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A Casa Rosa, o filme reencontrado de Dalson Carvalho

Um filme do cineasta Dalson Carvalho, de 2006 ou 2007, e que estava esquecido em algum HD, foi reencontrado, e é incrível a reflexão que ele pode trazer sobre os dias de hoje, sobre a quarentena, o distanciamento e o isolamento nos grandes centros urbanos.

Um filme do cineasta Dalson Carvalho, de 2006 ou 2007, e que estava esquecido em algum HD, foi reencontrado, e é incrível a reflexão que ele pode trazer sobre os dias de hoje, sobre a quarentena, o distanciamento e o isolamento nos grandes centros urbanos.

Às vezes, quando estamos em casa, procurando o que fazer, eventualmente começamos a mexer em nossas gavetas e reencontramos algo perdido, pode ser um bilhete que escrevemos ou, no meu caso, um rabisco qualquer.

É comum não reconhecermos aquele resquício que nós produzimos. “O que eu quis dizer?”. “Nossa! Não lembrava de ter feito isso!”. Normalmente, não nos reconhecemos. Conversando com Dalson Carvalho, um amigo de longa data, e que também é cineasta, ele me disse que encontrou um filme que realizou em 2006 ou 2007, chamado “A Casa Rosa”. Era o seu “filme perdido”, nunca publicado, nunca exibido, provavelmente o primeiro que fez após seu retorno de São Paulo, da Academia Internacional de Cinema, ao Piauí.

Enquanto conversávamos alguma coisa sobre produzir um vídeo nesses dias de Corona, ele me disse:”Lembrei de uma coisa. Algo muito bizarro. Vou te mandar, sem dizer nada”. Era justamente esse seu filme. Mandou uma cópia por whatsapp e aquelas imagens foram surgindo em minha memória. “Nossa! Eu já tinha assistido isso!”, pensei. De repente, em dois ou três segundos no meio daqueles pouco mais de quatro minutos de filme, aparece um rabisco que eu desenhei. “Eu participei disso?”. Minha memória é uma jangada furada.

Frame com meu rabisco, que aparece no meio do filme A Casa Rosa.

Ao tempo em que essas imagens iam aparecendo, eu pensava sobre o que o Dalson queria tratar, mas a pedra sobre a qual estou firmado no dia de hoje, me deu outra visão sobre aquele filme. O que ele queria dizer em 2006, se confundiu como que eu lia hoje.

O filme segue. Em outros frames, vejo meu antigo fusca, meu primeiro carro, pelo qual tenho tanta nostalgia, perdido na desolação de uma Teresina solitária e que remete aos dias de hoje, 13 ou 14 anos depois de filmado.

Nas duas últimas breves cenas do filme, vemos o próprio Dalson, e rapidamente, fui atingido por uma memória perdida num recanto sombrio do meu cérebro. “Tenho a impressão de que fui eu que te gravei na UFPI, certo?”. “Sim!”, ele respondeu. E aquelas tardes obscuras, foram iluminadas pela luz do cinema, não aquela projetada a partir de uma romântica película de 35 ou 16mm, mas pelo código binário de uma tela de notebook de 17 polegadas. Mas a magia do registro aconteceu e trouxe pra mim, a memória de coisas esquecidas.

É muito curioso assistir à Casa Rosa, de Dalson Carvalho, e mesmo que possa parecer anacrônico, ler seu filme nos dias de hoje, entorpecido pelo silêncio e distanciamento de uma pandemia mundial, faz muito mais sentido. É justamente essa a beleza da releitura dos objetos e dos novos questionamentos que podemos fazer ao passado.

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Você realmente acredita que a quarentena do século XXI começou em 2020? Não! É claro que não! Dalson Carvalho já falava das consequências dela há pelo menos uma década e meia. A angústia da desolação já acontece há muito tempo e é incrível fazer a releitura desse filme com o verniz de nossa experiência atual. “É meio profético, meio noia, mas é interessante refletir sobre ele”, me disse por whats, no meio da nossa redescoberta do filme.

Assista sozinho, num momento silencioso e no escuro.

Caso queira conhecer um pouco mais sobre o trabalho de Dalson Carvalho, você pode acessar uma matéria que fiz sobre ele, em 2016, clicando aqui.

Bernardo Aurélio
Sou desenhista, criador do Máscara de Ferro e autor do quadrinhos Foices & Facões. Sou formado em história e gerente da livraria Quinta Capa Quadrinhos