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Resenha| Submissão, de Michel Houellebecq (Alfaguara)

Por Natália Silva

“Submissão” é uma obra de Michel Houellebecq, um dos autores mais importantes da literatura francesa contemporânea, tendo ganho o Prêmio Goncourt em 2010. Considerado um romance polêmico, foi lançado em 2015 e deu o quê falar por ter sido associado aos ataques islâmicos na sede da revista Charlie Hebdo, poucas horas após seu lançamento.

É uma leitura que vale a pena ser feita se você se interessa por ficção, história e vislumbres proféticos frente às possibilidades de ruptura com as tradições que agenciam nosso cotidiano. Ainda que retrate uma realidade cultural diversa, que esbarra numa ética antropológica bem diferente da brasileira (por assim dizer), a obra parece repleta de ironia: desde a configuração tradicional em que a França se encontra no início do romance, com seu meio intelectual, universitário; até mesmo após as mudanças sociais e políticas decorrentes de uma implantação islâmica que acontece na sociedade francesa, em um futuro próximo.

Numa atmosfera ao mesmo tempo densa e requintada, a vida do professor universitário da grande Sorbonne, François, é atravessada gradual e significativamente pelos eventos políticos manifestos na breve França de 2022, prevista em “Submissão”. O cenário vivido é próximo ao de uma guerra civil, ainda que paradoxalmente educado, discreto e controlado (ou controlador), quando em meio às eleições presidenciais os concidadãos franceses assistem pela primeira vez na história do país, a vitória da Fraternidade Mulçumana, representada pelo “ponderado” Mohanmed Ben Abbes sobre a Frente Nacional, partido de extrema direita que há muito exercia sua soberania.

O lócus universitário de “Submissão” é definido por personagens intelectuais que discursam naturalmente e com intimidade até nas ocasiões mais banais e nos diálogos informais sobre os teóricos dos quais se especializaram. Há um possível paralelo entre o quê os filósofos e literatos representam na caracterização de cada personagem.

O fato é que, as concretizações com o novo cenário político mudam completamente os planos do professor François – para tomá-lo como exemplo – tanto nas suas relações profissionais, quanto amorosas e existenciais. Aqui, a escolha pessoal parece refém da submissão à soberania prevalecente que é essencialmente teocrática, ao mesmo tempo que é incongruente com a consciência do personagem em vários aspectos.

O curioso é que a mudança não é de todo ruim como era temida, pois o professor François se flagra cada vez mais admirado pelos investimentos financeiros e outros ganhos advindos de sua posição restabelecida – transitando de um intelectual deprimido, mas também altivo, sufocado e entediado por seu próprio conhecimento para um homem igual e paradoxalmente patriarcal, só que, agora, mais despreocupado. Submisso, mas contento.

“Submissão” saiu no Brasil pela Alfaguara, com 256 páginas e preço sugerido R$ 44,90. O belo e discreto projeto gráfico ficou por conta de Alceu Chiesorin Nunes, com tradução de Rosa Freire d’Aguiar.

Bernardo Aurélio
Sou desenhista, criador do Máscara de Ferro e autor do quadrinhos Foices & Facões. Sou formado em história e gerente da livraria Quinta Capa Quadrinhos