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Burocracia, Horror e Forma em “Na Colônia Penal”, de Franz Kafka

A leitura de Franz Kafka é sempre uma experiência a qual é impossível ficarmos indiferentes. Em seus textos, encontramos o fetichismo do horror (banalizado, diga-se) percorrendo as páginas, despertando no leitor sentimentos contraditórios de repulsa e obsessão, tal a vontade de sabermos o desdobramento da trama proposta. Também é comum haver um vórtice de processos e procedimentos a arrastar os indivíduos, a tudo alheios, pois a força da bestialidade burocrática é irreversível e costuma incluir a punição por algo desconhecido mas alegado como verídico.

Mostras definitivas desse apelo narrativo se encontram na novela “Na Colônia Penal“, que ganhou sua melhor edição brasileira pela editora Antofágica. Ilustrada por Lourenço Mutarelli e com textos acessórios que aprofundam e perscrutam diversas abordagens da trama, apresenta a história de um visitante estrangeiro em certa ilha de desterrro que acompanha o ritual punitivo provido por uma estranha máquina.

O “aparelho peculiar” grava a sentença no corpo do condenado de forma intermitente por longas 12 horas, executando-o no final. Um oficial acompanha o visitante e explica com minuciosos detalhes o funcionamento da fera mecânica, na esperança de convencê-lo de sua eficácia e importância. Afinal, o novo comandante da Colônia apresenta crescente resistência à sua manutenção, o que colocaria a opinião do estrangeiro como fiel da balança na formação de seu juízo.

O choque entre a barbárie e a civilização que chega de passagem cresce de forma angular, à medida que um procura instruir o outro da necessidade de sua permanência. Seria possível a omissão do visitante ou imiscuir-se de forma ativa é uma demanda peremptória da humanidade que o habita? O autor nos coloca dilemas centrais figurados na ideia de que a justiça e a lei só se aplicariam efetivamente pelo uso da violência. E também: a autoridade só se firmaria pela presença do medo?

São questões que movem profundos debates filosóficos, jurídicos, políticos. E que estão exemplarmente esmiuçados na obra de Franz Kafka. Eis, pois, a marca do gênio.

Na Colônia Penal, de Franz Kafka
Tradução de Petê Rissatti
Editora Antofágica
216 páginas
R$ 59,90
Rafael Machado
Parnaibano, leitor inveterado, mad fer it, bonelliano, cinéfilo amador. Contato: rafaelmachado@quintacapa.com.br