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Dica de Leitura | Black Panther by Christopher Priest.

Com o aniversário de 20 anos do selo Marvel Knights e o grande sucesso do filme Pantera Negra, sempre bate aquela curiosidade de conhecer melhor o personagem. Já publicamos aqui neste humilde site uma lista de curiosidades sobre o herói, e duas boas dicas de leitura: “Uma Nação Sob Nossos Pés” e “Quem é o Pantera Negra?”. E com a celebração destes vinte anos, é justo falar de uma fase que não foi tão celebrada ou lembrada quanto deveria. Eis que analisamos aqui Black Panther by Christopher Priest – The Complete Collection Volume 1.

Uma Época Díficil Para A Marvel

A década de 90 foi cruel para os quadrinhos, tanto em matéria de qualidade quanto de vendas. Era uma época de Dentes Rangentes, onde muitos personagens acabaram se tornando mais sombrios ou substituídos por versões mais extremas de si. E o fundo do poço foi algo que ninguém poderia imaginar: a declaração de falência da Casa das Ideias.  Realmente eram tempos sombrios, tanto dentro quanto fora das páginas.
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Basicamente, tudo da década de 1990 resumido em uma imagem.

Precisando se reinventar, a Marvel Comics se aproximou de Joe Quesada, que na época tinha a Event Comics(uma editora independente). A ideia era produzir uma linha de revistas à parte da cronologia, com personagens de baixo escalão, com foco na criatividade e experimentação. Daí surgiu o selo Marvel Knights.

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Fugindo de longos arcos presos à cronologia, o selo se concentrava nas histórias livres dessas amarras. Quesada chamou muito de seus parceiros da Event e até mesmo pessoas estranhas ao meio, como Kevin Smith(que até então era cineasta). O foco inicial era em novos títulos para o Justiceiro, Inumanos, Demolidor e o Pantera Negra.
E assim, iniciava-se uma revolução que daria à Joe Quesada a posição de editor-chefe da Marvel por muitos anos.

Pantera Negra e Christopher Priest

O personagem há tempos não sustentava uma publicação. Seu último título havia sido uma minissérie que se encerrou em 1991 e após isso, ele praticamente apenas era coadjuvante em outros títulos. E, dada a história e conceito do personagem, ninguém era mais indicado para trabalhar com ele do que Christopher Priest(nascido James Christopher Owsley); afinal de contas, quem melhor para trabalhar com o primeiro herói negro do que o primeiro autor afro-americano a trabalhar com exclusividade para a Marvel e a DC?
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Christopher Priest

Veterano dos quadrinhos, escreve desde 1983 e já trabalhou com vários personagens da Marvel e da DC, como Power Man and Iron Fist, o Falcão, Ray(DC), Lanterna Verde, entre outros; já foi escritor da editora Milestone, que trabalhava apenas com equipes criativas afro-americanas, com personagens afro-americanos; foi co-criador do título Quantum and Woody, hoje publicado pela Valliant; e finalmente retornaria à Marvel para devolver dignidade ao rei de Wakanda.
E ele o fez de três formas:

  • Enfatizando o lado político e monárquico do personagem
  • Definiu o personagem como um “Batman”, sempre um passo adiante de seus inimigos
  • Um co-protagonista branco

Black Panther by Christopher Priest – The Complete Collection vol 1

O run de Priest permaneceu no ostracismo, assim como o autor, durante um bom tempo…até sua republicação em 2015, sendo este o primeiro encadernado. Após a introdução do personagem no universo cinematográfico, era justo dar aos fãs mais dele; e mais justo ainda que seja o run que definiu o personagem para os tempos atuais.

Conheçam Everett Ross, o narrador da série. Propriedade da Marvel Comics. Fonte: Vulture.

Esta primeira página já dá o tom que iremos encontrar no restante deste run. Toda a série é narrada de forma não-linear por Everett Ross, um agente do governo americano(e o mesmo Everett Ross interpretado por Martin Freeman, no universo cinematográfico da Marvel). Determinado a esclarecer o assassinato de uma garotinha que posou com ele para uma foto, o rei de Wakanda acaba por mergulhar em uma conspiração política tão traiçoeira quanto às de Game of Thrones.
Em meio a isso tudo, T’Challa encara vilões clássicos e novos. Até mesmo Mephisto se envolve na história, porém sua influência não arrasta a história para o sobrenatural, servindo meramente de apoio para uma trama mais política do que heroica, Entre os mais conhecidos, além de Mephisto, temos a vinda de Kraven e até mesmo o Homem-Hídrico.

Everett Ross fazendo sala pro Mefisto. Propriedade da Marvel Comics. Fonte: Comicbook

Entre os novos, além de Ross, temos: Hunter, um irmão adotivo  líder dos Hatut Zeraze(Cães de Guerra), grupo banido por T’Challa devido a seus métodos; e o Reverendo Achebe. Este é um caso à parte: antes um rival político com o qual T’Challa mantinha uma relação delicada, o personagem acaba se mostrando um adversário astuto e obcecado, tornando-se uma misto de  Coringa e Ventríloco para o Pantera Negra.

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Achebe. Propriedade da Marvel Comics. Fonte: Marvel.com

 

A História

Priest opta por fazer uma narração quebrada, utilizando Ross como guia. Ela(a história) é ouvida por sua chefe e amante, Nicole Adams(que tem também uma conexão com T’Challa), que fica incrivelmente irritada com a falta de foco narrativo do mesmo. “É como assistir Tempo de Violência(Pulp Fiction) de trás pra frente. Minha cabeça vai explodir.”, reclama com razão. Everett não é um agente frio, calculista e eficiente: é medroso, azarado e desorganizado com os fatos.
Everett representa o homem comum, mais precisamente o fã. De fato, Priest revelou que a inspiração para Ross foi Chandler Bing, da série Friends. Ele se inspirou no episódio “Aquele do Blecaute”, onde Chandler ficou preso num caixa automático com uma supermodelo. “Respeitado e bem sucedido, Bing era o assustado peixe fora d’água”, afirmou Priest ao exemplificar seu ponto. O personagem lembra aquele típico fracassado que Garth Ennis adora usar em suas histórias mas, embora ele seja a válvuka de escape cômica, Priest trata o personagem com um mínimo de dignidade.

Chandler Bing, a inspiração para Everett. Fonte: tumblr.

Embora seja uma narrativa interessante, ela fica cansativa após o desfecho do primeiro arco. Simplesmente soa desnecessário e meio que perde a graça. E um pouco mais de pesquisa sobre a Islândia é necessária, pois em dado momento o autor retrata o país como o pólo norte. Mas nada que realmente manche o trabalho.

Arte

O run começa muito bem com a arte de Mark Teixeira. Veterano do Motoqueiro Fantasma e do Wolverine, aqui ele se encontra bastante inspirado, com uma arte escura e pintada. Joe Jusko assume algumas edições e mantém o alto nível, ilustrando um excelente confronto com Kraven.
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O Bom, O Mau e O Medroso. Propriedade da Marvel Comics. Fonte: Black Panther Discussion and Appreciation

O nível infelizmente vai caindo com a entrada de Mark Bright, colega de Priest dos tempos de Quantum and Woody. Embora ele não seja um mau artista, a qualidade de sua arte não é a usual. Após o primeiro arco, entra Sal Velluto e aqui é o pior que o encadernado tem a oferecer.
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Como mencionado. Propriedade da Marvel Comics. Fonte: Digital Priest

 

Veredito

Embora fique repetitivo e a arte caia de nível no final, Black Panther by Christopher Priest – The Complete Collection Volume 1, vale muito à pena. A obra definiu T’Challa para os tempos atuais, deixando pronto para ser adaptado para o cinema.
Como não há previsão de vermos esse material no Brasil, altamente recomendo a aquisição do encadernado americano. Segue o link para aquisição, tanto em papel quanto pelo kindle.
Black Panther by Christopher Priest – The Complete Collection Volume 1

Erico Campos
Formado em administração e radiologia, professor por vocação e geek de coração!