S√°bado, 11 De Agosto De 2018

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Resenha | Di√°rio da Queda, de Michel Laub

Certos livros n√£o s√£o presas f√°ceis para o leitor; o desafiam a enredar-se na espiral de suas tramas carregadas de sentido. √Č o caso deste brilhante trabalho de Michel Laub, escritor nascido em Porto Alegre e radicado em S√£o Paulo. Di√°rio da Queda (Companhia das Letras, 151 p√°ginas, pre√ßo sugerido R$ 42,90) me impressionou muito: longo mon√≥logo de um narrador an√īnimo que se prop√Ķe a passar sua vida a limpo, tendo como ponto de inflex√£o pessoal um acidente ocorrido aos 13 anos na festa de anivers√°rio de um amigo e que o marcaria profundamente, influenciando suas escolhas a partir de ent√£o, enquanto paralelamente discorre sobre a trajet√≥ria de seu av√ī, um judeu sobrevivente de Auschwitz que veio para o Brasil ap√≥s a 2¬ļ Guerra Mundial recome√ßar a vida.

Diário da Queda foi lançado originalmente em 2011.

As implica√ß√Ķes dessa experi√™ncia traum√°tica reverberaram na hist√≥ria familiar por gera√ß√Ķes, como se pode imaginar, e o confronto do narrador com essa ‚Äúheran√ßa‚ÄĚ impulsiona o relato √† medida que conhece a fundo detalhes que lhe foram sonegados em sua inf√Ęncia e como se relaciona com ela ao longo da vida frente aos seus pr√≥prios fantasmas.

A hist√≥ria vai se revelando por camadas, tr√™s gera√ß√Ķes de judeus se intercalando em suas venturas pela capital ga√ļcha e al√©m, cada um lidando √† sua maneira com os eventos do passado de maneira silenciosa, o peso da consci√™ncia dando a t√īnica num texto que engana o leitor em suas certezas da trama a cada p√°gina virada. A pr√≥pria queda destacada no t√≠tulo, e que se refere ao evento da juventude do narrador, se mostra enganosa em sua import√Ęncia, sendo mais uma alavanca que move o sublinhado nas rela√ß√Ķes dele com seu pai e de seu pai com a mem√≥ria de seu av√ī. O di√°rio de uma realidade inventada se alterna com notas e as lembran√ßas e percep√ß√Ķes do narrador, que procura ordenar seu racioc√≠nio tendo em vista algo que s√≥ se revela no √ļltimo par√°grafo. Partimos de um impacto na abertura sobre a barb√°ries dos campos nazistas de concentra√ß√£o para o toque mais comovente da vida ao fim.

Você precisa ler para saber, pensei, quando me dispus a comentar o livro para uma amiga. Lógico, poderia fazer um breve resumo da história e dizer do que ela trata, em linhas gerais; mas sempre que eu buscava elaborar melhor o que dizia, sentia que algo me escapava.

O escritor e jornalista Michel Laub.

Na tentativa de definir e prender com palavras o senso que o livro me despertou, procurei outras resenhas a respeito dele. Falam de estrutura narrativa, da voca√ß√£o hist√≥rica que o permeia sintetizada nas refer√™ncias reiteradas ao cl√°ssico de Primo Levi √Č Isto Um Homem?; citam filosofia ao fundo e abordam a pr√≥pria tem√°tica judaica com uma lucidez invej√°vel. √Č quando compreendo que meu embara√ßo √© insuper√°vel: a sensa√ß√£o desperta pelo romance n√£o cabe em l√≠ngua alguma, pois deriva justamente dos sil√™ncios que permeiam as rela√ß√Ķes tra√ßadas.

Sim, o juda√≠smo, Auschwitz, experi√™ncias traumatizantes e mem√≥ria e o peso das escolhas s√£o temas essenciais no texto de Laub. Mas ao fim e ao cabo, s√£o as composi√ß√Ķes humanas que o fundamenta, justifica e expande. Os personagens com suas hist√≥rias, suas falhas e propostas; o ser humano retratado nos di√°logos dispersos, nas oportunidades perdidas; nos desejos mal resolvidos e, acima de tudo, nas solu√ß√Ķes desesperadas que movem cada um sem que os demais ao redor percebam, numa esp√©cie de jogo deliberado em que cada culpa tem sua raiz e os espa√ßos se tornam sufocantes para que permane√ßam juntas. Quebras que teimam em manter continuidades.

√Č uma obra de impacto, que acompanha o leitor por dias quase inconscientemente, intimando sua humanidade a se manifestar frente as viol√™ncias di√°rias que testemunhamos sem rea√ß√£o.

As mem√≥rias do meu av√ī podem ser resumidas na frase como o mundo deveria ser, e daria at√© para dizer que as do meu pai s√£o algo do tipo como as coisas foram de fato, e se ambos partem do mesmo tema, a inviabilidade da experi√™ncia humana em todos os tempos e lugares, (…) √© imposs√≠vel falar sobre os dois sem ter de tamb√©m firmar uma posi√ß√£o a respeito, o fato √© que desde o in√≠cio escrevo este texto como justificativa para essa posi√ß√£o (p. 146)

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