Segunda, 17 De Dezembro De 2018

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Resenha | A Volta do Parafuso (Henry James)

Texto Jackson Rocha

Escrito em 1898, A volta do Parafuso (The Turn of the Screw) Ă©, talvez, a mais famosa estĂłria do norte-americano Henry James. Trata-se de um excelente thriller psicolĂłgico, que nos coloca diante de uma situação que nos permite mĂșltiplas interpretaçÔes, narrada a partir do ponto de vista da personagem principal. Esse, talvez, seja o ponto mais importante da narrativa, pois tudo o que vemos (ou sentimos, por que nĂŁo?) durante a leitura Ă© o ponto de vista da narradora, o que nos leva a questionar, em diversos momentos, o que Ă© verdade ou nĂŁo no seu relato.

Nada disso seria possĂ­vel sem a primazia linguĂ­stica do autor, que demonstra, durante toda a obra, seu perfeito domĂ­nio sobre a lĂ­ngua e a escrita (ressalto aqui que li a versĂŁo bilĂ­ngue, com um bom trabalho de adaptação para lĂ­ngua portuguesa, mas o original inglĂȘs Ă© um deleite). Talvez isso seja um empecilho inicial para a leitura, jĂĄ que o texto segue um ritmo um tanto quando lento, com uma cadĂȘncia que talvez nĂŁo agrade alguns leitores. Entretanto, a qualidade e o suspense da estĂłria compensam esses pormenores.

De inĂ­cio, somos colocados diante de um grupo que acabou de ouvir uma estĂłria de fantasmas. NĂŁo sei por que, esse pequeno inĂ­cio me recordou a reuniĂŁo entre Byron, o casal Shelley e Polidori, de onde saĂ­ram algumas das raĂ­zes mais importantes da literatura gĂłtica e de terror. Enfim, apĂłs ouvir o relato, um dos membros do grupo diz ter uma estĂłria ainda mais assustadora e intrigante, pedindo apenas um tempo e para lĂȘ-la em outra oportunidade, criando um clima de suspense sobre a mesma desde o começo.

Segue-se, entĂŁo, o relato da protagonista, uma jovem que aceita o emprego de preceptora de duas crianças em uma mansĂŁo em Bly, fazendo uma retrospectiva dos eventos marcantes e sobrenaturais durante sua estadia naquele lugar. Vale ressaltar que, desde o inĂ­cio, somos apresentados Ă s caracterĂ­sticas excĂȘntricas do seu contratante, o tio das crianças, com seu ar sedutor, que lhe dĂĄ a mais estranha ordem: a de nĂŁo ser informado ou incomodado pelo que acontecesse na mansĂŁo.

Cada uma das outras personagens é bem construída. As duas crianças, Flora e Miles, apresentadas inicialmente como extremamente carismåticas, apesar do menino ter tido problemas que resultaram na sua expulsão da escola, além da governante e, posteriormente, amiga Sra Grose, que age como auxiliar e confidente da protagonista. Entretanto, a protagonista segue como a mais interessante de todas, com seus valores e questÔes subjetivas. Aliås, tudo é muito subjetivo na narrativa, o que a torna muito sedutora ao leitor.

O elemento sobrenatural Ă© aqui inserido de forma sutil. Apesar de a preceptora nos relatar que vĂȘ os fantasmas de antigos empregados da casa e de sentir a sua influĂȘncia sobre as crianças, ao mesmo tempo o leitor se indaga o quanto disso Ă© verdadeiro, o quanto Ă© parte de imaginação ou delĂ­rio da protagonista, que tem sua sanidade questionada a todo instante, devido a suas atitudes. Inclusive questĂ”es freudianas estĂŁo implĂ­citas em diversas passagens da obra.

Todos os eventos levam o leitor a uma sensação de imersĂŁo. Por sua qualidade descritiva, a obra consegue despertar diversas sensaçÔes durante a sua leitura. Definitivamente, um dos clĂĄssicos do gĂȘnero, alĂ©m de essencial para quem aprecia nĂŁo sĂł o terror/suspense psicolĂłgico, mas sim uma boa leitura.

PS: O conto teve diversas adaptaçÔes para o cinema, sendo a mais conhecida Os Inocentes, de 1961, com roteiro de Truman Capote, alĂ©m de influenciar diversos outros autores e filmes do gĂȘnero. Durante a leitura, fica fĂĄcil de notar que algumas de “tĂ©cnicas” ainda hoje sĂŁo utilizadas em diversos filmes de suspense e terror.

Quem é PikachuSama

Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.

 

  

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