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Crítica | 1917 transforma a guerra mais inútil da história em um conto de heroísmo poderoso e imersivo

Sam Mendes escreveu e dirigiu um filme de guerra sem defeitos e faz 1917 um dos maiores concorrentes ao Oscar 2020.
1917 - Sam Mendes
Reprodução

Sam Mendes ganhou no sábado (25) o prêmio do Sindicato dos Diretores de Hollywood (DGA Awards) por seu trabalho na direção de “1917”. O evento é um dos principais termômetros do Oscar. Ao receber o prêmio, a produtora Pippa Harris disse: “Nestes tempos de divisão e conflito em todo o mundo, eu realmente espero que [1917] seja apenas um lembrete para nunca tomarmos como garantida a paz que todos herdamos”.

Historicamente o filme é fiel aos eventos da Grande Guerra? O filme do diretor e roteirista Sam Mendes se baseia na cultura pop de filmes de guerra que já dura um século e que representou corretamente a Primeira Guerra Mundial como um trabalho duro e sangrento, mas ele depois transforma esse material em um cenário para uma história simples que é realmente sobre um herói relutante que supera uma série de obstáculos para salvar o dia. A fotografia é do lendário diretor de fotografia Roger Deakins e encenado para aparecer como uma tomada quase ininterrupta. O filme é uma maravilha técnica, mas todo o seu estilo está a serviço de tornar emocionante e bonita uma guerra que era uma grande mentira. E Sam Mendes extrai exatamente as lições erradas da Primeira Guerra Mundial, transformando uma farsa que desperdiçou a vida de mais de 20 milhões de homens como pano de fundo para o triunfo de um deles.

Está com dúvidas ainda sobre a Grande Guerra? Leia este artigo bem didático sobre o que aconteceu de fato: “A Primeira Guerra Mundial e a execução da memória”

O filme conta a história sobre dois soldados britânicos ordenados a atravessar o território inimigo para avisar um coronel de que ele está prestes a liderar centenas de tropas, incluindo o irmão de um dos protagonistas, em uma armadilha – tudo é contando sobre a ótica dos dois soldados com muitas referências sobre a importância da família, especialmente para aqueles que são leitores das obras do escritor Erich Maria Remarque. Existe Lance Schofield (George MacKay) que parece ter feito algo heroico no Somme, mas não usa a medalha que recebeu por isso. Ele é acredita que a guerra não levou nada de bom para ninguém. E temos Blake (Dean-Charles Chapman), um cabo de lança que ainda não fez nada de importante nas trincheiras e acredita que agora é sua chance.

É uma história sombria, tensa e que pega de cheio logo nos primeiros minutos de filme. Não existe humor, apenas nuances negras do que poderia ser algo engraçado – existe uma cena em que Lance fura a mão no arame e logo em seguida, a mão machucada afunda dentro de um dorso de um alemão apodrecendo no meio das trincheiras.

A história de 1917 é sobre Schofield procurar alguma coragem que ainda resta dentro de si mesmo. Desde o início dessa missão, quando Blake (mais jovem e impetuoso) insiste em sair durante o dia para chegar ao irmão mais cedo, em vez de esperar pela cobertura da noite, ele é basicamente um escoteiro clássico do início do século XX, cheio da crença no sistema que iniciou aquela guerra. Quando uma armadilha deixada em uma trincheira alemã abandonada deixa os dois em risco de serem enterrados no subsolo, Blake carrega o ferido Schofield e salva sua vida. Blake morre até de uma maneira perfeitamente honesta, tentando salvar um piloto alemão caído, que o apunhala.

Blake serve para que Schofield se reconheça e se reencontre. MacKay vem trazendo personagens nos últimos anos carregados de drama e profundidade. Que ator incrível e com um futuro primoroso. Dean-Charles depois de Game of Thrones não parou mais de fazer filmes dramáticos e históricos. Para quem não sabe, esse jovem ator é experiente, já vem trabalhando na TV e Cinema desde 2007. São atores que entregam o que 1917 apresenta.

Embora existam momentos em que o filme sugere que a guerra pode ter revelado qualidades em alguns homens, os britânicos apesar de tudo, sempre são mostrados durante o filme e pelos historiadores da Grande Guerra como pessoas boas. Um grupo de soldados que achou Schofield depois da morte de Blake, no começo, não se importam com ele, mas logo depois que o caminhão que os transportavam atola na lama, eles se reúnem para ajudá-lo a superar essa última dificuldade. Quando o deixam no lado de fora da vila de Ecoust (Écoust-Saint-Mein, França), o capitão Smith (Mark Strong), que ajudou Schofield, avisa: “Se você conseguir chegar ao coronel MacKenzie, verifique se há testemunhas.” ” São ordens diretas, senhor “, ressalta Schofield. Smith responde: “Eu sei. Mas alguns homens querem apenas lutar.” Mesmo essa bondade inerente dos soldados ingleses que o filme mostra diversas vezes, ele também é pontual em mostrar o lado sombrio humano durante uma guerra.

Em uma adega em Ecoust, onde Schofield encontra uma francesa escondida com um bebê que salvou, Schofield recita um pouco do poema de Edward Lear, de 1871, “The Jumblies”, para acalmar a criança: “Eles foram para o mar em uma peneira… Em uma peneira, eles foram para o mar” Essa inclusão deste poema pode parecer à primeira vista ser sobre a loucura da missão de Blake e Schofield. Certamente, como os marinheiros da história, eles estão condenados. Mas, em um final improvável como o de 1917, o poema completo culmina em sucesso para os tolos que acreditam. Essa cena é sobre o poder da fé de Blake em sua missão – uma fé tão forte que leva Schofield a superar sua própria relutância e, eventualmente, a um resultado que é nada menos que milagroso.

Por fim, o plot do filme – o momento que revela Schofield como o verdadeiro herdeiro do valor de Blake e confirma a convicção do filme de que o heroísmo é possível mesmo em uma grande confusão de guerra – é a cena mais ridícula? do filme. Desarmado e protegido apenas pela armadura da trama, Schofield atravessa um campo de batalha aberto, esquivando-se de bombas, balas e seus companheiros soldados britânicos. Isso foi loucura! Só no filme mesmo para que isso tenha dado certo. Quando ele chega a MacKenzie (Benedict Cumberbatch) e tenta entregar as novas ordens do general, o oficial fica momentaneamente irritado. Pensei por um minuto: “Oh meu Deus, e se ele realmente não aceitar a ordem?”?” Isso poderia ter sido um final verdadeiro para esse conflito, mas 1917 não é esse filme. MacKenzie chama seus soldados de volta.

O fato de Schofield não impedir que toda a tragédia se desdobre – apenas uma parte dela – parece quase irrelevante. Mas ele conseguiu. Por exemplo, Dunkirk, de Christopher Nolan, apesar de não ser totalmente “anti-guerra”, foi excepcional ao descrever um fracasso: a evacuação das tropas britânicas do território que eles esperavam manter. Apesar de todos os seus tiros e artilharia pesada, Dunquerque (nome em português) mostra que a guerra também pode significar impotência. 1917 oferece uma fantasia em linhas opostas: que uma guerra, mesmo que sem sentido, oferece camaradagem aos homens muito além do que está disponível para os civis – junto com a chance de fazer uma diferença real. E essa mensagem foi dada na obra de Sam Mendes.

Sam Mendes escreveu e dirigiu um filme de aventura baseado no que seu avó falou para ele sobre a Grande Guerra? É cinema, amigos.

O legado de 1917 pode ser o mesmo daqueles marinheiros de “The Jumblies”. No final do poema sem sentido de Lear (eu li e achei horrível), os marinheiros retornaram em segurança para casa, “crescidos” e cheios de histórias, e são recebidos com um banquete. Os espectadores, inspirados, tiram a conclusão óbvia demais: “Nós também iremos para o mar em uma peneira”. Mesmo assim, 1917 é uma obra cinematográfica sobre guerra sem defeitos. 1917 quer prestar homenagem ao que temos de melhor, mas também fala às partes de nós que querem ver um herói emergir de uma guerra sem sentido, dando assim a essa fraude maldita que a Grande Guerra foi um sentido para ter acontecido.

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PikachuSama
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