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O dia que Patrulha Destino fez uma revolução para todas as pessoas com deficiência

Patrulha do Destino
Bob Mahoney/Warner Bros. Entertainment

Nem sempre ser perfeito é o que teremos de melhor; às vezes, as nuances dos personagens com deficiência podem ser a melhor coisa de uma série de TV de heróis. Este artigo contém bastante spoiler da série Patrulha do Destino, se ainda não terminou de assistir a primeira temporada, seria de bom grado sair daqui por gentileza.

Há muito tempo, os quadrinhos retratam pessoas com deficiência ou supergrupos desajustados para os olhos da sociedade (como mutantes), mortais e meta-humanos. Alguns desses personagens não são a representação mais precisa de problemas do mundo real, e alguns deles podem ser potencialmente prejudiciais. Mas, embora pessoas com deficiência na vida real possam não ter o poder de um telepata ou empatia, podemos nos relacionar com a história de um super-herói com problemas similares.

A série de TV da DC Universe Patrulha do Destino, levou o conceito de um grupo de super-heróis tragicamente ostracizados para outro patamar e, no processo, criou algumas das mais fortes representações de pessoas com deficiência, refletindo a nossa realidade na televisão hoje.

Criar a Patrulha do Destino foi uma terapia que serviria para ajudar essas pessoas, e que acabou provocando sua derrota ao se aceitarem; as metáforas perenes da incapacidade prosperam por todos os lados na série. Rita Farr acredita que seus poderes – elasticidade incontrolável – são uma punição; uma conotação adversa de incapacidade. Larry Trainor esconde a qualquer custo seus defeitos físicos como ele costuma falar, respondendo ao estigma de que a deficiência deve ser visivelmente escondida. Mas, de maneiras mais sutis, a série também explora aspectos extremamente atuais da vida moderna de pessoas com deficiências.

A série mostra como é estressante para seus personagens com deficiência, viver em um mundo que seja compatível com eles; para que pelo menos, que tenham acessibilidade para suas necessidades básicas. Patrulha do Destino aborda temas verdadeiramente complexos de deficiência, quando a série ilustra o estresse moderno de como é ser pai de uma pessoa deficiente.

Enquanto Cliff Steele (Robotman) luta para se ajustar ao seu novo e indesejado corpo robótico, ele ainda deseja ter um relacionamento parental com sua filha, Clara. Clara não sabe que ele ainda está vivo, e Cliff se preocupa que ela esteja melhor sem pai do que com um pai que é apenas um cérebro em um corpo de metal.

Apesar desse desejo, ele acha que não merece ter um relacionamento paternal com ela – ou mesmo uma família se aprofundarmos mais essa questão. Como pessoas com deficiência, a autoestima é muitas vezes um reflexo direto de como a sociedade os enxerga e os trata. Dentro mesmo dos Estados Unidos, existem leis e projetos que favorecem pessoas com necessidades especiais. Mas também, existem projetos criados para impedir que pessoas com deficiência tenham filhos, e a contraparte de Cliff na série ajuda a canalizar esses sentimentos.

 

Patrulha do Destino
Jace Downs/Warner Bros. Entertainment

Mas Patrulha do Destino também acompanha o drama do Cyborg – outro personagem de DC cujo corpo foi modificado com partes cibernéticas sem o seu consentimento. Victor Stone luta com seu pai superprotetor e cientista Silas Stone que modificou o próprio filho, sem se importar com sua opinião, porque considerou que o que fez foi o melhor para seu filho com deficiência. Cliff e Cyborg recebem uma dinâmica de irmãos, para mostrar melhor o espelho entre o arco de Cliff como um pai deficiente e as boas intenções de Silas Stone, que inevitavelmente machucam Victor.

O relacionamento de Victor com seu pai é complicado, porque o Senhor Ninguém manipulou sua memória, mas ainda é um paralelo fácil de um exemplo de que pais muitos protetores podem ser prejudiciais para uma criança com deficiência. Ou seja, quando um pai ou mãe se torna ainda mais superprotetor de seu filho apenas porque está incapacitado – ou pior,  tenta governar toda a vida ou falar por seus desejos. Silas, por exemplo, tenta impedir Vic de ser um herói, e até mesmo o impediu de namorar por ter medo da rejeição que o filho terá quando souberem que ele é meio mecânico.

Em vez de ouvir o que Vic queria na vida ou por que ele ama ser um herói, Silas integrou parâmetros abertamente protetores em sua interface digital e, em vez de proteger Vic do mundo, apenas o isolou. Toda a premissa desse arco mostra como essas táticas parentais fazem com que crianças com deficiência se sintam menos normais; não por causa das ações de seus pares ou do mundo exterior, mas porque seus pais as excluem dessas atividades. Quando Vic se recusa a permitir que seu pai altere sua cibernética até que ele possa provar que pode ser confiável, isso mostra que as crianças com deficiência merecem ter autonomia em suas decisões de vida.

Doom Patrol
Warner Bros. Entertainment

E a figura final do pai em Patrulha do Destino é o frequentemente ausente Niles Caulder, cujo medo de ser perseguido pelo Senhor Ninguém lhe fez uma pessoa que prefere se isolar com a Patrulha do Destino do mundo. A experiência com o isolamento é um tema recorrente que aproxima toda a equipe, mas para Crazy Jane, seu isolamento auto-imposto era um mecanismo de sobrevivência em um mundo inacessível. Seu caminho para se tornar um membro da Patrulha do Destino permite-lhe encontrar uma família – para reconhecer Niles como uma figura paterna – e recuperar-se de todas as fraturas que ela acredita possuir.

Nem toda pessoa com deficiência gosta do termo “louco”, especialmente de personagens com deficiências psicológicas, mas o termo é implicitamente parte do arco de recuperação de Jane. Além de parar o apocalipse e matar fascistas, Jane tem um universo próprio que levaria anos de pesquisa para definir sua saúde mental. Mesmo assim ela recuperou sua perspectiva do que chama ser uma pessoa consciente. Como Jane, basicamente todos da equipe canalizam suas dores, problemas e deficiências tentando salvar o mundo. Isso seria para eles, segundo minha percepção, algo que mostra que é melhor ter deficiências salvando algo do que ser são e não fazer nada em relação ao que está acontecendo ao nosso redor. Olha a quantidade de camadas que esta série abordou na primeira temporada e você nem percebeu.

Como os legisladores, representantes e ativistas da vida real, Patrulha do Destino usa sua equipe epônima como uma metáfora exagerada para mostrar como os ativistas com deficiência estão continuamente lutando para apoiar e proteger os direitos das pessoas com deficiência. Pegamos, por exemplo,  uma organização do governo chamada Bureau of Normalcy, que busca erradicar o absurdo e impor a heteronormatividade na sociedade e que produz os principais vilões da série. O bureau existe para criticar questões mais recentes sobre como a legislação ameaça os meios de subsistência das pessoas com deficiência. E usar arcos clássicos para um público mais mainstream, cria imagens excepcionalmente positivas de super-heróis com deficiência derrubando uma organização do governo que ameaça a liberdade, a existência e a autonomia das pessoas marginalizadas. Grant Morrisson, eu defenderei você até o fim da minha vida.

A Patrulha do Destino canaliza a raiva de seus heróis contra os valentões – incluindo um cientista nazista e seus seguidores, o Sr. Ninguém, e o Bureau of Normalcy – que tentam fazê-los questionar sua autoestima como heróis com deficiência. Existe uma mensagem triunfante aqui e acho que você está começando a enxergar melhor isso.

Mas preciso reclamar, se não fizesse isso, eu enganaria minhas origens. O arco do Niles Caulder, por exemplo. Niles é um personagem bem conhecido por diversas vezes estar ou não usando cadeiras de rodas. Essa parte ficou muito estranha e já tem muita gente teorizando que ele nunca foi deficiente, mas usando isso como uma de suas experiências ou mesmo sendo um vilão.

 

Patrulha do Destino
Credit: DC Universe

No geral, as representações das deficiências na Patrulha do Destino representam com precisão as pessoas com deficiência e nossos problemas modernos. Mais importante, muitas das metáforas irradiam mensagens positivas sobre o que grupos de pessoas desfavorecidos podem realizar juntos.

Patrulha do Destino adota uma abordagem inteligente para entrelaçar o discurso da deficiência no diálogo, na caracterização e no enredo; um reflexo da nossa sociedade. Reformando os super-heróis com deficiência para um público moderno mudando conceitos velhos e quando ainda foram usados no passado nos quadrinhos do grupo.

A adaptação de Patrulha do Destino na TV nos dá a chance de admirar novamente esse grupo de super-heróis com deficiência – porque, além de todo o horror, comédia e esquisitice, adoramos ver representações realistas de deficiências além dos poderes.

Texto revisado pelo Érico Campos.

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