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Dono da Ugra Press fala a verdade sobre a Amazon

Sabe aquelas verdades que todos sabem mas não querem ou não podem falar?

O mercado editorial de quadrinhos no Brasil hoje vive disso, uma verdade que não é dita, abertamente, pelos grandes editores, mas que muitos youtubers já gritam aos quatro ventos.

Vivemos uma realidade que, de acordo com a lei 12.529/11 deixou de ser criminosa, mas o dumping (ação ou expediente de pôr à venda produtos a um preço inferior ao do mercado, para se desfazer de excedentes ou para derrotar a concorrência) ainda pode ser punido administrativamente, e o governo tem se esforçado para endurecer essas punições.

Mas o que nos chama atenção é a fala de Douglas Utescher sobre essas verdades não ditas. Douglas é criador, sócio e editor da UGRA PRESS, uma editora, loja virtual, produtora e, desde julho de 2015, loja física na Rua Augusta, em São Paulo, onde se encontram grande número de autores de quadrinhos independentes.
Ele foi convidado do HQs & Negócio, do canal Papo Zine, no youtube e falou sobre o assunto:

“A questão dos preços na Amazon gera várias distorções. Consigo entender muito quando vejo os leitores confusos com esses pontos, porque é óbvio. Quando compro uma garrafa de leite, não sei qual que é o cálculo que se faz pra chegar ao valor daquilo. Quando eu só comprava quadrinhos, eu também não tinha uma noção muito clara, de como que isso é “precificado”. Então, se chega alguém vendendo quadrinhos por metade do preço, é natural que as pessoas comecem a achar que é normal, que pode ser vendido pela metade do preço. O que muita gente não sabe é que muitas vezes ele está sendo vendido pela metade do preço, no prejuízo. A Amazon pagou mais por aquele quadrinho do que ela tá vendendo.”
“Quando não é isso, é feito à base de pressionar as editoras, de ficar aliciando, de dizer: olha, faz uma promoção aqui com a gente! De qualquer maneira, o efeito disso é o quê? Cria uma distorção na cabeça das pessoas: “eu que não sou trouxa. Se a Amazon vende a R$20 porque o fulaninho da esquina não pode vender?”

“Em algum momento o consumidor vai começar a pagar esse desconto. E a conta é muito simples. Imagina que você tem uma editora, durante toda sua vida você deu desconto pras distribuidoras e pros lojistas de 40 ou 50%. De repente chega um novo fulano, muito poderoso, você sente que precisa trabalhar com ele, mas pra você trabalhar com ele, vez ou outra ele vai chegar pra você e falar assim: “Olha, eu vou querer 60, vou querer 70% (de desconto)”. Que é que você vai fazer? Se antes ele (uma revista) custava R$100, eu vou colocar o preço de capa dele a R$120, por que daí quando esse novo fulaninho me pedir, eu tenho de onde tirar”.

Quais as consequências que podemos imaginar deste cenário?

  1. Temos um mercado fragilizado por compradores viciados,
  2. Lojistas pequenos pressionados por uma realidade com a qual não podem competir, podendo levá-lo a sair do mercado, o que pode conduzir a uma diminuição de livrarias ou bancas de revistas;
  3. Reforço do papel da Amazon, ou outras lojas virtuais (quais?), como única opção de compra (monopólio)
  4. Submissão das editores às vontades da Amazon, responsável pela grande distribuição de quadrinhos no mercado.

 

O que podemos fazer? A única solução é não comprar revistas caras. Mas as pessoas não resistem a um desconto de 50% em um lançamento bacanudo. Eu, como livreiro, estou dando preferência às edições mensais, de preço baixo e convidando autores independentes a mandarem seu material para nós. Dos títulos que custam mais de R$100, mas que na realidade não deviriam valer R$80, eu peço uma ou duas, apenas pra dizer que tenho na prateleira e que lá ficarão, pois de mim não terão um desconto como o da concorrente

Fica a reflexão e o agradecimento à Douglas Utescher, por falar tão abertamente.

Obs: obrigado pelo thumbnail, Papo Zine.

Bernardo Aurélio
Sou desenhista, criador do Máscara de Ferro e autor do quadrinhos Foices & Facões. Sou formado em história e gerente da livraria Quinta Capa Quadrinhos