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“A Vastidão da Noite”: um filme apositivo

A Vastidão da Noite, 2020 (Amazon Prime)

Sabe “aposto”, aquele elemento gramatical que, segundo aprendemos na escola, vem geralmente separado por vírgula e serve para explicar ou detalhar alguma informação? Sobre ele aprendemos também que é um termo acessório e que, por isso, se o retiramos da frase, não há prejuízo para a compreensão. Sempre achei essa ideia meio contraditória: como algo que serve para detalhar pode ser retirado sem prejudicar a compreensão? Ao assistir A Vastidão da Noite (disponível no Prime Video), dirigido por Andrew Patterson, e ler/ouvir algumas impressões sobre o filme, essa minha percepção se fez presente mais uma vez.

É que A Vastidão da Noite é um filme feito, em grande parte, de apostos, de detalhamentos, de explicações. Está nessa característica o que me parece ser talvez a grande beleza do filme, mas também está nela o alvo de críticas. Há alegações de que o filme apresenta algumas cenas desnecessárias, de que poderia ser mais enxuto, até mesmo de que há, por vezes, encheção de linguiça. Porém, só consigo compreender que o detalhamento faz toda a diferença.

Fez toda a diferença a câmera me fazer saber onde estavam as pessoas da cidade quando tudo acontecia, quais as distâncias percorridas (e corridas), o quão escura era a noite, o quão vazia estava a cidade. O que acontece na vida das pessoas em geral durante o tempo em que acontece um jogo de basquete? O que acontece na vida das pessoas em 90 minutos, o tempo que dura o filme? Bom, enquanto coisas drásticas acontecem com alguém, a vida cotidiana continua acontecendo para os outros. Enquanto os personagens principais, Fay (a telefonista) e Everett (o radialista), estão tentando descobrir um mistério gigantesco, correndo de um lado pro outro na cidade, o restante das pessoas está lá parado no jogo. Enquanto mil coisas impactantes se sucedem para Fay e Everett no período de 90 minutos, para a maioria dos moradores se sucede uma: o jogo de basquete. É isso: o tempo relativo que nos acomete ao longo de toda a nossa existência, por mais prosaica que ela seja.

Fez toda a diferença acompanhar aqueles movimentos sucessivos de Fay, de tirar e colocar plugues para conectar ligações. Fez diferença lidar com os inúmeros sons que acontecem na história, junto com pessoas conversando e a gente sendo obrigado a ficar atento para não perder nada. Fez toda a diferença aquele diálogo sobre tecnologias do futuro que pareciam tão distantes para aqueles seres humanos dos anos 50, embora eles tenham tido contato com tecnologia bem mais avançada do que a temos hoje.

Fez diferença principalmente as voltas e voltas verborrágicas que os personagens dão quando vão contar suas histórias. É precisamente nas minúcias dos diálogos e monólogos que vamos construindo cenários em nossas mentes. Pode ser estratégia forçada pelo baixo orçamento (como muito mencionado nos textos sobre esse filme), afinal, não tendo muitos recursos financeiros para filmar cenas de flashbacks, o diretor nos conduz a montarmos nossos próprios flashbacks (se eles vão ter cenários pomposos, computação gráfica e quaisquer outros recursos cinematográficos, fica por conta dos recursos mentais de cada um). Se a ideia foi essa, não poderia ser feita de outra forma que não fosse com os apostos vários, nos oferecendo elementos que permitissem ir além com a imaginação (captou a referência? Eu só capturei linguisticamente, por enquanto, mas logo resolverei).

Tudo isso é muito próximo de vida acontecendo, de atmosfera de realidade. E é aí que o medo é construído. A Vastidão da Noite faz o medo brotar pelos apostos, por tudo aquilo que parece que poderia ser retirado sem que o filme perdesse o sentido. É no detalhamento que a gente vai sendo puxado, vai se aproximando, vai se interessando pela história e vai tendo medo do desconhecido, junto com os personagens. Afinal, todas as minúcias, que também procuramos achar para compreender o que está rolando, não nos previne de fato para enfrentar o desconhecido. E isso é apavorante.

Vi numa crítica que talvez o filme não seja tão bem aproveitado por quem não capta as referências a clássicos da ficção científica e que, sem essas intertextualidades, o filme ficaria um pouco esvaziado. Pois bem, eis aqui uma pessoa que não assistiu às obras que são relacionadas ao filme e viu um monte de coisa nesse filme, menos falta de sentido. É fato, entretanto, que, se tivesse visto as obras de referência, teria acessado outras camadas. Filme apositivo tem dessas coisas, ainda bem: tá lá a história principal e cada um vai preenchendo significados com os apostos que consegue perceber.

Leila Alexandre
Professora de Linguística com cada vez mais pés na literatura. Atualmente desenvolvendo estudos sobre a leitura de livros ilustrados e quadrinhos sem palavras.