Terça, 18 De Dezembro De 2018

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A Atualidade d’ “As Portas Da Percep√ß√£o”, de Aldous Huxley

Texto escrito a convite da coluna por Thiago Meneses Alves*

 

‚ÄúSe as portas da percep√ß√£o estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como √©: infinito‚ÄĚ. (William Blake)

Estava voltando para o Brasil m√™s passado de uma viagem intercontinental que me custaram umas boas 48 horas em tr√Ęnsito. Nestas oportunidades aproveito sempre para ler alguma coisa que est√° na minha lista h√° muito tempo. Ou ent√£o reler algum livro que marcou a exist√™ncia.

No ano passado fiz isso com o cl√°ssico de Stephen Zweig ‚Äď Brasil, pa√≠s do futuro. Trata-se de um relato comovente e generoso ‚Äď ing√™nuo, alguns diriam ‚Äď sobre o nosso pa√≠s. Dessa vez, a obra eleita foi As portas da percep√ß√£o, do genial Aldous Huxley, autor que, junto com George Orwell e o seu 1984, escreveu uma das mais incr√≠veis distopias do s√©culo XX: Admir√°vel mundo novo.

Publicado pela primeira vez em 1954, As Portas da Percepção trata de uma temática que, não obstante o caráter ancestral na humanidade, ainda é muito pouco compreendida: a expansão da consciência sensorial a partir da utilização de drogas.

No caso específico de Huxley, essa experiência se deu a partir da mescalina, uma solução derivada de um cacto de onde também é retirado o peiote, utilizado em rituais de transe pelos nativos mexicanos desde muito antes da chegada de Colombo ao continente. De modo supervisionado, Huxley descreveu para uma equipe de profissionais os efeitos causados na sua percepção sensorial da realidade objetiva após ingerir a mescalina.

O que o autor sustenta √© que mais do que uma abstra√ß√£o pura e simples, uma ‚Äúfuga da realidade‚ÄĚ, a utiliza√ß√£o da mescalina serviu, pelo contr√°rio, como um catalisador da percep√ß√£o desta realidade. Cores, formas e perspectivas muito mais n√≠tidas. Particularmente emblem√°tica √© a descri√ß√£o de uma simples cadeira por Huxley sob efeito da subst√Ęncia.

As cita√ß√Ķes √†s¬†Portas da Percep√ß√£o¬†√© comum na cultura pop. No v√≠deo,¬†A Marchinha psic√≥tica de Dr. Soup, um dos maiores sucessos de J√ļpiter Ma√ßa, refer√™ncia da psicodelia brasileira.

‚ÄúAbrindo as portas da percep√ß√£o‚Ķ O tal de Aldous Huxley de cara ficou doid√£o?‚ÄĚ

O que me parece importante sublinhar após essa segunda leitura do livro é: mais do que uma apologia pura e simples às drogas, a obra configura, na verdade, um tratado complexo sobre as potencialidades da percepção humana, muitas vezes aprisionada por condicionamentos morais.

Na esteira do pensamento de autores como Willian Blake e estudiosos como Carl Jung, Huxley argumenta essencialmente que a nossa percep√ß√£o sensorial capta uma parcela √≠nfima do que, de fato, seja a realidade objetiva. Esta configura√ß√£o seria fruto de um controle exercido pelo c√©rebro humano, que filtraria o volume de informa√ß√Ķes que a realidade objetiva emana ‚Äď cores, sons, formas, matizes, etc. Em √ļltima an√°lise, estas opera√ß√Ķes cerebrais serviriam como um mecanismo de controle da mente.

Se exposto ao bombardeamento do manancial praticamente infinito de possibilidades sensoriais da realidade objetiva, o ser humano n√£o seria capaz de processar fun√ß√Ķes simples que exigem a concentra√ß√£o, j√° que ficaria atordoado pela quantidade de informa√ß√Ķes. Isso fica particularmente ilustrado no relato de Huxley sobre a cadeira: o desinteresse pela fun√ß√£o objetiva de um determinado objeto, completamente subordinada √† dimens√£o contemplativa.

Assim, a utiliza√ß√£o da mescalina configura o canal pelo qual o autor dribla a rigidez do filtro cerebral, extravasando as fronteiras delimitadas por este √ļltimo e adentrando na paisagem mental ambientada em f√°bulas como Alice no Pa√≠s da Maravilhas (Lewis Carrol) ou a anima√ß√£o Fantasia (Walt Disney). Eis, portanto, a met√°fora da ‚Äúabertura‚ÄĚ das portas da percep√ß√£o.

Por√©m, Huxley deixa claro que n√£o s√£o apenas as drogas psicod√©licas que permitem ‚Äúabrir‚ÄĚ as portas da percep√ß√£o. Medita√ß√£o, hipnose, entre outros procedimentos, tamb√©m promoveriam o alcance de tal est√°gio. Al√©m disso, alguns indiv√≠duos nasceriam j√° com estas capacidades.

No fundo, a expans√£o de consci√™ncia sensorial descrita nas Portas corresponde √† expans√£o de consci√™ncia num sentido mais amplo. Obviamente, se feita com a modera√ß√£o, parcim√īnia e equil√≠brio que uma experi√™ncia do g√™nero requer. Afinal de contas, exemplos n√£o faltam de pessoas que extravasaram o limite ‚Äď nem sempre t√£o claro ‚Äď da expans√£o mental sadia via experi√™ncia psicod√©lica e a loucura. Syd Barrett, lenda do Pink Floyd, √© um dos casos mais conhecidos na cultura pop.

 

O legado das Portas da Percepção e a sua atualidade.

Assim como as obras dos autores pertencentes √† Beat Generation, o livro est√° diretamente associado √† emerg√™ncia da contracultura estadunidense em meados dos anos 60. Esta, por sua vez, est√° bastante associada √†s experimenta√ß√Ķes de todo o g√™nero, incluindo, claro, o uso de drogas.

Contudo, e assim como a produ√ß√£o da beat generation, as Portas emanam um argumento que extravasa a apologia pura e simples ao uso de subst√Ęncias psicoativas. √Č, sobretudo, um livro sobre a percep√ß√£o expandida da realidade num sentido lato. Isto √©: n√£o apenas uma percep√ß√£o expandida em termos estritamente psicod√©licos, mas uma leitura que permite refletir sobre condicionamentos mais profundos, ligados √†s estruturas disciplinares da sociedade ocidental.

Estas, principalmente nos países ainda em vias de desenvolvimento como o Brasil, julga, condena e marginaliza os atos ocasionais de expansão da consciência diante de uma realidade condicionada. Em outras palavras, de experiências menos afinadas com as estruturas cognitivas de uma sociedade opressiva, que desincentiva o exercício da existência singular.

O fato √© que mais uma vez Huxley emplaca outra obra no rol de not√°veis da literatura do s√©culo XX. Assim como o cl√°ssico Admir√°vel mundo novo, As Portas da Percep√ß√£o configura uma refer√™ncia fundamental para muitos artistas. O caso mais famoso provavelmente √© o de Jim Morrison, vocalista e principal compositor do grupo The Doors. A experi√™ncia m√≠stica que marcou a curta trajet√≥ria do m√ļsico muito se deve √† leitura do livro.

Jim Morrison, um dos maiores nomes da história do rock, foi muito influenciado por Huxley. 

Intelectual problematizador das quest√Ķes contempor√Ęneas, Huxley tinha a consci√™ncia de que nem s√≥ de flores s√£o feitas as experi√™ncias de expans√£o da consci√™ncia por meio das drogas. Tanto que escreve, em sequ√™ncia √†s Portas, O C√©u e o Inferno. Neste segundo ensaio, o ingl√™s pondera as inevit√°veis interpreta√ß√Ķes demasiado positivas ou ing√™nuas do primeiro livro, sublinhando as ambival√™ncias do uso das drogas psicod√©licas. N√£o que n√£o tivesse alertado sobre os efeitos nefastos destas √ļltimas j√° no primeiro ensaio, sobretudo para os indiv√≠duos que possuem tend√™ncias ou est√°gios j√° desenvolvidos de esquizofrenia.

No fim, o livro deixa evidente o fato de que as drogas tamb√©m s√£o muito mais do que a concep√ß√£o do senso comum propaga. Em um momento temer√°rio do pa√≠s, onde os discursos se enrijecem ‚Äď e num contexto onde ainda n√£o avan√ßamos suficientemente numa discuss√£o mais racional e cient√≠fica sobre o uso de drogas ‚Äď o livro configura uma ferramenta fundamental neste tipo de discuss√£o.

Após o final da leitura, a interrogação persiste: seriam as drogas o promotor mais adequado para experiências de percepção expandida da realidade? Seriam as drogas o principal veículo para atravessar a fronteira do banal condicionamento sugerido pelas estruturas sociais e mentais dominantes?

A resposta que parece ficar impl√≠cita no desfecho do livro, apresentada com o misto de rigor intelectual e sensibilidade que apenas os grandes da literatura alcan√ßam, √© que √© uma decis√£o de car√°ter individual. Cabe a n√≥s mesmos escolher se e como passar pela experi√™ncia psicod√©lica. Obviamente, munidos do esclarecimento dos efeitos, dos pr√≥s e contras deste tipo de ‚Äúviagem‚ÄĚ.

 

*Jornalista, possui doutorado em sociologia. Apaixonado pelo Brasil e pela Itália, possui nove títulos mundiais de futebol Р5 pelo lado brasileiro e 4 pelo lado italiano. E ai de quem argumentar  o contrário. 

 

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