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Resenha | Mister No: Revolução – Vietnã (Masiero & Cremona)

Desilusão, melancolia e os horrores da guerra norteiam o primeiro volume de Mister No: Revolução. Mostrando as chagas do Vietnã e o momento de transformação e contestação da sociedade norte americana, o álbum que reimagina o anti herói Jerry Drake, avatar de Sergio Bonelli, apresenta uma trama simples, brutal e tocante.

Ler Mister No: Revolução me fez acionar uns gatilhos psicológicos. Como fruto da geração que cresceu na década de 1990 (sou de 1988), filmes que tratavam sobre o Vietnã eram de fácil acesso para quem curtia tramas de guerra. Mas, mais do que debater esse conflito, os filmes que eu assistia pareciam querer exorcizar o que foi o conflito que envolveu a maior potência pós-Segunda Guerra Mundial e um pequeno país asiático que enfrentou a máquina militar americana entre 1955 e 1975.

Muito pelo gosto de meu pai por filmes de guerra, cheguei a ver filmes na infância que tratavam de forma visceral o conflito motivado por tentar barrar o chamado avanço do comunismo no mundo (vamos já voltar a esse tema). E Mister No: Revolução me fez sentir uma necessidade urgente de entender aquele sentimento de agonia ao encarrar a derrota da América do Norte, me levando aos vários filmes do período pós-conflito.

Só para citar o que revistei desde que li o primeiro volume da reimaginação de Mister No: Nascido em 4 de julho, Platoon e Nascido para Matar.

Sim, obras pesadas que encaram a guerra como ela foi: uma matança sem sentido, levando jovens que não sabem porque estão ali para um país que não tem o mínimo de interesse estratégico, apenas para vencer o “mal do comunismo” (olha ele aí de novo), um inimigo que, norteador da Guerra Fria, justificava intervenções em território alheio para evitar que países caíssem nas mãos desse inimigo invisível, na maior parte do tempo.

Imagem de Nascido em 4 de julho
Willam Dafoe e Tom Cruise são dois soldados americanos com cicatrizes permanentes da guerra, no filme de Oliver Stone, Nascido em 4 de julho.

E é aqui que o volume primeiro de Mister No: Revolução acerta e erra ao mesmo tempo. Acerta por nos colocar no meio do conflito do Vietnã, com sua guerra sem sentido e atrocidades sem motivação ocorrendo. Erra ao não ser o personagem principal, o motor da história, sempre sendo levado pelas mãos de terceiros, sendo basicamente um figurante na sua própria jornada.

Primeiro, é melhor explicar, para quem caiu de paraquedas nessa reimaginação de um famoso personagem Bonelli, quem é Mister No. Mister No é Jerry Drake, piloto da Segunda Guerra Mundial, que, após encarar grande decepção e desilusão com o conflito, vai para a América Latina, em especial, o Brasil, onde trabalha como aviador na região amazônica, na sua maioria das vezes.

Criado por Sergio Bonelli (com pseudônimo de Guido Nolitta), Mister No é um reflexo da fascinação que seu criador sentiu ao conhecer a Amazônia.

Aventureiro, mulherengo e contestador, o personagem vive um momento único no mercado nacional. É publicado por 3 editoras diferentes simultaneamente, fato a ser louvado, haja vista que a Editora 85 publica as edições especiais do personagem, a Red Dragon Publisher voltou com as edições regulares italianas, em um volume com quatro edições, e, nessa edição aqui debatida, a Panini trouxe os álbuns europeus que reinventam o personagem, tendo publicado, até o momento desse texto, duas edições (Vietnã e Califórina).

Mister No Especial 01 - Editora 85
Em 2018, Mister No volta ao Brasil, sendo resgatado pela Editora 85.

Com essa grande introdução, mostrando quem é o personagem e como acompanho desde cedo a produção cinematográfica americana quando se trata do Vietnã, é que cabe debater o primeiro volume de Mister No: Revolução.

Como afirmei anteriormente, ler o álbum despertou vários gatilhos, me fazendo revisitar filmes sobre o Vietnã, me fazendo até mesmo refletir melhor sobre essa reimaginação do personagem Bonelli.

Sai de cena o piloto da Segunda Guerra Mundial e entra o jovem Jerry Drake na América da década de 1960, onde ele vai ter um encontro com o amor, desilusão e a guerra, sintetizando tudo o que esse período é para a América hippie e contestadora, mas militarista, do final da década dos anos 1960.

Mister No revolução Vietnã
De Andy Warhol a Bob Dylan. A efervescência da década de 1960 está bem representada aqui.

Aqui entra o ponto negativo do álbum. Jerry é mais levado pelos personagens e os acontecimentos do que conduz a trama. O seu interesse amoroso, a problemática Maryann, é mais o que faz a trama girar do que ele mesmo, já que nela vemos várias das angústias dos jovens daquela época: abandono, medo da guerra, consumo de drogas, amor livre e contato com pessoas que questionam o sistema.

O mesmo pode-se falar na parte onde o quadrinho trata da guerra. Novamente, o batalhão de Drake, as atrocidades do conflito e o sofrimento são sentidos na pele por outros, no caso, pelo seu batalhão, fazendo novamente com que seu personagem principal seja mero expectador.

Arte de Cremona
A selva, os helicópteros e os jovens soldados são figuras constantes em qualquer obra que trate sobre o Vietnã. E não poderia faltar aqui.

Mas, se o personagem principal não toma as rédeas de sua própria história, Mister No: Revolução tem elementos que fazem isso por ele. Sim, o ambiente da guerra e da América desiludida já fazem valer a leitura dessa edição que é muito bem escrita por Michele Masiero. O leitor pode sentir os percalços que todos os personagens enfrentam e sofrem ali.

Junto aos desenhos de Matteo Cremona, com as cores de Luca Saponti e Giovanna Niro, que empregam um tom bastante claro, dando a ideia de calor na selva, e cinza nas cenas da cidade de Nova York, dando o tom do humor e dos acontecimentos pelos quais passavam a sociedade americana, Mister No: Revolução vai nos levar a uma América que não sabia para onde ir, instigando uma guerra que não era dela, enquanto seus jovens contestavam os comportamentos e o conflito sem sentido.

Mister No Revolução.
A guerra e a desilusão andam lado a lado nesta história de reimaginação de Mister No.

A edição da Panini está muito boa, contando com as duas edições italianas que fecham o arco do Vietnã de Mister No. Contanto com um posfacio de Gianmaria Contro, com várias explicações, citações do período e reflexões, faz gosto saber que a editora Panini investiu justamente nessa coleção para publicar material Bonelli, junto com Deadwood Dick (vamos falar dessa edição outra hora).

É uma pena que não conte com uma biografia dos criadores no álbum.

Mister No: Revolução
Mister No: Revolução é um ótimo ponto para novos leitores serem apresentados para uma reimaginação de um clássico personagem Bonelli.

Mesmo que Jerry Drake, o Mister No, seja um mero expectador de sua história, Mister No: Revolução é daqueles quadrinhos que vai ativar vários gatilhos para aqueles que já tiveram contato com produções que envolvem a guerra do Vietnã, servindo também para apresentar um personagem clássico do quadrinho italiano, enquanto mostra aos que não conhecem os horrores da guerra no sudeste asiático que foi promovido pelos EUA.

Um excelente álbum e ponto de partida para antigos e novos leitores da criação de Sergio Bonelli (Guido Nolitta).

Ficha Técnica

  • Capa dura, com 144 páginas;
  • Editora Panini;
  • Lançamento em agosto de 2019;
  • Preço de capa: R$ 55,00;
  • Tamanho: 22 x 30 cm.
  • 8/10
    Roteiro - 8/10
  • 9/10
    Desenhos - 9/10
  • 9/10
    Narrativa - 9/10
  • 9/10
    Edição Nacional - 9/10
8.8/10

Summary

O que teria acontecido se o anti-herói criado pela fantasia de Guido Nolitta (Sergio Bonelli) tivesse nascido 25 anos depois do que aponta a sua biografia oficial? Ele teria sido um adulto jovem na Nova York do final dos anos 1960, parte de uma geração que tinha vontade de mudar e que erguia a voz para se fazer ouvir. Teria sido um soldado no Vietnã e, sentindo na própria pele os horrores de uma guerra suja e incompreensível, o jovem Jerry Drake teria dado lugar ao homem Mister No. Ele poderia não ter feito a revolução, mas teria se envolvido até o pescoço.

Thiago Ribeiro
Thiago de Carvalho Ribeiro. Apaixonado e colecionador de quadrinhos desde 1998. Do mangá, passando pelos comics, indo para o fumetti, se for histórias em quadrinhos boas, tem que serem lidas e debatidas.