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“Desconstruindo Una”: o peso grande do balão de fala vazio

"Desconstruindo Una" evidencia o silenciamento que atinge as mulheres cotidianamente.
Descontruindo Una
Reprodução

 

Ler “Desconstruindo Una”, obra da quadrinista inglesa Una, publicado em 2016, pela Editora Nemo, é lidar, junto com a protagonista, com o silenciamento e a carga de ser uma mulher em (des)construção em cenários micro e macro, quase sem escapatória, quase que obrigatoriamente. Isso porque, junto às vivências de Una como uma menina adolescendo e lidando com os traumas advindos das violências cotidianas que sofreu, acompanhamos o desenrolar das investigações sobre um assassino em série de mulheres (comparado a Jack, o estripador), que aterrorizava o lugar onde ela morava, o condado de West Yorkshire, na Inglaterra,  na metade final da década de 70, e a tão frequente culpabilização das vítimas que vemos acontecendo até hoje em casos que envolvem crimes de homens contra mulheres. Para onde se escapa quando o medo está no universo mais particular, mas também está no universo mais amplo?

Página dupla do livro "Desconstruindo Una", que apresenta a protagonista em diversas etapas de crescimento. Há a presença de quatro balões de fala com os seguintes textos: "Eu cresci sabendo que precisava tomar cuidado ou o estripador me pegaria"; "Eu cresci sabendo que eu não tinha tomado cuidado o suficiente, então o estripador poderia querer me pegar ainda mais"; "Porque coisas ruins"; "Não acontecem com boas pessoas".
Fonte: Desconstruindo Una, p. 144-145

Desconstruir é isso mesmo: desfazer para reconstruir. Una vai se desfazendo (ou sendo desfeita) sob nossos olhos, vai sofrendo as metamorfoses do existir mulher, lidando com as forças da sua natureza, refletindo sobre si e sobre o que está ao redor, se reconstruindo nesse processo, sofrendo as baixas trazidas pelo trauma e pelo fato de viver numa sociedade machista. O tempo todo sendo destruída e se reconstruindo.

Página dupla do livro, com representações de dois insetos com características antropomorfizadas. Abaixo da primeira, está a frase "Meu corpo estava mudando". Abaixo da segunda imagem, está a frase: "Minhas asas não parecem funcionar muito bem. Talvez elas sejam apenas decorativas?"
Fonte: Desconstruindo Una, p. 40-41

Nada é linear, nada é resolvido e perene em “Desconstruindo Una”. As escolhas verbo-imagéticas da autora mostram isso na variedade de tipos de imagens (traços mais simples às vezes, complexos outras tantas) que conduzem a narrativa e nas palavras que, muitas vezes, não seguem em linha reta, mas se adaptam às imagens, obrigando o leitor a mudar suas perspectivas de leitura para acompanhar o fluxo, para ver lados outros.

Página do livro "Desconstruindo Una", em que há a imagem da protagonista sentada, com sua silhueta circundada pelo seguinte texto: "Mais ou menos um ano depois, dois homens apareceram na nossa frente quando montávamos barracas. Eles fizeram com que nos sentíssemos muito adultas. Achei que iríamos nos beijar! Que empolgante! Um homem mais velho estava interessado em mim! Logo descobri... Eu não tinha realmente entendido a situação."
Fonte: Desconstruindo Una, p. 34

Nas sutilezas das linguagens verbal e imagética, Una vai nos permitindo construir os paralelos necessários para que sua história também nos desconstrua, nos fazendo questionar se a mesma sociedade que maltrata mulheres em doses homeopáticas, todos os dias, nas coisas mais prosaicas, não é a mesma que dá sustentação para a existência de um assassino de mulheres, o qual gera curiosidade e certo fascínio, enquanto as vítimas têm suas perscrutadas e sua moral questionada. Essas duas narrativas que seguem se entrecruzando, reais e vividas ou conhecidas pela autora, são perpassadas por reflexões baseadas em evidências, fatos e estatísticas documentados, que fazem com que o leitor perceba a história de Una ainda mais aproximada às histórias das vítimas do assassino e mais aproximada às histórias de tantas e tantas mulheres. Nesses momentos, “Desconstruindo Una” é didático e crítico de uma maneira pertinente e necessária para que percebamos estar diante de algo que não é ficcional nem restrito a acontecimentos fortuitos e distantes: a integridade física, mental e emocional das mulheres está sob ameaça todos os dias, em contextos diversos, em épocas diversas.

Página do livro, que apresenta a seguinte composição: texto "Falar é bom, mas agir é melhor. No Reino Unido e pelo mundo, o grosso desse trabalho é feito por grupos de mulheres que reúnem fundos e vontade para administrar centros de apoio a vítimas de estupro, abrigos e serviços de orientação legal"; imagens de maços de dinheiro; texto "Elas precisam lutar para conseguir recursos, mas ainda conseguem proporcionar um consistente e necessário acesso à justiça, além de suporte prático e emocional"; balão de fala "Quando nem sua família te protege, quem vai te proteger?"; ilustração que apresenta uma mulher em um escritório com elementos pela metade; fala da mulher "É minha vez de sentar na cadeira hoje?"; texto "O apoio adequado após um ataque reduz o trauma e ajuda vítimas de crimes violentos a se recuperarem, então viabilizar os serviços para a mulher de forma apropriada economizaria dinheiro no fim das contas."; "As pessoas do Reino Unido não têm pouco dinheiro. Elas estão entre as pessoas mais privilegiadas do mundo, tendo desfrutado décadas de paz e prosperidade, então é estranho que elas negligenciem serviços tão essenciais."; "É de se esperar que estivéssemos interessados em pegar criminosos, mas faz tempo que achamos difícil estabelecer nossas prioridades"; ilustração de um palácio.
Fonte: Desconstruindo Una, p. 129

“Desconstruindo Una” é, assim, de fato, um convite à transmutação de silenciamentos e traumas pelo mergulho em uma história que, sendo de uma mulher só, encontra e causa identificação em tantas outras vidas cansadas de carregar tantos não ditos cotidianos.

 

Leila Alexandre
Professora de Linguística com cada vez mais pés na literatura. Atualmente desenvolvendo estudos sobre a leitura de livros ilustrados e quadrinhos sem palavras.