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Resenha | Diário da Queda, de Michel Laub

Certos livros não são presas fáceis para o leitor; o desafiam a enredar-se na espiral de suas tramas carregadas de sentido. É o caso deste brilhante trabalho de Michel Laub, escritor nascido em Porto Alegre e radicado em São Paulo. Diário da Queda (Companhia das Letras, 151 páginas, preço sugerido R$ 42,90) me impressionou muito: longo monólogo de um narrador anônimo que se propõe a passar sua vida a limpo, tendo como ponto de inflexão pessoal um acidente ocorrido aos 13 anos na festa de aniversário de um amigo e que o marcaria profundamente, influenciando suas escolhas a partir de então, enquanto paralelamente discorre sobre a trajetória de seu avô, um judeu sobrevivente de Auschwitz que veio para o Brasil após a 2º Guerra Mundial recomeçar a vida.

Diário da Queda foi lançado originalmente em 2011.

As implicações dessa experiência traumática reverberaram na história familiar por gerações, como se pode imaginar, e o confronto do narrador com essa “herança” impulsiona o relato à medida que conhece a fundo detalhes que lhe foram sonegados em sua infância e como se relaciona com ela ao longo da vida frente aos seus próprios fantasmas.

A história vai se revelando por camadas, três gerações de judeus se intercalando em suas venturas pela capital gaúcha e além, cada um lidando à sua maneira com os eventos do passado de maneira silenciosa, o peso da consciência dando a tônica num texto que engana o leitor em suas certezas da trama a cada página virada. A própria queda destacada no título, e que se refere ao evento da juventude do narrador, se mostra enganosa em sua importância, sendo mais uma alavanca que move o sublinhado nas relações dele com seu pai e de seu pai com a memória de seu avô. O diário de uma realidade inventada se alterna com notas e as lembranças e percepções do narrador, que procura ordenar seu raciocínio tendo em vista algo que só se revela no último parágrafo. Partimos de um impacto na abertura sobre a barbáries dos campos nazistas de concentração para o toque mais comovente da vida ao fim.

Você precisa ler para saber, pensei, quando me dispus a comentar o livro para uma amiga. Lógico, poderia fazer um breve resumo da história e dizer do que ela trata, em linhas gerais; mas sempre que eu buscava elaborar melhor o que dizia, sentia que algo me escapava.

O escritor e jornalista Michel Laub.

Na tentativa de definir e prender com palavras o senso que o livro me despertou, procurei outras resenhas a respeito dele. Falam de estrutura narrativa, da vocação histórica que o permeia sintetizada nas referências reiteradas ao clássico de Primo Levi É Isto Um Homem?; citam filosofia ao fundo e abordam a própria temática judaica com uma lucidez invejável. É quando compreendo que meu embaraço é insuperável: a sensação desperta pelo romance não cabe em língua alguma, pois deriva justamente dos silêncios que permeiam as relações traçadas.

Sim, o judaísmo, Auschwitz, experiências traumatizantes e memória e o peso das escolhas são temas essenciais no texto de Laub. Mas ao fim e ao cabo, são as composições humanas que o fundamenta, justifica e expande. Os personagens com suas histórias, suas falhas e propostas; o ser humano retratado nos diálogos dispersos, nas oportunidades perdidas; nos desejos mal resolvidos e, acima de tudo, nas soluções desesperadas que movem cada um sem que os demais ao redor percebam, numa espécie de jogo deliberado em que cada culpa tem sua raiz e os espaços se tornam sufocantes para que permaneçam juntas. Quebras que teimam em manter continuidades.

É uma obra de impacto, que acompanha o leitor por dias quase inconscientemente, intimando sua humanidade a se manifestar frente as violências diárias que testemunhamos sem reação.

As memórias do meu avô podem ser resumidas na frase como o mundo deveria ser, e daria até para dizer que as do meu pai são algo do tipo como as coisas foram de fato, e se ambos partem do mesmo tema, a inviabilidade da experiência humana em todos os tempos e lugares, (…) é impossível falar sobre os dois sem ter de também firmar uma posição a respeito, o fato é que desde o início escrevo este texto como justificativa para essa posição (p. 146)

Rafael Machado
Parnaibano, leitor inveterado, mad fer it, bonelliano, cinéfilo amador. Contato: rafaelmachado@quintacapa.com.br