja um péssimo jogador.

Esses terrenos são a base do jogo, em MTG. Cada terreno desses pode gerar 1 ou mais pontos para a sua reserva de mana. Então, cada mágica que você invoca possui um custo que precisa ser pago. John Constantine já disse que toda magia cobra seu preço e, em Magic, elas são cobradas em manas.

Ent√£o, essas criaturas, aparentemente surgem do nada,¬†aparecendo no campo de batalha como se formadas do ar, providas √† partir de um leve aceno de um mago experiente, ocasionalmente seguidos por um grito euf√≥rico de um jogador para seu advers√°rio: ‚ÄúChupa! Noob!‚ÄĚ. Mas n√£o √© t√£o simples assim. Elas s√£o invocadas a partir da energia liberada pelo uso dos terrenos, ou seja, elas surgem atrav√©s do mana.

Dessa forma, cada tipo de terreno cria as mais diversas criaturas. Normalmente, as plan√≠cies, que geram mana branco, criam guerreiros humanos e anjos, as montanhas vermelhas criam goblins e gnomos, as florestas verdes criam elfos, os p√Ęntanos pretos criam zumbis, as ilhas azuis criam criaturas marinhas ou a√©reas, entre tantas outras dos mais diversos tipos e ra√ßas. A energia emana da terra. E os magos se prov√©m dela.¬†E, como tudo no mundo √© pass√≠vel de problematiza√ß√£o, vamos procurar saber de onde vem a inspira√ß√£o para essa energia na religi√£o e na filosofia.

 

O Maná na Bíblia

(informa√ß√Ķes retiradas deste site)

Durante o √™xodo, o povo de Israel vagou pelo deserto por 40 anos em busca de sua terra prometida. E teria morrido de fome se n√£o fosse pelo Man√°. Como estavam na condi√ß√£o de n√īmades no meio de uma terra infrut√≠fera, era imposs√≠vel para eles proverem alimento por tanto tempo em meio h√° uma regi√£o t√£o in√≥spita.

Depois de reclamarem fome e de clamarem aos c√©us por um sustento, aprenderam que¬†‚Äún√£o s√≥ de p√£o viver√° o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor‚Ä̬†(Dt 8:3). S√≥ ent√£o, toda manh√£ (com exce√ß√£o dos s√°bados) come√ßou a aparecer um alimento, aparentemente vindo do nada: o man√°,¬†surgia na superf√≠cie do deserto ap√≥s o orvalho evaporar, de modo que ele era semelhante a¬†‚Äúescamas finas como a geada sobre a terra‚Ä̬†(√äx 16:14).

A B√≠blia descreve o man√° como sendo o¬†‚Äúcereal do c√©u‚Ä̬†(√äx 16:4; Sl 78:23,24),¬†era pequeno e arredondado, com colora√ß√£o esbranqui√ßada, e parecia semente de coentro e bd√©lio. Quando exposto ao sol, o man√° derretia. Seu gosto era adocicado, semelhante a¬†‚Äúbolos de mel‚Ä̬†(√äx 16:31), mas tamb√©m lembrava, de alguma forma,¬†‚Äúbolos amassados com azeite‚Ä̬†(Nm 11:8).

Mais tarde, no Novo Testamento, Jesus diz que √© o pr√≥prio Man√° (Jo√£o 6:31-35), refere-se como uma tipifica√ß√£o de si mesmo, e estabelece um contraste ao mostrar que o man√° que os judeus comeram no deserto apenas lhes serviu como sustento, mas que Ele √© o¬†‚Äúverdadeiro p√£o do c√©u‚Ä̬†dado por Deus, o¬†‚Äúp√£o da vida‚ÄĚ, da qual quem d‚ÄôEle comer nunca morrer√° (Jo 6:48-50).

 

O que o mana de MTG tem a ver com o maná da Bíblia?

Aparentemente, nada! Na verdade, há até uma contradição: o maná é tido como o pão ou o cereal que veio do céu e não que provém do poder diretamente emanado dos terrenos, do deserto ou da Terra. No jogo, a energia vem diretamente da natureza e não pela providência de um Deus criador.

Não consegui encontrar referências dessa entidade criadora do Mana dentro da mitologia do jogo. Caso conheça, por favor, me informe. Mas, com um pequeno exercício de imaginação, podemos comparar o multiverso de Magic e a forma como nos relacionamos com essa energia com o conceito de Gaia, uma mãe terra que provém toda a vida na natureza, um gigantesco ser vivo, de acordo com a mitologia grega, gerador de todas as formas de vida e, inclusive, criadora de todos os deuses.

Entretanto, com uma interpreta√ß√£o crist√£, tamb√©m podemos crer que todas as coisas, inclusive as energias existentes em um plano, s√£o frutos de um √ļnico Deus. O que nos colocaria diante de um dilema: pois para o pensamento crist√£o, manusear essas energias nos aproximaria do paganismo e da bruxaria. √Č por isso que MTG gera muita pol√™mica entre as √°reas mais conservadoras da religi√£o, que n√£o conseguem entender o jogo como uma brincadeira l√ļdica e n√£o uma tentativa real de invocar dem√īnios ou anjos. #chamemainquisi√ß√£o

A semelhan√ßa mais aparente entre as duas interpreta√ß√Ķes do man√° na B√≠blia ou o mana no jogo √© o fato de algo ter surgido, aparentemente, do nada. Houve uma conjura√ß√£o de um alimento. Acontece que o alimento, na B√≠blia, √© o pr√≥prio man√°, e no MTG o mana √© apenas o recurso dispon√≠vel para a invoca√ß√£o das magias. Se f√īssemos observar a B√≠blia com um verniz do jogo, n√≥s dir√≠amos que o man√° seria a energia que criou o p√£o do c√©u e n√£o o p√£o em si.

 

O Mana na Filosofia

Estava passando pela sala de casa e vi um livro que minha mulher estava lendo, aberto, em cima da mesa. Foi esse encontro fortuito que me levou a escrever este artigo. O livro era Eu e Tu, de Martin Buber, publicado, originalmente, em 1923.  A questão principal do trabalho de Buber é elaborar o conceito de relação e significar aquilo que, de essencial, acontece entre seres humanos e entre o homem e Deus. Ok! Mas não é esse nosso foco e me prendi apenas às duas ou três páginas onde, curiosamente, vi a palavra mana sendo discutida.

Martin Buber

Para entender o que significa o mana para Buber √© preciso, antes, conhecermos como se d√° a rela√ß√£o do homem ‚Äúnatural‚Äú (poder√≠amos utilizar o termo homem ‚Äúprimitivo‚Äú? Acredito que sim) com suas impress√Ķes e emo√ß√Ķes elementares com rela√ß√£o ao mundo. Segundo o autor:

essas rela√ß√Ķes s√£o derivadas de fen√īmenos de rela√ß√£o, pela viv√™ncia de um face-a-face, pela vida na reciprocidade. Ele n√£o pensa na lua que ele v√™ todas as noites, at√© o dia em que, no sono ou na vig√≠lia, ela se dirige para ele em pessoa e se aproxima dele, enfeiti√ßando-o com gestos ou lhe proporciona algo (…) O que ele conserva desse fato n√£o √© a imagem √≥tica de um disco ambulante e nem a imagem de um ser demon√≠aco que, de algum modo, lhe pertencesse, mas primeiramente a imagem din√Ęmica, a imagem excitante daquela for√ßa lunar irradiante que perpassa o corpo. A imagem pessoal da lua e de sua for√ßa atuante se definir√° somente aos poucos. Somente ent√£o a lembran√ßa daquilo que ele recebeu de um modo inconsciente, noite ap√≥s noites, come√ßa a reavivar, permitindo-lhe apresentar e objetificar o autor e o portador daquela a√ß√£o.

 

Vamos tentar explicar tudo isso. Para Buber, os limites do mundo do homem primitivo eram traçados pela sua vivência corporal, que pertence à razão das coisas que acontecem naturalmente. O conceito de sobre-natural ou supre-sensível não poderia ser concebido pela mente do primervo.

Então, vamos voltar ao exemplo da Lua: o homem cria uma relação de desobjetificação (acho que acabei de criar esse termo) com a lua. Quando, continuamente, noite após noites, a lua, que era um objeto inanimado no céu, interage com o homem primitivo, quando ele cria uma relação de meditação com aquele elemento, ele é possuído por uma forte emoção e a lua deixa de ser um mero objeto e o homem passa a se relacionar de uma forma mística com ela, mas esse misticismo é reflexo de uma relação elementar do mundo onde ele vive, pois ele sente, então é real. Para o homem primitivo, a mágica era o cotidiano real. Isso é o mana de Martin Buber.

 

O que o Mana da Filosofia tem a ver com Magic The Gatering

O Mana √© este poder atuante, que transformou a pessoa lunar, l√° no espa√ßo celeste, em um Tu que agita o sangue (…) O Mana √© aquilo em virtude do que, uma vez possu√≠do, por exemplo, em uma pedra m√°gica, se pode agir. A ideia de mundo dos primitivos √© m√°gica, n√£o pelo fato de ter como centro o poder m√°gico do homem, mas porque este poder √© unicamente uma variedade particular do poder m√°gico universal da qual prov√©m toda a√ß√£o essencial (…) O Mana √© uma abstra√ß√£o primitiva, talvez at√© mais primitiva do que o n√ļmero, por√©m n√£o mais sobrenatural (BUBER. 2006. pg.65).

 

Quando Buber conclui que o Mana √© uma abstra√ß√£o primitiva mas n√£o sobrenatural, n√≥s temos reafirmado a no√ß√£o de que o homem primitivo entendia a espiritualidade como uma manifesta√ß√£o sens√≠vel e, portanto, real para seu entendimento. A magia seria a abstra√ß√£o do desconhecido experienciado. Quer dizer, se voc√™ sente que passou por uma experiencia inexplic√°vel, como ter sido assombrado por um monstro, isso claramente aconteceu de fato. √Č real. Uma manifesta√ß√£o m√°gica, a √ļnica explica√ß√£o poss√≠vel neste mundo.

Deve ser por isso que a grande maioria de jogos como Magic e os Role Playing Game (RPG), como Dungeons & Drangons (D&D), passam-se em tempos imemoriais onde a fantasia convive com a humanidade. Quanto mais o questionamento e a razão científica tornam-se o padrão, menos aceita-se a existência dessas experiencias como algo crível.

O Mana de Buber √© exatamente o que anima essa fantasia. √Č o que pode transformar a lua em uma figura fantasmag√≥rica sens√≠vel ao homem. E √© esta a mesma l√≥gica de jogos como MTG: o mana √© o poder que anima a fantasia. √Č o poder que permite a conjura√ß√£o. √Č a energia, extra√≠da ou dos planos ou dos artefatos, que permite a invoca√ß√£o de m√°gicas, sejam elas monstros, soldados, po√ß√Ķes e uma infinidade de outros elementos.

O Magic, entretanto, n√£o √© o √ļnico jogo que utiliza o Mana como base para esses tipo de a√ß√Ķes m√≠sticas. √Č muito comum em jogos como o popular Diablo, por exemplo, uma barra de “MP” que surge ao lado do perfil do jogador. Essa sigla significa, exatamente, “mana points” ou “magic points” e ela exerce a mesma fun√ß√£o que os terrenos tem em MTG: a reserva de energia que seu personagem possui para moldar a realidade e tornar a fantasia presente.

 

 

Gostaria de agradecer ao Victor Passos, Epif√Ęnio Panda e Nat√°lia Silva pelas conversas que tornaram esse artigo poss√≠vel.

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