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Westworld | Terceira temporada surpreende, arriscando tudo em nova trama

Terceira temporada de Westworld dá um salto de fé e divide seu público, investindo em trama diferente que foge da mesmice de mostrar apenas bandidos e mocinhos trocando tiros no velho oeste.

Terceira temporada de Westworld dá um salto de fé e divide seu público, investindo em trama diferente que foge da mesmice de mostrar apenas bandidos e mocinhos trocando tiros no velho oeste.

Só nos últimos dias de outubro assisti à terceira temporada de Westworld, que estreou ainda em março deste ano. As notícias, à época do lançamento do primeiro episódio na HBO, foram bem frustrantes, pois confirmaram a pior audiência de toda o programa, considerando as duas temporadas anteriores, que sempre tiveram mais de 1 milhão de espectadores por episódio, e o retorno, que deveria ser triunfal, mal alcançou os 900 mil. Sinal ruim!

Lembro que o trailer da terceira temporada foi divulgado pela primeira vez no canal da HBO em meados do ano passado, poucos minutos antes do último episódio de Game of Thrones, e o que vi me deixou bastante empolgado.

Vinha de uma segunda temporada um pouco arrastada, mas que tinha excelentes pontos altos (como o episódio que mostrava, especialmente, a perspectiva dos índios no parque) e ótimos ganchos (como a descoberta que temos sobre o personagem William, de Ed Harris, no último minuto da temporada) que me deixaram com muita curiosidade pelo próximo ano da série, e o trailer que vi me surpreendeu bastante porque mostrava um salto enorme na narrativa da série.

Vimos que Dolores estava agora fora do parque, no mundo real, travando sua guerra contra os humanos em outro patamar. O clima apresentado no trailer, e o design da cidade e da tecnologia, de alguma forma, me lembrou o que vi em Blade Runner 2049. O melhor de tudo é que as expectativas do trailer foram todas atendidas.

A terceira temporada de Westworld é um salto no escuro e foge do jogo seguro do entretenimento de dar, simplesmente, mais do mesmo. A série poderia continuar, durante anos, brincando de gato e rato com humanos e anfitriões em vários parques com temas e monstros diferentes, mas resolveu arriscar e elevar o conceito de manipulação de marionetes para outro nível.

Westworld, na terceira temporada, nos faz dar suspiros de conforto quando vemos as imagens bucólicas do velho oeste das primeiras temporadas contrastando com o vigilante e opressor mundo real.

Para explicar isso, preciso colocar aqui algo que pode parecer um pequeno spoiller, mas, na verdade, é o plot de toda esta nova temporada. Em determinado momento do terceiro episódio, Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood) conversa com Caleb Nichols (Aaron Paul, o Jesse Pinkman de Breaking Bad) e prova para ele que as empesas de tecnologia do mundo coletam informações sobre as pessoas e, com isso, podem prever e controlar suas vidas. Ela traça um paralelo entre os humanos e os anfitriões de Westworld, dizendo algo assim: “Não é sobre saber quem você é. É sobre saber quem eles deixam você ser”. É como se toda a informação de sua vida pregressa formasse um banco de dados que possibilita o roteiro da sua vida, certo determinismo controlado. Dolores diz ainda algo parecido com isso: “Tudo na sua história determina que você irá se suicidar em 10 ou 12 anos. Ninguém investe em um suicida. É por isso que sua vida está estagnada”. Cara!

A série demorou quase dois anos entre a segunda e a terceira temporada e muita gente pode até ter se esquecido de que ela existia, ou não ter gostado da mudança de ares desta nova proposta. Mas se você ainda não assistiu, ou desistiu da série pela metade, recomendo que tire um tempinho e invista neste show.

É claro que nem tudo são flores, alguns episódios são bem lentos, com panorâmicas, câmeras paradas e sons metálicos estranhos como trilha sonora (algo bem ao estilo Blade Runner 2049). Outras coisas são confusas e parecem mal explicadas ou furos no roteiro, até porque a trama é complicada mesmo, mas esta temporada conseguiu dar uma nova perspectiva não só para a série, mas para personagens como a própria Dolores, que eu achava muito chata ao final da segunda temporada e a transformar numa incrível heroína e protagonista.

Outra personagem que mudou bastante foi a Charlotte Hale (Tessa Thompson, a Valquíria dos filmes da Marvel). Se você assistiu à temporada 2 sabe o que acontece com ela e que, definitivamente, não poderia ser a mesma no ano seguinte. Westworld mostrou, com Charlotte Hale, que a mente de qualquer indivíduo é muito sensível e o quanto o corpo interfere em nossa forma de ver e interagir com o mundo. É esse tipo de questionamento que encontramos nas melhores ficções científicas e que aguarda você que ainda não assistiu a esta grande série!

Se a audiência baixou na terceira temporada, a HBO prova que é preciso ousar e abandonar certos conformismos em nome da arte. É empolgante acompanhar isso acontecendo em um programa para o grande público. Aguardando, ansiosamente, a quarta temporada!

Bernardo Aurélio
Sou desenhista, criador do Máscara de Ferro e autor do quadrinhos Foices & Facões. Sou formado em história e gerente da livraria Quinta Capa Quadrinhos