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Crítica | Hunters da Amazon é boa em matar nazistas e muito ruim no resto

Hunters
Amazon Studios

Hunters, série produzida por Jordan Peele definitivamente não é o programa que você esperava.

Hunters tem esse título proposital e tem um duplo sentido implícito. O drama produzido por Jordan Peele, da Amazon, sobre caçadores nazistas na década de 1970, parece ter sido feito e lançado para esse momento histórico específico, quando o sentimento nacionalista branco é repetido por oficiais do governo (americano e brasileiro) e que explodiu pelas redes sociais. E o mais assustador, as pessoas comuns estão defendendo isso.

Esta resenha não contém spoilers e foi escrita baseada nos cinco primeiros episódios.

Em Hunters, os personagens estão constantemente dizendo coisas de uma maneira que parece que é dita para nós: Você sabia que os nazistas estão aqui, entre nós? Você achou que a guerra acabou ou que eles esqueceram que precisam estabelecer seus ideais da supremacia branca? Você pensou errado, meu amigo. A coisa é feita de uma forma até engraçada, mas a piada é sobre o Nazismo e sempre tem um gosto amargo.

A série que estreou em fevereiro, vem deixando as pessoas em cima do muro. E sua história é mais ou menos assim: Hunters nos apresenta a lenta vida de Jonah Heidelbaum (Logan Lerman), um adolescente judeu que vive no Brooklyn com sua avó. Quando a dita avó é assassinada em sua casa, Jonah descobre algo que escondeu do mundo: ela era membro de uma fraternidade secreta de vigilantes caçadores e vingadores de nazistas que conspiravam para criar um Quarto Reich.

Antes de qualquer coisa, precisamos contextualizar o que negócio é esse de Reich. Com a nomeação de Adolf Hitler como chanceler, em 30 de janeiro de 1933, a Alemanha nazista (também chamada de Terceiro Reich) rapidamente tornou-se um regime no qual os alemães não possuíam direitos básicos garantidos. Após um incêndio suspeito no Reichstag, o parlamento alemão, em 28 de fevereiro de 1933, o governo criou um decreto que suspendia os direitos civis constitucionais e declarou estado de emergência, durante o qual os decretos governamentais podiam ser executados sem aprovação parlamentar.

Ou seja, Hitler se tornou um ditador absoluto.

Para que isso não aconteça novamente, existem os Hunters, liderados pelo rico Meyer Offerman (Al Pacino) que, metodicamente examinam e procuram suas vítimas e distribuem a sua própria forma de justiça sobre eles, certificando-se de que sabem exatamente quais crimes estão sendo punidos. Mas não são julgamentos comuns, eles usam das mais variáveis formas de violência.

Por causa de tantas informações que é mostrado, a série é intercalada em todos os episódios, há interlúdios e flashbacks nos campos de concentração e as atrocidades cometidas nele, para que o espectador não comece a sentir que os Hunters estão sendo um pouco cruéis demais.

Também existem estranhas e divertidas linhas no roteiro, lembra bastante algo que Guy Ritchie teria dirigido, mas com um toque de quebra de quarta parede. Os vilões monologam e saúdam um Hitler falecido há muito tempo com lágrimas nos olhos. Tudo feito para que as ações dos nazistas soam ridículas.

Como não darei spoilers, focarei nas estrelas da série, Jonah e Offerman, e, infelizmente, apenas uma delas funciona. Apesar de ser o protagonista, Jonah não oferece muito o que se agarrar como personagem. Temos breves vislumbres de sua vida pessoal – seus amigos, sua paixão, o valentão antissemita e sua venda ilegal de drogas a fim de ajudar sua avó a pagar o aluguel – mas isso está a serviço do enredo, ou seja, precisa funcionar assim. Mas sobre minha perspectiva, não gostei muito dos caminhos que o personagem usou para chegar onde chegou.

Isso também faz com que todos os seus grandes momentos pareçam ocorrer no vácuo – especialmente quando ele está do lado de outros Hunters, todos com uma quantidade decepcionante de tempo na tela. Pacino é ótimo, claro.

Hunters
Amazon Studios

Os cinco episódios que assisti deixaram as coisas em um momento crítico no meio da temporada de 10 episódios. Algumas das maiores questões temáticas de Hunters giram em torno de saber se os fins justificam os meios ou se a busca pela vingança corre o risco de corromper quem a procura. Essas são perguntas familiares, talvez até repetitivas, mas é possível que Hunters tenha uma resposta interessante.

O problema é que não há como dizer como isso vai acabar. É difícil ser otimista. Enquanto a série faz muitas coisas diferentes, eles simplesmente não souberam gastar o tempo de tela que tiveram. Cada episódio dura mais de uma hora de duração. Uma quantidade excessiva desse tempo é gasta refletindo sobre uma oportunidade perdida. É revelador que, apesar de todas as suas peculiaridades estilísticas, a série fica melhor quando o episódio é limpo e linear: o quarto episódio, que conta histórias gêmeas de um assalto a um banco e uma fuga desesperada de um casal de um campo de concentração, está entre os melhores. Tudo contado de forma simples.

Como a equipe homônima que se segue, Hunters tem uma lista de objetivos, e alguns deles estão em conflito um com o outro. Ele quer ser uma lembrança angustiante do sofrimento do Holocausto, uma fantasia de vingança satisfatória, uma peça sensacional do período que a história está passando e uma comédia sombria. Tudo isso pode ser alcançado junto com a habilidade, mas somente se a tensão entre eles for reconhecida e tratada. Em vez disso, a série muda de tom para tom, mais temperamental do que emocional.

É frustrante porque até os ridículos e caçadores nazistas compartilham uma característica que os fascistas da vida real têm: eles sabem o que querem. Uma série sobre as pessoas que lutam contra eles também deveria ser assim.

Hunters está disponível na Amazon Prime.

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PikachuSama
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