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Opinião | “O Senhor dos Anéis” da Amazon não macula a obra-prima de Tolkien

Quando o racismo tenta, mas não consegue destruir o legado de Tolkien e o universo de O Senhor dos Anéis.

Sophia Nomvete (Princesa Anã Disa)e Ismael Cruz Córdova (O Elfo Arondir)
Ismael Cruz Córdova (O Elfo Arondir) e Sophia Nomvete (Princesa Anã Disa) (Amazon Studios)

Quando o racismo tenta, mas não consegue destruir o legado de Tolkien e o universo de O Senhor dos Anéis.

Esse texto é uma resposta ao artigo “O Senhor dos Anéis da Amazon macula a obra-prima de Tolkien” de Douglas Blair  traduzido pelo site Gazeta do Povo. Mesmo que seja um texto de viés político, Douglas Blair deixou claro que é um racista safado.

A adorada fantasia de J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis, é uma obra épica quase sem escalas dentro da história da literatura, ela retrata raças de seres imaginários no cenário medieval da Terra-Média, culminando em uma batalha do bem contra o mal. As adaptações cinematográficas de Peter Jackson no início dos anos 2000 estabeleceram a iconografia e a estética com a qual muitos fãs cresceram e hoje muitos consideram quase sagradas.

Agora, a nova adaptação da Amazon da Terra-Média de Tolkien está chegando às nossas telas em setembro: O Senhor dos Anéis – Os Anéis do Poder. Durante as últimas semanas fomos bombardeados com informações, imagens e o tão esperado trailer revelando mais detalhes sobre as tramas e aumentando a expectativa sobre talvez a série mais esperada de 2022. (Saiba mais).

A nova adaptação da Amazon agora contém um elenco diversificado, que inclui atores negros interpretando um elfo e uma anã o que causou alvoroço em certos grupos fora e dentro do fandom de Tolkien. Alguns argumentam que Tolkien nunca descreveu elfos, anãos ou hobbits como nada além de brancos, e afirmam que o elenco é desrespeitoso com seus livros. O problema é que esse argumento é muito falho e eu tentarei explicar em dois parágrafos.

Primeiro, estas são criaturas imaginárias que nem sempre são claramente descritas nos livros originais – Tolkien estava mais interessado em questões metafísicas do que biológicas. Ainda assim, há alguma evidência de elfos e hobbits de pele escura nos rascunhos de O Silmarillion e no prólogo de O Senhor dos Anéis. 

Segundo, mesmo que Tolkien tivesse especificado que todos os elfos, anãos e hobbits eram brancos, ainda assim não importaria. Adaptações são produtos culturais originais que podem imitar, questionar, reescrever ou interpretar o material original de várias maneiras. Cada adaptação é um novo texto. E cada uma é uma oportunidade de atualizar tropos desatualizados e inaceitáveis e encontrar maneiras de representar e normalizar personagens não brancos.

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Reinventando Tolkien para o século 21

Como a estudiosa da teoria da adaptação Linda Hutcheon mostrou, as adaptações oferecem “o prazer da repetição com variação”. Por exemplo, a série da Netflix Lupin (2021), trouxe o ator negro Omar Sy fazendo o papel de Arsène Lupin, nas outras adaptações contando a história do lendário e gentil ladrão, sempre foram atores brancos.

Os produtores da Amazon quando escolheram atores negros para a série de O Senhor dos Anéis estavam querendo expandir ainda mais o próprio universo de Tolkien.

Um outro tema bastante comentado nas redes sociais sobre atores negros interpretando papéis de personagens brancos, segundo os fãs descontentes, foi já que a Amazon trouxe um elenco diversificado na série, por que não manter atores negros interpretando os personagens de pele escura nos textos de Tolkien? Simples, racistas, isso perpetua e reforça a visão racializada do bem e do mal na Terra-Média. Apesar da mensagem geral de amizade e cooperação entre as raças que Tolkien tanto reforçava em suas cartas, e apesar de sua fúria contra os nazistas, a face do mal na Terra-Média, infelizmente, é invariavelmente não-branca/não-europeia.

O retrato de Tolkien dos Orques e dos homens que se aliam a Sauron usa muitos estereótipos associados ao orientalismo e uma linguagem com alguns elementos até africanos. Esse preconceito linguístico era bastante frequente na literatura da era do imperialismo britânico (Tolkien nasceu e cresceu no final dos períodos vitoriano e eduardiano). Reproduzir essa divisão branco/não-branco ao longo de linhas morais endossaria uma equação muito antiquada e prejudicial de características físicas com escolhas morais.

Mesmo que de alguma forma soubéssemos o que Tolkien pensaria sobre a nova série da Amazon, isso não importaria. O autor vendeu os direitos de O Senhor dos Anéis durante sua vida e renunciou ao seu direito de ter qualquer influência substancial sobre qualquer nova adaptação.

 Alguns acreditam, eu mesmo acreditei, que Tolkien estava escrevendo uma “mitologia para a Inglaterra”, e usou mitos e textos de culturas germânicas que não tinham nada a ver com pessoas negras. No entanto, Tolkien nunca se referiu ao seu próprio trabalho dessa maneira. Esta frase foi introduzida por seu biógrafo, Humphrey Carpenter.

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Em uma carta de 1951 para um editor em potencial, Milton Waldman, Tolkien afirmou que pretendia dedicar seu trabalho à Inglaterra, mas na mesma carta também escreveu que queria deixar espaço para “outras mentes e mãos” contribuírem para sua mitologia.

Mas por que o público hoje em dia pensaria na Inglaterra como branca? O país tornou-se um caldeirão vibrante de etnias. Por que uma adaptação contemporânea não refletiria isso?

De qualquer forma, a ideia de que negros não faziam parte da Grã-Bretanha ou do norte da Europa no passado antigo e medieval é falsa. Há muitas evidências de diversidade na Grã-Bretanha romana, por exemplo. Quanto aos vikings, eles não eram um grupo racial homogêneo ou “puro” (especialmente devido ao comércio e às invasões).

Mais recentemente, filmes como Thor, baseado nos super-heróis da Marvel Comics, mostram figuras da mitologia nórdica interpretadas pelos atores negros Idris Elba e Tessa Thompson. Por que uma adaptação da obra literária de Tolkien não deveria fazer o mesmo?

Qualquer nova adaptação de um mundo de fantasia tão amado como o de Tolkien certamente decepcionará alguns dos fãs mais radicais, mas as adaptações são produtos de seus tempos e uma releitura do material original em que se baseiam.

Assim que for ao ar, a nova série da Amazon será criticada por acadêmicos e fãs por muitas de suas escolhas em relação ao enredo, caracterização e cenário. Mas julgar o elenco com base na cor da pele e reivindicar a Terra-Média como exclusivamente branca não é apenas equivocado, expõe claramente o que a pesquisadora Helen Young chamou de “hábitos de brancura” da fantasia.

Como um elemento popular da cultura do século 21, as questões da fantasia com raça, racismo e privilégio branco são assuntos que o gênero ainda não abordou completamente. A nova série da Amazon é apenas o começo de uma nova era.

Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.