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Guerras Secretas | Conheça o evento que mudou a história da editora Marvel

Conheça o evento editorial que mudou a forma como a Marvel produzia quadrinhos e que talvez seja a nova fase do UCM.
Guerra Secretas
Reprodução

Conheça o evento editorial que mudou a forma como a Marvel produzia seus quadrinhos para sempre e que talvez seja a nova fase do UCM.

Texto escrito em parceria com o Weverson Oliveira.

Os quadrinhos de super-heróis já haviam atravessado muitas fases e sagas antes de 1984, com várias crises em vários universos e muitos personagens da Marvel invadindo os títulos de outros, a coisa não estava fácil, mesmo os X-Men estourando e vendendo como água nesta época. A Marvel foi a primeira editora a pensar de forma comercialmente seu universo de personagens e que hoje chamamos de Evento – quando a editora utiliza todas suas revistas para contar uma Saga – foi criado também nesta época.

O ponta pé inicial para tudo isso foi nada menos que saga Marvel Super Heroes Secret Wars ou Guerras Secretas, cuja primeira edição foi lançada em maio de 1984.

Na passada semana os diretores de Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato, os irmãos Joe e Anthony Russo, deram uma entrevista ao Bro-Bible onde recordaram a paixão por Guerras Secretas. E eu já havia até falado sobre isso em 2018, clique aqui e leia.

Joe Russo falou sobre como foi a primeira vez que estava lendo uma revista em quadrinhos com diversos personagens da Marvel, incluindo os Vingadores, o Quarteto Fantástico, os X-Men e os seus vilões tentando salvar o universo. Anthony Russo defendeu a existência de relações complexas entre vilões e heróis ao ponto de afirmar que a adaptação de Guerras Secretas como a nova fase do UCM seria maior que Guerra Infinita com Ultimato.

Pensando que talvez isso seja algo real, pois tem diversas razões para acontecer, resolvi falar um pouco o que foi esse grande evento editorial que mudou os rumos do mercado de quadrinhos dos Estados Unidos para sempre.

Guerra Secretas
Marvel Comics

A Guerra Secretas é uma criação do editor-chefe da Marvel Comics, Jim Shooter, com 12 edições e com quase todos os personagens da Marvel. A coisa foi tão grande que ele dividia as edições entre os artistas Mike Zeck e Bob Layton. Sem saber, foi aqui que também começou a utilizar mais de um artista para produzir uma revista.

Dois anos antes, a Marvel já havia tentando criar um evento que abrangesse quase todos seus personagens, intitulado Torneio de Campeões. Tinha até uma premissa bastante semelhante: um cara chamado Grão-Mestre resolve desafiar a Morte a uma competição. Nessa competição, cada ser supremo do universo montava sua equipe de seres poderosos para lutarem entre si. Mas isso durou apenas três edições e foi, no geral, bastante modesto. Acredito que muita gente que estará lendo isso nunca soube disso.

Mas o conceito modesto e Guerras Secretas costuma não funcionar na mesma frase. Toda a ideia, desde começo, era claramente baseado de quanto maior, melhor. Jim Shooter achava que mais personagens, mais questões do que é certo e errado, mais combates, mais grandes discursos, mais entidades onipotentes, maior seria o impacto para o leitor. Viu como modesto não cai bem quando falamos de Guerra Secretas?

Para quem não sabe ou lembra, os anos 80 foi a década dos brinquedos de ação e um dos grandes nomes da época era a fabricante Matell. Antes de virar quadrinho, Guerras Secretas, ainda sem um título, foi oferecida para Mattel. Nessa época a empresa de brinquedos Kenner tinha um contrato milionário com DC para produzir seus hominhos (Actions Figures) e a Mattel não queria ficar de fora disso.

Mattel
Os hominhos da Mattel, se teve uma empresa que faturou alto com Guerras Secretas nos 80 foi ela.

A Mattel só aceitou o acordo porque ela teria direito de fazer basicamente todos os personagens da Marvel. Mesmo sem saber como a Marvel faria para colidir todos os seus personagens em uma única saga.

Guerra Secretas
Primeira versão da roupa preta do Homem-Aranha foi em Guerras Secretas.

Nesse acordo, a Mattel insistiu que a Marvel produzisse uma série para a linha de brinquedos que ela acabara de conseguir, foi a Mattel que deu a ideia de se chamar Guerras Secretas, porque uma pesquisa de mercado feito pela empresa, descobriu que as crianças adoravam as palavras “segredo” e “guerras”. A pesquisa de mercado também determinou que certos personagens – como Doutor Destino e Homem de ferro – fossem redesenhados para serem mais tecnológicos, e que várias novas personagens femininas fossem introduzidas. A Mulher-Aranha Julia Carpenter, Titania e Vulcana ganharam seu espaço.

A história que o Shooter desenvolveu foi essencialmente uma versão maior do Torneio de Campeões. Mais ou menos como um experimento, um ser todo-poderoso, desta vez chamado The Beyonder, convocou praticamente todos os personagens da Marvel a um planeta arena chamado Battleworld para lutarem entre si.

Lembrou muito Dragon Ball ou será que Dragon Ball bebeu da fonte?

A série acabou mudando algumas coisas: o Homem-Aranha ganhou um novo traje preto, como o dilema do melancólico Homem Molecular, peça-chave da narrativa e o final envolvendo Ben Grimm e sua escolha de ficar no planeta criado pelo Beyonder, pois lá ele poderia ser uma “pessoa normal”, assim, a She-Hulk fica no seu lugar lutando ao lado do Quarteto Fantástico, Colossus e Kitty Pride terminam o relacionamento que já durava décadas. Apesar de tudo isso, nada mudou muito no Universo Marvel. O que talvez seja o que os fãs sempre quiseram.

Indiscutivelmente, Guerras Secretas se tornou ainda mais um modelo para os eventos que viriam nas próximas três décadas.

Embora seu impacto na história fosse discutível, o impacto nas vendas foi inegável. Foi facilmente o gibi mais vendido da Marvel na época, o que levou a uma sequência, Guerras Secretas II, no ano seguinte. Isso também levou a um memorando infame famoso pelo fandom mais velho da Marvel – supostamente de Shooter-na qual ele disse que seu trabalho em Guerras Secretas era “absolutamente perfeito” e quaisquer diferenças entre como os personagens eram retratados em Guerras Secretas. e seus títulos regulares eram culpa de outros escritores, não dele.

Que ironia. A editora que criou que com Grandes Poderes vem grandes responsabilidades, estava vendo seu editor-chefe ficar louco pelo poder e dinheiro.

O evento foi adaptado para um episódio de duas partes do desenho animado do Homem-Aranha dos anos 90, e o título foi redefinido para a linha editorial da Marvel várias vezes nos últimos anos. Uma série de 2004, de Brian Michael Bendis e Gabriele Dell’Otto, tratava de operações secretas da SHIELD. Em 2010, a Marvel Adventures enfrentou Guerras Secretas, Homem-Aranha e as Guerras Secretas, contou a história do evento pelos olhos do Homem-Aranha. Houve também um evento de 2015 chamado Guerras Secretas que redefiniu todo o Universo Marvel. Você pode ter ouvido falar sobre isso. E muita gente está pensando que se trata dela e não essa a Saga que poderá ir para o cinema.

Depois Guerras Secretas originais, os eventos nos quadrinhos com várias edições simplesmente se tornaram um fato da vida. De fato, os leitores esperam que os principais editores gerem um a cada ano ou mais. E sempre que surgir uma nova saga seja na Marvel ou DC, se lembre do acordo de 1983 entre a Marvel e a Mattel.

O lançamento de Guerras Secretas no Brasil…

Aqui no Brasil, a saga foi originalmente publicada pela Editora Abril nem bem um ano depois da publicação nos EUA. Bacana, vocês devem estar pensando, não é mesmo? Não, não é bacana de jeito nenhum. Àquela época, a bagunça editorial brasileira era tanta que diversas publicações estavam anos e anos atrasadas em relação aos EUA, sendo que umas mais do que as outras. Não tente entender, apenas continue lendo.

No entanto, a Gulliver, que comprou a licença da Mattel para vender os brinquedos por aqui (aliás, péssimos…), forçou a publicação imediata pela Abril. O resultado? Bem, se você pegar a publicação original e a original brasileira, notará que heróis foram literalmente apagados. Tente achar Monica Rambeau na publicação da Abril. Ela não estará lá. O mesmo vale para os uniformes de Wolverine e Tempestade. Como a continuidade aqui estava atrasada, a Abril arrumou um jeito de alterar o visual dos personagens, mas, claro, em alguns quadros eles aparecem como no original. E menções a eventos foram extirpadas na tradução, pela mesma razão. Em suma: uma zona épica.

Dados para pesquisar a obra na Amazon:

Guerras Secretas (Secret Wars, EUA)

Roteiro: Jim Shooter

Arte: Mike Zeck

Cores: Christie Scheele

Editora nos EUA: Marvel Comics (originalmente publicada em 12 edições entre maio de 1984 e abril de 1985)

Editora no Brasil: Editora Abril (originalmente publicada em 12 edições entre agosto de 1986 e setembro de 1987)

Páginas: 321

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Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.