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Catarse: tá fácil fazer gibi?

É impressão minha ou tá ficando cada vez mais difícil aprovar projetos de quadrinhos no Catarse?

Resolvi escrever isso após meu irmão me avisar que o projeto Clean Break, do quadrinista Felipe Nunes, neste momento, está com apenas 68% da sua meta de R$15mil e faltam apenas 8 dias. É claro que na última semana o projeto deve dar uma bombada e é bem possível que o autor junte os R$4775 que faltam, mas é de fazer pensar, então fui atrás dos últimos projetos aprovados no Catarse na categoria que mais nos importa.

Dos 8 projetos que estão na reta final, apenas 2 conseguiram passar sua meta: Elo, de Rodrigo Freitas (com 121%, faltando 9 dias) e Carrapato 2, de Tony Brandão (com 113%, faltando 3 dias). Entre os 6 que faltam, estão o Clean Break (já citado aqui), além de O Triunfo de Joana D’Arc (35%, 6 dias) e Horrores Mortais (74%, 1 dia).

Muitos motivos levam alguém a apoiar ou não um projeto. É preciso muito cuidado para se elaborar uma campanha, desde o momento certo para lançá-la, o prazo correto, um preço justo, qualidade gráfica, pontualidade ou rapidez para enviar o produto, transparência para negociar com os apoiadores e, claro, se seu gibi é bom ou não. Tudo isso é envolvido ainda por uma boa apresentação do material: um bom vídeo, uma boa mostra do que será produzido e tudo mais.

Ainda tem um detalhe crucial: quem é o autor do projeto.

Resolvi escrever esse texto porque minha última campanha (Foices e Facões, atingiu R$12.516 ou 113% do que precisava, com 161 apoiadores) foi muito suada e eu tive que contribuir com R$3mil pra fechar a conta. Ou seja, o projeto era meu e do meu irmão, que tem a página Cantinho do Caio, com mais de 55mil curtidas e tivemos apenas 161 apoios (159, se a gente considerar que eu e minha mulher apoiamos e não seria justo incluir nessa conta).

Estou colocando estes números apenas para dizer que alguém como meu irmão, que tem um bom público que o segue diariamente em sua página, não conseguiu converter 0,3% desse público em mercado consumidor. E olha que nós tentamos muita coisa: metas estendidas com impressão de gibi mais popular que o nosso Foices e Facões (uma coletânea das tirinhas dos Cavaleiros do Zodíaco que ele fez), desenhos originais e vários pacotes com outros quadrinhos que já havíamos lançado antes, como brindes.

E, voltando ao Felipe Nunes, que apesar da idade, não é mais nenhum menino! O cara tem trabalhos publicados nacionalmente pela Panini (A Floresta Encantada, Dodô) além de ter ganho HQ Mix por outros títulos, como Klaus. Se não conhecem o rapaz, vejam esse programa do canal Pipoca e Nanquim com uma entrevista com ele. Além de ser muito bom, ter vários trabalhos significativos publicados por grandes editoras, ainda apresentou um projeto bem bacanudo que é esse Clean Break! Não é justo, a essas alturas, seu gibi não ter passado ainda dos 125%, no mínimo.

Se você abrir a aba de projetos finalizados no Catarse (e isso não quer dizer financiados), encontrará 732 projetos. O que arrecadou maior volume de recursos foi Um sábado Qualquer, de Carlos Ruas, com R$284.891 e 569% alcançado na meta. Na verdade, Carlos Ruas é um acontecimento no Catarse, ele tem um projeto recorrente com 201 assinantes que lhe fornece uma renda de R$5.313,00 mensais, então, se tiver fácil para alguém no catarse, é para ele. Para terem uma ideia, o segundo melhor projeto arrecadou R$78.911, um valor R$205.980,00 a menos que o quadrinho do Carlos Ruas.

Infelizmente, o Catarse não oferece uma tabela de projetos apoiados por porcentagem. Seria muito interessante avaliar quais os autores que tiveram seus projetos financiados em torno de 100 e 120% para analisarmos quem são esses nomes que tiveram dificuldade para atingir um valor necessário com certa folga, porque essa diferença é quase sempre necessária para certos imprevistos ou reajustes na gráfica ou correios. Mesmo sem existir essa tabela, consegui pesquisar alguns desses nomes nessa margem :entre 100 e 120% .

São eles: Cadu Simões, Lady Comics, Gabriel Jardim (matrioska), Marcio Gotland (Greg O Contador de Histórias), Luciano Salles, Paulo Ramos, Caio Oliveira (meu irmão), Rafael Coutinho, Lila Cruz, Thiago Dornelas, José Aguiar, Gidalti Oliveira Moura Jr (Castanha do pará), Gus Morais, Felipe Folgosi, Bernardo Aurélio (eu), Milena Azevedo, Toppi (Sharaz-De), Gabriel Arrais (NecroMorfus) e João Azeitona.

Esses são alguns que eu reconheci, mas há vários outros. Nesta lista existe artista internacional, ganhador de prêmio Jabuti e autores de grandes experiência e várias participações em festivais, mesmo assim eles realizaram seus projetos com a cordinha bem próximo ao pescoço.

Encontrei apenas 2 projetos na casa dos 90% financiados na forma Flex, onde o autor se compromete a realizar o projeto mesmo não atingindo os 100%. Um do Ricardo Kuica (Nada Complicado, com 91%) e outro de Jayson Santos (Makai Mail, com 95%). Entre os quase 700 projetos onde procurei, nenhum na categoria “Ou tudo ou nada” (onde ou o autor consegue os 100% ou devolve toda a grana) foi abandonado na casa dos 80% e 90%. Isso quer dizer que: 1) ou seus projetos ficaram abaixo de 79% e não acharam que valesse à pena completar o recurso para garantir o valor já arrecadado ou 2) o autor do projeto ficou beirando os 100% e completou o recurso (que foi meu caso em Foices e Facões).

 

Costumo sempre olhar as coisas com otimismo e tenho medo de tomar meus casos como regra, mas também gosto muito de fazer essas comparações. O que você acha? O catarse ainda é um caminho válido ou é apenas uma impressão errada a minha de que as coisas parecem mais difíceis?

Bernardo Aurélio
Sou desenhista, criador do Máscara de Ferro e autor do quadrinhos Foices & Facões. Sou formado em história e gerente da livraria Quinta Capa Quadrinhos