Quinta, 21 De Fevereiro De 2019

LOJA QUINTA CAPA

O que é Mana para Magic, Religião e filosofia

Se você é uma pessoa religiosa, um jogador de Magic The Gatering (MTG) ou as duas coisas (afinal, uma característica não deveria anular a outra), você deve saber o que é o mana (ou maná).

Mas se você não se enquadra em nenhuma das opções acima, deixa eu explicar primeiro o que é o MTG. É, provavelmente, o jogo de cartas mais popular do mundo depois do Poker, Truco, Buraco, Paciência ou Burro em pé. Trata-se de um jogo onde cada jogador tem um baralho próprio, personalizado à sua preferência e, normalmente, com 60 cartas, divididas entre criaturas, mágicas, feitiços, artefatos e terrenos.

Desde que o jogo foi criado, no início dos anos 90, MTG desenvolve uma longa história com vários personagens e certa trama. Em meio à toda essa fantasia, você pode jogar como se interpretasse um mago duelando contra seu colega e, como todo bom mago, você conjura mágicas, você invoca suas criaturas, suas mágicas instantâneas de interrupção (que fazem seu oponente te odiar) e uma infinidade de outras coisas legais e coloridas.

E, em sua maioria, são coloridas mesmo. Isso porque, para criarmos toda essa variedade de elementos, todo jogador precisa ter em seu baralho uma boa quantidade de terrenos, pois são eles que geram os manas (não exclusivamente, algumas criaturas ou artefatos ou outras cartas e habilidades especiais também podem gerar mana). São cinco tipos de terrenos e cada um deles cria um tipo de mana com sua cor específica: Floresta – verde; Montanha – vermelho; Ilha – azul; Pantano – preto; Planície – branco.

Terrenos básicos de magic the gatering

Você pode entender cada cor de mana como a energia estática de um plano, que se concentra em certos lugares, são como grandes artérias ou veios nas quais aquele mana corre. Imagine que uma montanha é um grande receptáculo pra onde linhas de forças naturais vermelha convergem e você, como jogador, usa essa força como moeda para realizar suas magias.

O mundo de Magic, na verdade, funciona como um multiverso, existindo em vários planos. Alguns desses planos relacionam-se ou alinham-se mais a determinadas cores do que outras, por isso, algumas coleções do jogo (costumam sair três coleções por ano) tendem para determinadas cores em detrimento à outras.

Existem também os manas incolores, normalmente gerados, quase que mecanicamente, por artefatos ou criaturas sem cor, e o mana phyrexiano que gera energia para conjurar mágicas quando o jogador paga sua execução com pontos de vida. Mas calma! Não chamem a inquisição ainda! São apenas dois pontos de vida (no formato mais comum, a partida começa com 20) e ninguém usa um punhal no processo. Você não morrerá por isso, a não ser que seja um péssimo jogador.

Esses terrenos são a base do jogo, em MTG. Cada terreno desses pode gerar 1 ou mais pontos para a sua reserva de mana. Então, cada mágica que você invoca possui um custo que precisa ser pago. John Constantine já disse que toda magia cobra seu preço e, em Magic, elas são cobradas em manas.

Então, essas criaturas, aparentemente surgem do nada, aparecendo no campo de batalha como se formadas do ar, providas à partir de um leve aceno de um mago experiente, ocasionalmente seguidos por um grito eufórico de um jogador para seu adversário: “Chupa! Noob!”. Mas não é tão simples assim. Elas são invocadas a partir da energia liberada pelo uso dos terrenos, ou seja, elas surgem através do mana.

Dessa forma, cada tipo de terreno cria as mais diversas criaturas. Normalmente, as planícies, que geram mana branco, criam guerreiros humanos e anjos, as montanhas vermelhas criam goblins e gnomos, as florestas verdes criam elfos, os pântanos pretos criam zumbis, as ilhas azuis criam criaturas marinhas ou aéreas, entre tantas outras dos mais diversos tipos e raças. A energia emana da terra. E os magos se provém dela. E, como tudo no mundo é passível de problematização, vamos procurar saber de onde vem a inspiração para essa energia na religião e na filosofia.

 

O Maná na Bíblia

(informações retiradas deste site)

Durante o êxodo, o povo de Israel vagou pelo deserto por 40 anos em busca de sua terra prometida. E teria morrido de fome se não fosse pelo Maná. Como estavam na condição de nômades no meio de uma terra infrutífera, era impossível para eles proverem alimento por tanto tempo em meio há uma região tão inóspita.

Depois de reclamarem fome e de clamarem aos céus por um sustento, aprenderam que “não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor” (Dt 8:3). Só então, toda manhã (com exceção dos sábados) começou a aparecer um alimento, aparentemente vindo do nada: o maná, surgia na superfície do deserto após o orvalho evaporar, de modo que ele era semelhante a “escamas finas como a geada sobre a terra” (Êx 16:14).

A Bíblia descreve o maná como sendo o “cereal do céu” (Êx 16:4; Sl 78:23,24), era pequeno e arredondado, com coloração esbranquiçada, e parecia semente de coentro e bdélio. Quando exposto ao sol, o maná derretia. Seu gosto era adocicado, semelhante a “bolos de mel” (Êx 16:31), mas também lembrava, de alguma forma, “bolos amassados com azeite” (Nm 11:8).

Mais tarde, no Novo Testamento, Jesus diz que é o próprio Maná (João 6:31-35), refere-se como uma tipificação de si mesmo, e estabelece um contraste ao mostrar que o maná que os judeus comeram no deserto apenas lhes serviu como sustento, mas que Ele é o “verdadeiro pão do céu” dado por Deus, o “pão da vida”, da qual quem d’Ele comer nunca morrerá (Jo 6:48-50).

 

O que o mana de MTG tem a ver com o maná da Bíblia?

Aparentemente, nada! Na verdade, há até uma contradição: o maná é tido como o pão ou o cereal que veio do céu e não que provém do poder diretamente emanado dos terrenos, do deserto ou da Terra. No jogo, a energia vem diretamente da natureza e não pela providência de um Deus criador.

Não consegui encontrar referências dessa entidade criadora do Mana dentro da mitologia do jogo. Caso conheça, por favor, me informe. Mas, com um pequeno exercício de imaginação, podemos comparar o multiverso de Magic e a forma como nos relacionamos com essa energia com o conceito de Gaia, uma mãe terra que provém toda a vida na natureza, um gigantesco ser vivo, de acordo com a mitologia grega, gerador de todas as formas de vida e, inclusive, criadora de todos os deuses.

Entretanto, com uma interpretação cristã, também podemos crer que todas as coisas, inclusive as energias existentes em um plano, são frutos de um único Deus. O que nos colocaria diante de um dilema: pois para o pensamento cristão, manusear essas energias nos aproximaria do paganismo e da bruxaria. É por isso que MTG gera muita polêmica entre as áreas mais conservadoras da religião, que não conseguem entender o jogo como uma brincadeira lúdica e não uma tentativa real de invocar demônios ou anjos. #chamemainquisição

A semelhança mais aparente entre as duas interpretações do maná na Bíblia ou o mana no jogo é o fato de algo ter surgido, aparentemente, do nada. Houve uma conjuração de um alimento. Acontece que o alimento, na Bíblia, é o próprio maná, e no MTG o mana é apenas o recurso disponível para a invocação das magias. Se fôssemos observar a Bíblia com um verniz do jogo, nós diríamos que o maná seria a energia que criou o pão do céu e não o pão em si.

 

O Mana na Filosofia

Estava passando pela sala de casa e vi um livro que minha mulher estava lendo, aberto, em cima da mesa. Foi esse encontro fortuito que me levou a escrever este artigo. O livro era Eu e Tu, de Martin Buber, publicado, originalmente, em 1923.  A questão principal do trabalho de Buber é elaborar o conceito de relação e significar aquilo que, de essencial, acontece entre seres humanos e entre o homem e Deus. Ok! Mas não é esse nosso foco e me prendi apenas às duas ou três páginas onde, curiosamente, vi a palavra mana sendo discutida.

Martin Buber

Para entender o que significa o mana para Buber é preciso, antes, conhecermos como se dá a relação do homem natural (poderíamos utilizar o termo homem primitivo? Acredito que sim) com suas impressões e emoções elementares com relação ao mundo. Segundo o autor:

essas relações são derivadas de fenômenos de relação, pela vivência de um face-a-face, pela vida na reciprocidade. Ele não pensa na lua que ele vê todas as noites, até o dia em que, no sono ou na vigília, ela se dirige para ele em pessoa e se aproxima dele, enfeitiçando-o com gestos ou lhe proporciona algo (…) O que ele conserva desse fato não é a imagem ótica de um disco ambulante e nem a imagem de um ser demoníaco que, de algum modo, lhe pertencesse, mas primeiramente a imagem dinâmica, a imagem excitante daquela força lunar irradiante que perpassa o corpo. A imagem pessoal da lua e de sua força atuante se definirá somente aos poucos. Somente então a lembrança daquilo que ele recebeu de um modo inconsciente, noite após noites, começa a reavivar, permitindo-lhe apresentar e objetificar o autor e o portador daquela ação.

 

Vamos tentar explicar tudo isso. Para Buber, os limites do mundo do homem primitivo eram traçados pela sua vivência corporal, que pertence à razão das coisas que acontecem naturalmente. O conceito de sobre-natural ou supre-sensível não poderia ser concebido pela mente do primervo.

Então, vamos voltar ao exemplo da Lua: o homem cria uma relação de desobjetificação (acho que acabei de criar esse termo) com a lua. Quando, continuamente, noite após noites, a lua, que era um objeto inanimado no céu, interage com o homem primitivo, quando ele cria uma relação de meditação com aquele elemento, ele é possuído por uma forte emoção e a lua deixa de ser um mero objeto e o homem passa a se relacionar de uma forma mística com ela, mas esse misticismo é reflexo de uma relação elementar do mundo onde ele vive, pois ele sente, então é real. Para o homem primitivo, a mágica era o cotidiano real. Isso é o mana de Martin Buber.

 

O que o Mana da Filosofia tem a ver com Magic The Gatering

O Mana é este poder atuante, que transformou a pessoa lunar, lá no espaço celeste, em um Tu que agita o sangue (…) O Mana é aquilo em virtude do que, uma vez possuído, por exemplo, em uma pedra mágica, se pode agir. A ideia de mundo dos primitivos é mágica, não pelo fato de ter como centro o poder mágico do homem, mas porque este poder é unicamente uma variedade particular do poder mágico universal da qual provém toda ação essencial (…) O Mana é uma abstração primitiva, talvez até mais primitiva do que o número, porém não mais sobrenatural (BUBER. 2006. pg.65).

 

Quando Buber conclui que o Mana é uma abstração primitiva mas não sobrenatural, nós temos reafirmado a noção de que o homem primitivo entendia a espiritualidade como uma manifestação sensível e, portanto, real para seu entendimento. A magia seria a abstração do desconhecido experienciado. Quer dizer, se você sente que passou por uma experiencia inexplicável, como ter sido assombrado por um monstro, isso claramente aconteceu de fato. É real. Uma manifestação mágica, a única explicação possível neste mundo.

Deve ser por isso que a grande maioria de jogos como Magic e os Role Playing Game (RPG), como Dungeons & Drangons (D&D), passam-se em tempos imemoriais onde a fantasia convive com a humanidade. Quanto mais o questionamento e a razão científica tornam-se o padrão, menos aceita-se a existência dessas experiencias como algo crível.

O Mana de Buber é exatamente o que anima essa fantasia. É o que pode transformar a lua em uma figura fantasmagórica sensível ao homem. E é esta a mesma lógica de jogos como MTG: o mana é o poder que anima a fantasia. É o poder que permite a conjuração. É a energia, extraída ou dos planos ou dos artefatos, que permite a invocação de mágicas, sejam elas monstros, soldados, poções e uma infinidade de outros elementos.

O Magic, entretanto, não é o único jogo que utiliza o Mana como base para esses tipo de ações místicas. É muito comum em jogos como o popular Diablo, por exemplo, uma barra de “MP” que surge ao lado do perfil do jogador. Essa sigla significa, exatamente, “mana points” ou “magic points” e ela exerce a mesma função que os terrenos tem em MTG: a reserva de energia que seu personagem possui para moldar a realidade e tornar a fantasia presente.

 

 

Gostaria de agradecer ao Victor Passos, Epifânio Panda e Natália Silva pelas conversas que tornaram esse artigo possível.

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