S√°bado, 11 De Agosto De 2018

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Resenha | Elizabeth Costello, de J. M. Coetzee

Conheci a obra de Coetzee por acaso. Certa vez no supermercado avistei um t√≠tulo seu, Juventude, por 10 reais e decidi me arriscar. J√° ouvira seu nome e sabia de seu Nobel de Literatura. S√≥ depois descobriria que o volume na verdade integrava uma esp√©cie de trilogia em que o autor abordava diversos per√≠odos de sua vida (os outros volumes s√£o Inf√Ęncia e Ver√£o), em que de maneira econ√īmica relata lembran√ßas que se sucedem, numa narrativa sem grandes arroubos em que o reconhecimento indiferente ou frio dos eventos me remeteu √† perplexidade que o Estrangeiro de Camus instiga.

Esse primeiro contato com o autor e seu estilo me levaram a procurar os demais livros de cunho autobiogr√°fico j√° citados antes de me aventurar pela sua obra em fic√ß√£o propriamente. O primeiro que li, √Ä Espera dos B√°rbaros, √© um conto aterrorizante de cunho pol√≠tico constru√≠do num cen√°rio da alegoria de todos os limites do indiv√≠duo. Outro que encarei tem como t√≠tulo Foe, no qual o autor recria a hist√≥ria de Robinson Cruso√© por meio de uma mulher que supostamente teria dividido com ele seu tempo na ilha e procura registrar sua experi√™ncia procurando o autor do livro ‚Äúreal‚ÄĚ, Daniel Foe, num jogo de espelhos que recorre √† metalinguagem de maneira sensacional.

J. M. Coetzee, escritor nascido na √Āfrica do Sul e que atualmente mora na Austr√°lia. Ganhou o pr√™mio Nobel de Literatura em 2003.

Após estas e outras leituras, parti para Elizabeth Costello (Companhia das Letras, 256 páginas, preço sugerido de R$ 49,90), o livro que apresentarei agora. De antemão, registro que não o considero a melhor porta de entrada ideal para a obra do autor. Costello, personagem que costuma ser apontada como alter-ego do autor e portadora de muitos posicionamentos seus já havia aparecido no livro A Vida dos Animais. E aqui retorna, na primeira obra publicada por Coetzee após ter ganho o Nobel, num livro que se estrutura como uma sucessão de palestras proferidas pela personagem em diversos contextos e momentos de sua vida. A apresentação, defesa ou discussão das ideias é o ponto central aqui; os elementos pessoais que integram o fundo de cena correm ao largo, sendo explorados em maior ou menor intensidade de acordo com o capítulo.

E falo em ‚Äúpalestras‚ÄĚ mais para me apropriar do subt√≠tulo dado √† edi√ß√£o brasileira pois algumas vezes n√£o se trata da apresenta√ß√£o de uma, exatamente. O estilo narrativo n√£o √© uniforme e muda ao longo do livro, que chegou a ter trechos publicados previamente. O que se depreende de Elizabeth Costello, uma escritora australiana que chega aos sessenta anos consagrada, com alguns cl√°ssicos reconhecidos em sua obra (notadamente A Casa da rua Eccles) e s√©rios problemas mal resolvidos com seus filhos, √© a figura de uma mulher aguerrida, que defende seus princ√≠pios de maneira irredut√≠vel e carrega no√ß√Ķes muito s√≥lidas sobre o papel da mulher do mundo e o fazer liter√°rio.

Acreditamos que houve um tempo em que pod√≠amos dizer quem √©ramos. Agora, somos apenas atores recitando nossos pap√©is. O fundo caiu. Poder√≠amos considerar tr√°gico esse evento, n√£o fosse pelo fato de ser dif√≠cil respeitar um fundo que cai, seja ele qual for – isso agora nos parece uma ilus√£o, uma dessas ilus√Ķes sustentadas apenas pelo olhar concentrado de todos da sala. Removam seu olhar apenas um instante, e o espelho cai ao ch√£o e se parte. (p. 27)

Apesar de não se abordar diretamente, percebemos a passagem do tempo à medida que a leitura avança, cada capítulo ambientado num lugar diferente e discorrendo sobre um tópico: seja uma reflexão sobre a natureza do realismo; ou o sentido da literatura para a cultura africana; a condição dos animais perante à Humanidade; ou uma análise sobre o Mal que o homem é capaz ao longo de sua História. Seja como discurso após a entrega de um prêmio, ou numa conversa com sua irmã sobre religião, Elizabeth se coloca como mecanismo de provocação, alimentando debates em busca de respostas que muitas vezes não aparecem, cabendo ao leitor sua própria ponderação sobre os assuntos abordados com base no raciocínio que a personagem desenvolve.

Afora a conclus√£o algo confusa frente ao desenvolvimento anterior do texto, √© um livro que merece aten√ß√£o, mas somente quando o leitor j√° est√° familiarizado com o estilo de Coetzee, um autor que foge do convencional e procura sempre inquietar o leitor da melhor maneira ‚Äď o levando a intuir o n√£o-escrito em seus trabalhos.

 

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