Terça, 10 De Julho De 2018

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Resenha | O Som e a F√ļria (William Faulkner)

Escrito pelo Médico Psiquiatra Jackson Rocha
Considerado um cl√°ssico da literatura norte-americana, sempre presente nas listas dos melhores romances j√° escritos, ‚ÄúO Som e a F√ļria‚ÄĚ (The Sound and the Fury, 1929) persiste como uma das obras mais influentes da literatura moderna. Seu autor, William Faulkner (ganhador do pr√™mio Nobel de Literatura em 1949), havia sido rejeitado por diversas editoras e, em um per√≠odo de isolamento, concebeu a sua obra definitiva.
Trata-se de um romance complexo, de dif√≠cil leitura, principalmente para algu√©m sem muita experi√™ncia liter√°ria. Utilizando-se da t√©cnica do fluxo de consci√™ncia, o autor nos apresenta a decad√™ncia da fam√≠lia Compson, atrav√©s de uma narrativa repleta de saltos temporais, cronologia n√£o linear, neologismos. O grande objetivo de Faulkner √© nos colocar na mente de cada um dos narradores, num intrincado conjunto de pensamentos, sentimentos e sensa√ß√Ķes.
Cabe aqui uma breve pausa para descrever a t√©cnica do fluxo de consci√™ncia. Nela, procura-se transcrever o complexo processo de pensamento de um personagem, com o racioc√≠nio l√≥gico entremeado com impress√Ķes pessoais moment√Ęneas e exibindo os processos de associa√ß√£o de ideias. A caracter√≠stica n√£o-linear deste processo leva frequentemente a rupturas na sintaxe e na pontua√ß√£o.¬† Diversos autores, al√©m de William Faulkner, utilizaram-se da t√©cnica em sua obra, sendo o exemplo mais famoso James Joyce em¬†Ulysses.
‚ÄúO Som e a F√ļria‚ÄĚ divide-se em quatro partes: as tr√™s primeiras s√£o narradas em primeira pessoa, sob a perspectiva de personagens diferentes e a √ļltima parte em terceira pessoa, por meio de um narrador observador. Todas as partes est√£o interligadas, embora isso n√£o seja muito f√°cil de ser percebido por um leitor inexperiente j√° que, por conta da t√©cnica narrativa utilizada, muitas vezes parecendo desconexa. Entretanto, a cada novo elemento que √© acrescentado √† hist√≥ria, vai sendo formado o sentido da trama, como se fossem pe√ßas de um quebra-cabe√ßa que o leitor deve ‚Äúmontar‚ÄĚ ao longo da leitura. A personagem Caddie surge aqui como um ponto central na trama, como se fosse a pe√ßa central do quebra-cabe√ßa.
A primeira parte, que se passa em 7 de abril de 1928, nos traz os eventos vividos por Maury/Benjy, portador de um transtorno mental (alguns elementos da narrativa d√£o a entender como sendo autismo). Com a narrativa ca√≥tica, carente de linearidade, Faulkner tenta emular os processos mentais de um doente mental grave (lembre-se que esse √© um dos objetivos do autor ao utilizar a t√©cnica do fluxo do pensamento). Aqui, o foco narrativo s√£o as sensa√ß√Ķes do personagem, que n√£o desenvolver uma linguagem al√©m da rudimentar. Em muitos momentos, a leitura pode tornar-se frustrante, pela dificuldade de compreender o que est√° sendo exposto. Definitivamente, √© parte mais complicada do romance.
Na segunda parte, somos apresentados a Quentin, o filho mais inteligente da fam√≠lia, aluno de Harvard. Os eventos se passam em 2 de junho de 1910. √Č uma das personagens mais interessantes e bem constru√≠das da obra. Aqui, predomina um tom melanc√≥lico, j√° que Quentin √© claramente depressivo, carregando consigo sentimentos complexos de culpa, seja pela necessidade das vendas das terras fam√≠lia para custear seus estudos, seja pelo amor praticamente incestuoso que nutre pela irm√£ Caddie. O trecho em que √© apresentada uma briga do personagem √© o que considero mais marcante da obra.
A terceira parte, que se passa em 6 de abril de 1928, √© uma das mais importante para entender o sentido da obra. Seu narrador, Jason Compson, √© um personagem extremamente rancoroso e cruel. Nutre um √≥dio imenso por todos, por√©m principalmente pela irm√£, a qual j√° era deserdada da fam√≠lia. Ele tamb√©m √© cuidador da m√£e, j√° idosa, do irm√£o ‚Äúidiota‚ÄĚ e da sobrinha Quentin (filha de Caddie, que recebeu esse nome em homenagem ao tio, que na √©poca j√° havia cometido suic√≠dio). A rela√ß√£o com a sobrinha √© particularmente tensa. Atrav√©s do seu √≥dio e dos seus sentimentos vitimistas (o personagem sente-se um injusti√ßado perante os outros, nunca tendo seus m√©ritos reconhecidos, pois, enquanto permaneceu em casa, os outros abandonaram a fam√≠lia, o irm√£o em Harvard e a irm√£ devido a um relacionamento indesejado), ele nos deixa escapar diversas pe√ßas para compor o sentido das partes anteriores, como a castra√ß√£o de Benjamim.
Por fim, a quarta parte, referente ao dia 8 de abril de 1928, possui um narrador em terceira pessoa e foca, principalmente, na personagem Dilsey, a criada da família. A narração aqui flui de uma forma mais leve, mais compreensível, e as peças finais do quebra-cabeça que é a obra vão se encaixando.
√Č tarefa dif√≠cil descrever a leitura ‚ÄúO Som e a F√ļria‚ÄĚ. Tal qual o livro, o leitor tamb√©m √© tomado por um ‚Äúturbilh√£o‚ÄĚ de sensa√ß√Ķes, desde des√Ęnimo por n√£o conseguir acompanhar certos pontos da narrativa, como de deslumbre com a t√©cnica apurada do autor em certos momentos. Novamente, n√£o √© uma obra para um leitor inexperiente, entretanto, quem se propor a enfrentar o desafio da sua leitura, provavelmente ter√° uma experi√™ncia enriquecedora.
Título original: THE SOUND AND THE FURY
Tradução: Paulo Henriques Britto
Capa: Alceu Chiesorin Nunes
Páginas: 376
Formato: 14.00 X 21.00 cm
Peso: 0.473 kg
Acabamento: Brochura
Lançamento: 15/09/2017
ISBN: 9788535929423
Selo: Companhia das Letras

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