Quinta, 21 De Fevereiro De 2019

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Resenha | Blue Note – Os últimos dias da lei seca

Em Blue Note, histórias sobre máfia, boxe e o blues dão o tom do último mês da lei seca americana, mostrando que o período da proibição da venda de álcool nos EUA ainda rende excelentes histórias.

 

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O imaginário popular ocidental está repleto de períodos específicos da história dos Estados Unidos da América, porque o país adotou e investiu em peso na sua indústria do cinema e entretenimento. É dessa forma que o Velho Oeste, período da expansão americana para o Pacífico e onde foras da lei e xerifes eram figuras constantes, foi imensamente explorado, contando com clássicos do cinema como ERA UMA VEZ NO OESTE, BRAVURA INDÔMITA, POR UM PUNHADO DE DÓLARES, entre tantos outros. Outro ponto importante da indústria do entretenimento foi a participação dos EUA na Segunda Guerra Mundial, contando com filmes que retrataram a época, como O RESGATE DO SOLDADO RYAN e o recente DUNKIRK. Essa retratação dos momentos da América do Norte se mostra presente até mesmo nos grandes fracassos do país, como a Guerra do Vietnã, em filmes como PLATOON e NASCIDO EM 04 DE JULHO. Porém, se há um fracasso moral e institucional que o entretenimento sempre mostrou, e, em muitas vezes, glamorizou, foi o período da Lei Seca.

Entre 1920, após aprovação do Congresso Americano, e 1933, foi proibido a venda e o consumo de álcool no país. Uma decisão que teve mais cunho moral, onde a bebida era apontada como um dos grandes males da sociedade americana. Porém, mostrou seus efeitos na corrupção generalizada que a proibição causou, já que dos políticos aos policiais recebiam propina para fingir que não sabiam do comércio de bebidas. Onde as figuras do gangsteres, mafiosos americanos, surgiram e ganharam importância.

É o último momento da Lei Seca, mais exatamente a um mês da revogação da lei, que Blue Note – Os Últimos dias da Lei Seca nos mostra. Ao acompanhar dois personagens principais, um boxeador em fim de carreia e um músico recém chegado à cidade grande que quer fazer sucesso com seu violão, a trama vai se desenrolar.

 

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O quadrinho, lançado no selo Gold Edition da editora Mythos, é dividido em dois capítulos, contando primeiramente a história de Jack Doyle, o boxeador que está no fim de carreira, mas que volta para a cidade de Nova York por causa de uma proposta de trabalho que pode render muito dinheiro. São muitos os elementos que nos são apresentados no primeiro momento, como a iminência daquele mundo que está prestes a ruir e mudar, afinal, com o fim da proibição da venda de álcool, os grandes clubes de diversão, onde se podia aproveitar o blues e o jazz, a venda da bebida e os gangsteres, teriam que se adaptar a uma realidade onde a grande fonte de receita daquela sociedade corrupta acabaria ou se transformaria.

É dessa forma que esse quadrinho francês da editora Dargaud retrata a história de Jack Doyle, cuidando para que os personagens envolvidos estejam a ponto de mudar sua vida com o fim da lei. Interessante notar que a escolha da cidade de Nova York, em vez de Chicago, cidade onde o crime prosperou mais, contando com a figura do maior gangster americano, Al Capone, é acertada para que os Autores não se apegue tanto às figuras históricas, como o próprio Capone, para contar sua trama, podendo criar seus próprios personagens.

O leitor pode achar que umas passagens na história de Doyle estão muito jogadas na narrativa, como quando o boxeador se encontra com um músico às lágrimas e se martirizando, mas tudo faz parte da construção dessa história em duas partes. Os mesmos personagens e alguns acontecimentos irão se encontrar na trama, mostrando que nada está ali jogado à toa. O gangster, a repórter, os músicos, o bandido que almeja subir mais com o fim da Lei Seca, todos eles transitarão nessa história que se passa no mesmo lugar e ao mesmo tempo, só que através de dois pontos de vista.

 

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Mas se o período histórico é importante, a trama de Blue Note também cuida de desenvolver bem seus personagens. Mesmo partindo de um ponto onde todo personagem é um clichê da época (o boxeador em fim de linha, a repórter intrépida que tem um relacionamento perigoso, o gangster, o músico recém chegado na cidade grande), o roteiro da dupla Mariolle e Bourgoin vai desenvolvendo camadas para os personagens, como a afeição que Jack sente por seu técnico, o sentimento que nutre pela repórter, e a incapacidade do músico R.J. em criar músicas suas, já que só se mostra exímio ao replicar músicas já conhecidas.

E por falar de música, não se pode deixar de falar do Jazz e do Blues presentes na trama, já que essas músicas, também, tiveram grande importância na época. Cabe esclarecer que o significado de Blue Note remete além do significado da cor azul (Blue), que retrata a tristeza e está presente nas canções do Blues (estilo musical). Blue Note geralmente é traduzido para o português como “nota fora“, devido ao fato dessa nota não pertencer à escala natural, tendo suas raízes na música afro-americana na época da escravidão, que acabou sendo muito utilizada dentro do blues, recebendo por isso o nome “escala blues”. Mais informações, aqui.

A grande sacada da obra é retratar esse sentimento do Blues não em letras musicais, como tantas obras. No quadrinho, o Blue Note, aquele que está além da escala normal, pode ser tanto Jack quanto R.J., tendo na figura desse segundo a representação perfeita, já que os desenhos de Mikaël Bourgouin, e sua colorização, mostram que, quando R.J. toca, a cor azul (Blue) se expande do seu violão, transformando o tom pastel empregado em toda a obra para retratar esse período que foi posterior à Grande Depressão americana (1929), onde a pobreza e o desemprego estavam presentes na vida do americano comum.

 

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Ou seja, o trabalho de arte e colorização desse volume luxuoso lançado pela Mythos está belíssimo, e a publicação pelo selo Gold Edition, que é publicado em um formato maior e com preço mais elevado, foi acertada, já que reuniu os dois volumes europeus de Blue Note e publica a bela arte do quadrinho em formato gigante, sendo um verdadeiro deleite aos leitores.

Porém, nem tudo são elogios para à Mythos. Mantendo uma tradição que está em seus outros títulos do selo Gold Edition, como Réquiem, por exemplo, a edição não conta com uma biografia dos autores, o que poderia acrescentar mais para esse belo quadrinho.

 

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Contando com um bom roteiro, que é hábil ao retratar o período histórico enquanto desenvolve seus personagens para além da figura clichê inicial, e uma arte excepcional, que faz um belo uso de cores e cenas fieis àquela época, Blue Note – Os últimos dias da Lei Seca é daqueles quadrinhos com começo, meio e fim para o leitor apreciar uma boa e cativante trama em um bonito álbum de luxo, mesmo que não conte com a bibliografia dos autores.

 

 

Ficha Técnica:

  • Capa dura, com 148 páginas.
  • Editora Mythos.
  • Lançamento: agosto de 2018
  • Preço de capa: R$ 89,90.
  • Tamanho: 31,2 x 23,4 x 2 cm
  • 9/10
    Roteiro - 9/10
  • 10/10
    Desenhos - 10/10
  • 9/10
    Narrativa - 9/10
  • 9/10
    Edição Nacional - 9/10
9.3/10

Summary

Com o fim da Lei Seca, toda uma era de boxe, jazz e gangsteres também está prestes a mudar.
O local: Nova Iorque. A data: 1933. A era da Lei Seca está chegando ao fim e, com ela, toda uma estrutura montada por gangsteres, clubes de música, subornos e venda ilegal de álcool também está prestes a mudar. Neste cenário marcante da história americana, vemos dois protagonistas terem seus destinos entrelaçados pela mudança dos tempos. Jack Doyle, um irlandês turrão, é convencido a voltar aos ringues depois de cinco anos afastado, e o jovem guitarrista R.J. encanta com sua habilidade Vincenzo, o dono de um clube famoso na cidade e também um perigoso mafioso. Ambos acabam se metendo em negócios escusos gerados pelo mal que habita a cidade grande, tendo seus destinos entrelaçados mesmo sem saber. Com um roteiro carregado com a atmosfera da época por Mathieu Mariolle e uma arte sinestésica de Mikaël Bourgouin, Blue Note mistura jazz, boxe e noir para nenhum fã de Intocáveis e Boardwalk Empire botarem defeito!

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