Terça, 04 De Dezembro De 2018

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Tchekhov: Modo De Usar

Eu sei, eu sei: você, caro leitor, chegou ao texto ansioso por um ensaio provocador e audacioso que relacionasse nosso amigo russo Anton à obra de Georges Perec. Mas não alimento tamanha ousadia (ainda).

Por ora, busco t√£o somente instiga-lo a conhecer melhor o homem que elevou o estilo narrativo do conto a outro patamar e se disp√īs a escrever de modo lapidar, construindo textos com a precis√£o exata de cada palavra acolhida.

Nascido Anton Pavlovitch Tchekhov em 1860, numa pequena cidade ao sul da R√ļssia. Cresceu sob o julgo paterno at√© os 16 anos, quando a fam√≠lia se mudou para Moscou o deixando na cidade de Taganrog por mais tr√™s anos, a afim de que conclu√≠sse seus estudos ginasiais.

Foi ali o despertar do escritor. Meteu-se a escrever em profusão não apenas acertos literários, mas pequenas peças dramáticas, alimentando seu pendor pelo teatro (neste gênero, Tchekhov escreveria textos que se tornaram verdadeiros clássicos como A Gaivota e As Três Irmãs). Quando prestou vestibular para medicina, aos 19 anos, já ensaiava estilo próprio.

A prosa de Tchekhov procura alinhar uma objetividade narrativa com o desnudamento das motiva√ß√Ķes interiores de cada personagem. Destacando tipos mi√ļdos do cotidiano russo, servos, pequenos comerciantes, funcion√°rios do baixo escal√£o burocr√°tico, o autor revelava medos e receios que povoavam o psicol√≥gico de seres demasiadamente humanos. Certa vez, discorrendo sobre sua forma de escrita, disse:

‚ÄúMeu objetivo √© matar dois p√°ssaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim, como √© desconhecida por todos n√≥s‚ÄĚ

Nas palavras de Elena V√°ssina, Anton n√£o se acha pregador da verdade, nunca sugere solu√ß√Ķes para os problemas t√£o dif√≠ceis da vida, por isso, muitas obras n√£o t√™m desfecho, terminam em retic√™ncias, como o fluxo natural da vida. Tchekhov √© um daqueles escritores que detesta colocar os pingos no ‚Äúis‚ÄĚ, acreditando que a liberdade da interpreta√ß√£o de texto √© um privil√©gio sagrado de cada leitor, participante ativo no ato da cria√ß√£o liter√°ria.

Tendo enveredado pelos mais diferentes estilos, Tchekhov √© um autor que merece tempo e aten√ß√£o para ser apreciado da melhor forma. Felizmente, h√° muitas op√ß√Ķes de pre√ßos e formatos dispon√≠veis nas livrarias para o leitor brasileiro conhecer sua genialidade na pr√°tica, em especial sele√ß√Ķes variadas de contos.

Dito isto, aponto a seguir algumas sugest√Ķes de leitura que perpassam seu trabalho tanto sob o espectro da prosa, seja curta ou longa, como a faceta jornal√≠stica, pouco exaltada, mas que merece igual aten√ß√£o. Vamos aos livros.

.A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias (editora 34, 368 páginas, preço sugerido R$ 64,00): Os contos breves, precisos e tocantes de Anton Pavlovitch Tchekhov revolucionaram a maneira de escrever narrativas curtas, tornaram-se mundialmente conhecidos e influenciaram os principais escritores que se dedicaram ao gênero depois dele. Grande parte da originalidade de Tchekhov reside no papel fundamental que desempenham, em suas histórias, a sugestão e o silêncio, a ponto de, muitas vezes, o mais importante ser justamente o que não é dito.

Esta √© uma colet√Ęnea de trinta e seis de seus melhores contos, selecionados e traduzidos diretamente do russo por Boris Schnaiderman, que assina tamb√©m o posf√°cio e as notas √† edi√ß√£o. De “Nos banhos” (1883) a “A dama do cachorrinho” (1899), que d√° t√≠tulo ao livro e encerra o volume, o leitor poder√° acompanhar o desenvolvimento da arte deste escritor que sempre colocou o homem como centro de suas preocupa√ß√Ķes, e que via na literatura um instrumento para sua emancipa√ß√£o.

.A Estepe (História de Uma Viagem) (Companhia das Letras-Penguin, 144 páginas, preço sugerido R$ 29,90): Com esta obra, pela primeira vez Anton Tchékhov, aos 28 anos e já com vasta quilometragem como colaborador de jornais e revistas literárias, tentou produzir uma narrativa mais extensa. Tarefa desafiadora, mas, como se lê hoje, bem-sucedida.

O subt√≠tulo parece sintetizar a situa√ß√£o central: a viagem de um menino que parte para estudar em outra cidade e, para isso, percorre por alguns dias a vasta estepe russa. Mas tamb√©m apresenta o car√°ter m√ļltiplo do texto: um relato da experi√™ncia, uma narrativa ficcional, um estudo de tipos humanos, a pintura da natureza, al√©m de retratos das atividades econ√īmicas, das rela√ß√Ķes sociais e das mudan√ßas de comportamento em curso.

.A Ilha de Sacalina (editora Todavia, 368 p√°ginas, pre√ßo sugerido R$ 69,90): At√© ent√£o in√©dito no Brasil e publicado pela primeira vez esse ano, trata-se de uma contundente den√ļncia do sistema prisional russo do s√©culo XIX e um feito liter√°rio impressionante. Conta com tradu√ß√£o de Rubens Figueiredo.

O jovem m√©dico Anton Tchekhov empreende uma viagem at√© os confins da R√ļssia para documentar as terr√≠veis condi√ß√Ķes de vida dos condenados a trabalhos for√ßados em uma ilha-pres√≠dio. Uma jornada extenuante e quase fatal que o fez regressar com um dos textos mais impressionantes da literatura de n√£o fic√ß√£o em todos os tempos. A den√ļncia de um lugar onde pessoas eram descartadas. O relato de um inferno ‚Äď cercado de √°gua, frio e desumanidade por todos os lados.

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