Terça, 10 De Julho De 2018

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Universo compartilhado: Erros e Acertos — Parte I

 

Todo fã de quadrinhos, filmes e séries sempre ansiou por ver seus personagens favoritos na telona ou na telinha. Sempre foi difícil e complicado ver um, imagine um grupo. Antes era mais difícil e mesmo hoje em dia tem suas complicações. Direitos autorais são uma coisa complicada; e mesmo os direitos concentrados em um só estúdio, ainda há o problema de garantir se haverá retorno. X-Men não foi difícil, pois o grupo todo representa a franquia; Vingadores e Liga da Justiça já é mais complicado, pois quase todos os membros de ambos os grupos tem seus títulos e são uma franquia em separado. O dilema jurídico é grande, principalmente quando os grandes estúdios terceirizam a produção e criação para outros estúdios.

 Achou que fazer filme de quadrinho fosse fácil? Achou errado, caro leitor!

No mais, o sucesso em se criar um universo compartilhado dependeu mais da visão e do uso inteligente do que se tem em mãos. A seguir, vamos analisar alguns casos de sucesso e fracasso na tentativa de construir esta nova tendência.

O caso Marvel

O universo cinematográfico da Marvel andou a passos lentos, mas sempre de forma constante e bem pensada. Inicialmente, as franquias eram transferidas para outros estúdios: Universal, Sony, Fox, New Line Cinema, etc. X-Men(Fox), Homem-Aranha(Sony) e Blade(New Line) foram grandes sucessos. Porém, a satisfação maior foi com Homem-Aranha; Avi Arad ficou satisfeito com os resultados desta franquia, mas como as outras não deram o retorno desejado, foi decidida a criação da Marvel Studios, o primeiro grande estúdio independente desde a Dreamworks.

A reviravolta aconteceu quando o segundo em comando de Arad, Kevin Feige, percebeu que muitos direitos não tinham sido cedidos, coincidentemente os dos membros dos Vingadores. Após ter sido dado o comando da divisão a ele, iniciou-se um plano para lançar filmes de vários membros individuais que culminassem em um grande filme que os reunisse: Os Vingadores. Do mesmo modo que acontece nos quadrinhos, a tática funcionou brilhantemente. O sucesso de Homem de Ferro e das cenas pós-créditos neste e nos filmes subsequentes, culminou no grande sucesso de 2012.

Propriedade da Marvel Films. Retirado do wikipedia.

A iniciativa rendeu grande sucesso de público e crítica, além de confiança para adaptar franquias menos conhecidas pelo público mainstream, como Guardiões da Galáxia, Homem-Formiga e Doutor Estranho. Tudo isso resultou em Capitão América — Guerra Civil e na inusitada aparição do Homem-Aranha(que ainda pertence à Sony, mas foi trazido de volta em um acordo). E Vingadores — Guerra Infinita vem aí, prometendo algo infinitamente maior.

Poster de Guerra Infinita. Propriedade da Marvel Films. Retirado do site Screengeek.

A estratégia não parou por aí: foi criada a Marvel Television, comandada pelo escritor Jeph Loeb, e foi responsável por criar séries ambietadas no mesmo universo. Assim nasceram Agents of S.H.I.E.L.D. e Agent Carter, em parceria com a ABC. Mas foi com a parceria com a Netflix que a Marvel Television se mostrou bem sucedida: repetiu a estratégia dos filmes e construiu Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro, até culminar em Defensores(com o posterior Justiceiro). Os Fugitivos(Runaways) foi a adição mais recente, desta vez criada para o serviço de streaming Hulu, com uma recepção crítica favorável.

Os Fugitivos(The Runaways). Propriedade da Marvel Comics. Fonte: The Disney Blog

 Todos estas séries e filmes estão inseridos no mesmo universo criativo e vem se mostrando um sucesso de crítica, audiência e bilheteria, com uma média de lucro de 780 milhões de dólares em bilheteria e quatro filmes arrecadando mais de um bilhão em bilheteria. A interação entre o universo cinematográfico e o universo televisivo ainda tem suas falhas, mesmo sendo todos um: personagens dos filmes são referenciados na TV, mas nunca nomeados (“o cara do martelo”). Porém, as referências estão lá. Na primeira temporada de Demolidor eles falam muito sobre a batalha de Nova York e seu impacto. Boa parte das dificuldades se refere mais à logística, pois o ritmo das franquias televisivas é diferente da cinematográfica; eles produzem conteúdo mais rápido que os filmes. Mas há planos de algumas referências ou eventuais crossovers.

O planejamento gerou um universo rico e abrangente, que se estendeu de uma forma que nenhuma franquia havia conseguido antes. A estratégia de construir filmes que culminariam em um grande filme, se repetiu na TV com as séries da Netflix. As séries da ABC se mostraram uma excelente forma de se explorar melhor este novo universo que está se formando, reintroduzindo personagens que não foram tão bem sucedidos no cinema, como o Motoqueiro Fantasma; ou mesmo personagens não tão bem conhecidos, como Deathlok e Mr. Hyde. Uma inovação tão grande que Warner, CW e Universal não iriam querer ficar de fora…

O caso CW

Propriedade da DC Comics e da CW. Fonte: Allocine

Foi dada a largada deste universo com a adaptação do Arqueiro Verde, Arrow. Anteriormente, o personagem havia aparecido na série Smallville, mas não havia interesse em continuar dali e sim criar algo novo. Em 2012, o seriado estrearia. De início muitos fãs estranharam porque, embora fosse todo o background do Arqueiro Verde, o personagem matava e era conhecido apenas como Vigilante. Mas era uma abordagem diferente: pouco a pouco, a medida que as temporadas iam passando, o personagem evoluía e ia adquirindo características que o aproximavam de sua contraparte dos quadrinhos; assumiu o nome Arrow, ganhou uma máscara em seu encontro com um rapaz chamado Barry Allen e, algumas temporadas depois, assumiria oficialmente o nome Green Arrow(Arqueiro Verde, no Brasil). Várias referências e personagens famosos surgiriam: o Conde(Conde Vertigo, dos quadrinhos) Malcolm Merlyn, o Exterminador e o Esquadrão Suicida.

Ainda sem a máscara. Propriedade da CW e DC Comics. Retirado do IGN

Mas não parou por aí: Barry Allen, que havia sido introduzido na segunda temporada de Arrow, sofre um estranho acidente que leva ao piloto de The Flash, no ano seguinte. Com um trajeto semelhante, sua história e visual também são ligeiramente modificados; inicialmente chamado de The Streak(algo como “o tracejado”, devido ao que conseguimos ver quando ele se move), logo após é chamado de Flash e seu uniforme se torna mais fiel aos quadrinhos. Em ambas as série não só há o fanservice, mas também várias referências que fazem deste um só universo. Logo depois, seria iniciado uma tradição de crossovers anuais, com episódios em que ambos os personagens colaborariam, em ambas as séries. O conceito seria expandido na próximas temporadas, com a inclusão da série Legends of Tomorrow, que reúne personagens surgidos em ambas as série com novos em tramas de viagem no tempo.

Da esquerda para a direita: Professor Martin Stein, Canário Branco, Eléktron, Capitão Frio e Onda Térmica. Propriedade da Dc Comics e da CW. Fonte: Sala de Cinema

Em 2014, a série Supergirl seria anunciada. Mas não pela CW: embora produzida por Berlanti, a série seria transmitida pela CBS. Embora a presença do Superman fosse importante para a personagem, ele iria ser tratado inicialmente como se fosse o presidente na série Veep: um personagem importante, existente, mas que não aparece na série para deixar a personagem principal brilhar(o personagem seria introduzido pessoalmente na temporada seguinte). Na segunda temporada de The Flash, foi introduzida a noção das Terras Paralelas e em 2016, aconteceria o primeiro crossover anual de ambos os personagens: o episódio World’s Finest(referência ao quadrinho que juntava Batman e Superman). Tende-se a tentar visualizar uma possibilidade de romance entre dois personagens de sexo oposto juntos, mas diferente de tudo, forma-se uma grande amizade entre os personagens, reforçado com uma grande química entre os atores. Em maio do mesmo ano, a série migraria para a CW, facilitando os próximos crossovers, que incluiriam uma invasão alienígena, um sonho induzido por um vilão manipulador da realidade e uma invasão de uma terra paralela dominada por nazistas.

Poster do evento Crise na Terra-X. Propriedade da DC Comics e da CW. Fonte: Comic Book

O que fascina no universo do canal não são apenas as lições tiradas do que os concorrentes da Marvel estavam fazendo, mas um grande aperfeiçoamento: os crossovers anuais imitam os grandes eventos que vemos sazonalmente nos quadrinhos, mas de forma que não perturbam as tramas individuais de cada série. É um universo coeso onde participações de um personagem de uma série em outra são feitas de forma simples, além de estimular o fã a assistir as outras séries sem desgastá-los.

Nos próximos artigos, serão analisados os problemas e virtudes de outros universos compartilhados que surgiram.

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