Segunda, 01 De Outubro De 2018

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Resenha | Uma Mulher Transparente, De Edgard Telles Ribeiro

Edgard Telles Ribeiro, um dos escritores favoritos dessa coluna (j√° falamos dele aqui) p√īs na pra√ßa h√° pouco tempo seu mais novo romance. Uma Mulher Transparente (128 p√°ginas, pre√ßo sugerido R$ 44,90) √© o primeiro que publica pela editora Todavia, ap√≥s passagem pela Companhia das Letras, Record e ed. 34, e condensa numa prosa atraente e precisa todos os predicados que o colocam entre os maiores autores da cena liter√°ria contempor√Ęnea.

Narrado por um protagonista sem nome, o enredo se passa em tr√™s tempos, com saltos pontuais na hist√≥ria, quase lit√ļrgicos, levando em conta o sentido que parecem carregar. Tudo come√ßa em 1962, dois anos antes do golpe militar, quando da reda√ß√£o de uma enciclop√©dia se ouve disparos na rua. O narrador desce para averiguar, acompanhado por Guilherme e Herculano, colegas de trabalho que avistam ca√≠da na rua uma mulher de vestido vermelho. As primeiras pessoas acodem e n√£o h√° pistas do autor do crime. De volta ao trabalho, Herculano, apresentado como um intelectual de envergadura, embora discreto, entrega-se √† recorda√ß√£o da falecida esposa, Maria do Ros√°rio, uma pessoa evocada pelas inconveni√™ncias que irritavam o marido.

Passadas duas décadas, Guilherme e o protagonista encontram-se no velório de Herculano, e decidem sair para um almoço. Entre as reminiscências do morto e comentários sobre os anos de chumbo que pareciam chegar ao fim, ressurge a lembrança da mulher assassinada no passado, e novos detalhes vêm à tona. O narrador revela ao amigo que avistara no fatídico dia um revólver na cintura de Herculano, fato ao qual o outro se mostrou cético. Ademais, a memória de seu estranho discurso sobre Maria do Rosário após avistarem a cena do crime fez dele alguém de certa forma obsessivo por todos os detalhes que envolviam sua morte.

Ao ouvir a teoria de que Herculano seria o respons√°vel pela morte da esposa, Guilherme mant√©m a posi√ß√£o d√ļbia de negar a vers√£o ao mesmo tempo que estimulava o narrador a cont√°-la. E ele decide faz√™-lo, sob a forma de um romance. √Č nesse ponto que entra em cena Gilda: casada com Guilherme, descobre a exist√™ncia do manuscrito e, ao saber-se retratada de certa forma na trama, tendo sido uma das pessoas pr√≥ximas √† Maria do Ros√°rio, decide se expor e contar o seu lado da hist√≥ria para o protagonista, trazendo √† margem um peda√ßo oculto do passado que, ao cabo, dizia muito sobre o que vinha acontecendo no pa√≠s.

Contar mais seria estragar a experi√™ncia acachapante de leitura que o livro proporciona. Um soco no est√īmago, sem aviso pr√©vio, que agrega de forma cont√≠nua o trabalho pertinente que Telles Ribeiro vem desenvolvendo em seus √ļltimos romances (O Punho E A Renda e Damas Da Noite) de revisitar a ditadura militar atrav√©s de seus personagens. Ou melhor diria, dos traumas que eles carregam.

Um romance com tons minimalistas, que se estrutura em episódios encadeados pela morte, real ou simbólica, nos quais as figuras masculinas são menores diante das mulheres que despontam na trama. Uma delas, sem nome ou falas, desenterra frases entrecortadas que levam o protagonista a adivinhar o destino de outra, ausente desde o princípio, mas evocada como um fantasma a exigir retratação, provocando por sua vez uma terceira a falar, contando por fim muito mais do que poderíamos imaginar.

Uma Mulher Transparente se revela como um jogo de bonecas russas, em que cada uma se esconde dentro da outra (ou melhor diria, se encaixa?), destacando mais uma vez a maestria de Edgard em elaborar enredos que fogem de qualquer previsibilidade. Que alcance o sucesso merecido com essa empreitada e seja bem-sucedido em sua nova casa editorial.

Deixo por fim um pequeno vídeo em que o autor em pessoa apresenta seu livro:

 

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