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Hugo Pratt Retrata o Homem Entre o Dever e a Existência na Guerra em “Morgan”

Em tempos de guerra, o militarismo, forjado na disciplina e no senso de dever, abraça toda uma cadeia de estratégias e planos de ação que escapam da grande massa de soldados, destinados a obedecer. Pobre daquele que, por vezes, busca compreender o sentido de suas missões: chega à conclusão miserável contida na frase “Mas que diabos estou fazendo aqui?”. Hugo Pratt explora os horrores da guerra na consciência humana ao nos apresentar Morgan”, seu último trabalho publicado em vida e que chega ao Brasil pela editora Trem Fantasma.

O tenente Morgan, que integra a Marinha inglesa durante a 2º Guerra Mundial, cumpre com presteza e zelo as missões que lhe são atribuídas. Ainda que se sinta pouco aproveitado, agindo como “um carteiro” ao transportar agentes e documentos de um ponto ao outro, em torno do Mar Adriático, se abstém de qualquer embate com seus superiores. Mas seus pensamentos estão além da obediência fardada. Não por acaso, ao menor indício de necessidade, Morgan ignora as ordens e vai a campo, como se o perigo iminente trouxesse o sangue de volta às suas veias.

Página interna de “Morgan” Todos os direitos reservados a editora Trem Fantasma.

Pratt elabora uma trama enxuta, com poucos personagens, que eventualmente reencontram-se ao longo do tempo, marcados pelo destino irremediável. É entre mudanças de patente e aventuras inauditas que Morgan transita, consternado com alianças complexas, missões estúpidas e mal planejadas, traições e canecas de chá. São elas que o consolam, olhar no horizonte, e o pensamento nas vidas que se perdem num conflito que nunca chega ao fim.

O traço sintético de Hugo Pratt pouco revela das expressões faciais, embora seja detalhista com cenários, retratando Veneza, por exemplo, com o esplendor próprio da cidade. O preto e branco resguarda a narrativa em sua proposta de um recorte miúdo, peculiar, centrado num homem que anota com economia de sensações em seu diário os passos dados num campo de batalha que o constrange, que não é seu, e nunca será. Nunca.

Capa da edição de “Morgan” lançada pela editora Trem Fantasma.

 

Rafael Machado
Parnaibano, leitor inveterado, mad fer it, bonelliano, cinéfilo amador. Contato: rafaelmachado@quintacapa.com.br