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Leituras De Quinta #3

Todas as quintas-feiras, uma seleção de três títulos, entre quadrinhos e livros, com breves resenhas. Nesta terceira coluna: O Seminarista, de Rubem Fonseca; Maxi Tex nº 2, com roteiros de Luigi Mignacco e Nick Raider nº 2, por Ferradino e Trigo.

O Seminarista (editora Nova Fronteira, 184 páginas, preço sugerido R$ 44,90): Para um fã de longa data de Rubem Fonseca, a leitura d’ “O Seminarista” pode deixar um travo amargo na boca. Publicado quando o autor já alcançava seus 84 anos, traz a familiar prosa que mistura erudição e filhadaputice, mas de certo modo revela em seu bojo um autor, para usar as imagens sexuais que lhe são tão caras, com tesão em baixa, sem o pique de outrora.

O romance apresenta o Especialista, ex-seminarista que por razões obscuras se torna matador de aluguel. Narrado em primeira pessoa, inicia com o personagem confabulando sobre alguns de seus serviços e discorrendo sobre seus métodos por tabela: sempre mata seus alvos com um tiro na cabeça, procura saber o menos possível sobre elas e tem como único contato profissional a figura do Despachante.

Após juntar uma bela grana com seu trabalho, o matador, que por sinal se chama José, decide se aposentar e ocupar o tempo com cinema e literatura. Mas eis que ele conhece uma tradutora alemã, Kirsten, e se apaixona profundamente. Quando José pensa que finalmente irá usufruir a vida e o amor, o passado volta na forma de um serviço antigo, que envolve um disco com dados bancários, drogas e traição.

A estrutura de romance policial flui bem, mais por competência do autor do que pela qualidade do enredo, propriamente. José, que sempre ignorou detalhes sobre suas vítimas, precisa chafurdar numa rede de interesses que envolve pessoas muito ricas e poderosas, para salvar sua própria pele e a de quem ama.

Espalhando citações de latim por todas as páginas, fruto da formação erudita que o protagonista teria levado na juventude, Fonseca espelha em seu livro o espírito um pouco cansado, construindo uma narrativa que não suporta muitas perguntas, por incongruência em algumas passagens ou visíveis buracos na história.

No balanço final, “O Seminarista” funciona como entretenimento rápido, um breve reencontro com um autor estimado que segue firme na ativa e, apelando a outra de suas figuras recorrentes, se não pode ser mais comparado a um vinho tinto português encorpado, de estirpe, ainda serve uma taça de qualidades honestas, que acompanha bem o antepasto fruitivo.

Maxi Tex nº 2 (editora Mythos, 292 páginas, preço sugerido R$ 27,90): Tal a edição n° 21 da série “Tex Platinum”, resenhada anteriormente, temos aqui em “Maxi Tex” n° 2 mais um volume que aborda o clássico conflito entre indígenas e homens brancos no Oeste americano.

Entretanto, a abordagem desta vez é um pouco diferente e feita com bastante competência pela dupla Luigi Mignacco, que cuida dos roteiros, e Ugolino Cossu, que assina a arte.

O volume se divide em duas histórias. A primeira, “O cavalo de ferro”, abre com um estúpido ataque de dois brancos a uma família indígena que observava com desprezo um trem, então uma novidade e visto por eles como algo maligno que invadia suas terras.

O único sobrevivente da barbárie cresce movido pelo espírito da vingança e se prepara para um ataque que transformaria aquele símbolo do progresso num verdadeiro veículo da morte sobre trilhos. No entanto, seus planos cruzam com os de Tex e Kit Carson, que perseguem uma quadrilha de assaltantes a banco coincidentemente passageira no trem mortífero. Será o ranger capaz de impedir o pior e ao mesmo tempo deter os patifes a bordo? Cossu mostra aqui raro talento para a composição de cenários e narração gráfica carregada de adrenalina.

Na segunda trama, “A caravana dos cherokees”, a ação de brancos gananciosos gera uma reação virulenta dos índios utes, desesperados após a morte de uma enorme manada de bisontes.

Como forma de garantir mantimentos para o inverno que se aproxima, decidem atacar uma caravana de colonos… Indígenas. Ao contrário das figuras usuais nesses comboios, uma tribo de cherokees se desloca até à Califórnia em busca de uma vida melhor, e acabam alvo da ira sanguinária dos utes.

Cabe a Tex e seus pards defendê-los, de modo a evitar o pior. Ação ligeira e com momentos de tensão, marcada pelo embate de iguais com visões diferentes da vida. Mais uma vez o traço de Cossu se destaca ao retratar as as belas planícies de Utah, trabalhando com empenho um enredo apenas correto de Mignacco.

Título mais recente do ranger pelas pradarias brasileiras, Maxi Tex se apresenta como uma boa opção de leitura a quem deseja conhecer nosso herói e uma oportunidade para acompanhar uma série desde seus primeiros números.

Nick Raider nº 2 (editora Mythos, 100 páginas, preço sugerido R$ 26,90): O segundo volume da série limitada de “Nick Raider” lançada pela Mythos ano passado traz a trama “Golpe de Cena”. Conta com roteiro de Giuseppe Ferradino e arte do argentino Gustavo Trigo.

O enredo é enxuto e direto: o casal Carmady surpreende um assaltante em sua casa e, após luta corporal, o meliante acaba atingindo Roger Carmady, fugindo em seguida. Se a princípio as circunstâncias apontavam para a viúva Cindy como possível autora do disparo fatal, em vista da ausência de provas conclusivas ou testemunhas, uma rápida investigação tocada por Nick Raider afasta a possibilidade, apontando o verdadeiro autor: Luís Carrasco, a identidade do ladrão que furtava selos raros no apartamento do casal.

Começa então uma busca pelo culpado, que rende uma longa cena de perseguição eletrizante, extendendo-se por mais de vinte páginas, num traço fluido que trabalha bem o jogo de luz e sombra da noite. Caso resolvido, certo…? Ou não?

Neste número, o leitor encontra mais uma narrativa perfeita para os fãs do gênero policial, com foco na investigação e apoiando a atuação do personagens em estereótipos e tipos marcados. Não há espaço para dramas interiores; é preciso resolver o crime a qualquer custo. Escapismo da melhor qualidade.

 

Rafael Machado
Parnaibano, leitor inveterado, mad fer it, bonelliano, cinéfilo amador. Contato: rafaelmachado@quintacapa.com.br