Terça, 10 De Julho De 2018

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Coluna | Quadrinhos, cinema, imagin√°rio coletivo e padr√Ķes (Mal√ļ Fl√°via)

Texto:¬†Mal√ļ Fl√°via
Vou começar esse texto com um trecho narrativo/descritivo, não saia daí!
Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profiss√£o e passara pesadamente a ensinar no curso prim√°rio: era tudo o que sab√≠amos dele. O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contra√≠dos. Em vez de n√≥ na garganta, tinha ombros contra√≠dos. Usava palet√≥ curto demais, √≥culos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atra√≠da por ele. N√£o amor, mas atra√≠da pelo seu sil√™ncio e pela controlada impaci√™ncia que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara.” (trecho retirado de A legi√£o estrangeira., de Clarice Lispector).
Nesse trechinho, um personagem √© apresentado a n√≥s e tem sua apar√™ncia descrita com a apresenta√ß√£o de algumas informa√ß√Ķes. Com certeza, voc√™ imaginou como seria o personagem a√≠ na sua cabe√ßa. Provavelmente, voc√™ imaginou um cara branco, n√£o foi? Embora ¬†essa informa√ß√£o n√£o tenha sido dada, por que assumimos a cor?
Você deve estar se perguntando por que diabos eu estou falando disso e o que isso tem a ver com a cultura pop. Bom, esse é um texto sobre Pantera Negra e eu quero discutir o auê que o filme tem causado: por um lado, celebração por parte do povo negro, por outro, criticas de propaganda social e segregação.
Mas, afinal de contas, o que Pantera Negra tem de diferente que têm causado tanto orgulho em uma parcela da população que vê ali uma representatividade?
Primeiramente, e o fato mais marcante, temos um filme de super her√≥i,¬†blockbuster, milion√°rio, da cultura pop, com elenco majoritariamente negro, com um protagonista negro. As pessoas cr√≠ticas sempre aparecem com um “ah, mas existem diversos outros ¬†super her√≥is negros!” e citam os mesmos nomes de sempre, que s√£o tantos que a lista logo acaba e temos s√≥ essas pequenas participa√ß√Ķes. Destaque-se o fato de que, dos citados, provavelmente nenhum vai ser apontado de pronto por um p√ļblico n√£o consumidor de quadrinhos, ao contr√°rio de her√≥is como o Super-Homem ou o Batman. Filmes com elenco composto de maioria negra tamb√©m encontramos, mas a maioria filmes de nicho, influenciados pela segrega√ß√£o da sociedade americana e direcionados a um p√ļblico espec√≠fico, de fato, o que n√£o os impede de alcan√ßar outros p√ļblicos.
Pantera Negra n√£o. Pantera Negra √© um “filme padr√£o“, para a universalidade de pessoas, por√©m tem sua universalidade de uma cor diferente do habitual. E √© este aspecto que merece destaque: n√≥s temos o homem branco h√©tero como o padr√£o de universalidade na cultura. √Č o nosso comum. √Č o que temos representado quase sempre nas telas e nas p√°ginas:¬†personagens protagonistas, atores e atrizes. E, no nosso imagin√°rio coletivo, as representa√ß√Ķes de personagens seguem esse padr√£o. O que difere disso √© feito de forma a tentar dar exemplo de que a sociedade √© mais diversa, como √© a realidade. E, se n√£o √© feito de forma excelente, vira alvo de acusa√ß√£o:¬†√© s√≥ para agradar as minorias!¬†Convenhamos, as ditas minorias n√£o s√£o minorias num√©ricas e a realidade n√£o vive de ter um elemento diferente s√≥ para dizer. Virou at√© piada os personagens (sempre coadjuvantes,) negros serem os primeiros a morrer nos filmes de terror/horror.
Al√©m disso, Pantera Negra valoriza e mostra um pa√≠s Africano bem sucedido aos olhos do entendimento da “civiliza√ß√£o ocidental”. Para um mundo que consome cultura europeia e norte-americana como auge do desenvolvimento, parece at√© estranho ver nas telas Wakanda, com suas tecnologias e arquitetura toda baseada na est√©tica de culturas africanas. √Āfrica t√£o distante de n√≥s que at√© mesmo tratamos todo um continente como se fosse um pa√≠s, ignorando suas particularidades e diversidade. Sempre retratada como fonte de sofrimento, pobreza, mis√©ria, conflitos. Wakanda n√£o √© isso, embora a trama n√£o ignore os efeitos que a coloniza√ß√£o causou no continente e fa√ßa a reflex√£o: por que deixamos isso acontecer?


Ent√£o: sim, Pantera Negra √© um filme que, mesmo que n√£o fosse essa a inten√ß√£o, diante da car√™ncia, promove representatividade. Mas o que √© mesmo essa representatividade que tanto falam? √Č bem simples:¬†√© a possibilidade de ver pessoas que apresentam elementos com os quais voc√™ se identifica nos espa√ßos de poder (entenda poder de forma ampla, n√£o apenas pol√≠tico). Por que isso √© importante? Porque nos ajuda a nos entender enquanto pessoas plenas, capazes de almejar e sonhar visualizando nossos semelhantes. Se uma menina negra no Brasil v√™ sempre as mocinhas nas novelas sendo brancas, as princesas da Disney brancas e as empregadas dom√©sticas sempre negras, o mundo que √© pintado no seu imagin√°rio √© de que o seu lugar no futuro √© o de ser empregada dom√©stica (e aqui eu n√£o estou querendo desmerecer a profiss√£o de forma alguma, pois toda e qualquer profiss√£o √© digna. Infelizmente, por√©m, no nosso pa√≠s, apenas algumas s√£o valorizadas e devidamente remuneradas). Para quem sempre teve representatividade em abund√Ęncia, causa espanto as rea√ß√Ķes ao filme, mas √© um momento importante para praticar a empatia e tentar entender que o mundo n√£o √© cor-de-rosa para todos e alguns enfrentam tanta dificuldade que at√© se ver em um filme √© algo diferente. E isso j√° basta para fazer de Pantera Negra um filme sensacional.
Grupo indo assistir Pantera Negra (Twitter)

 
Mas ra√ßa n√£o √© biologia; ra√ßa √© sociologia. Ra√ßa n√£o √© gen√≥tipo; √© fen√≥tipo. A ra√ßa importa por causa do racismo. E o racismo √© absurdo porque gira em torno da apar√™ncia. N√£o do sangue que corre nas suas veias.‚ÄĚ (trecho retirado de uma fala da personagem Ifemelu, do livro Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie)B.C

Quem é PikachuSama

Editor de Contéudo deste site. Eu não sei muita coisa, mas gosto de tentar aprender para fazer o melhor.

 

  

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