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Coluna Apêndice N | O Beijo do Deus Sombrio

Jirel de Joiry, da autora Catherine L. Moore, é uma personagem que nos permite olhar a Espada e Feitiçaria através de uma ótica feminina, tendo o primeiro de seus seis contos, “O Beijo do Deus Sombrio”, tem tradução no Brasil pela editora Arte e Letra.

Capa de Weird Tales
Capa da Weird Tales, onde O Beijo do Deus Sombrio foi publicado pela primeira vez em 1934.

Texto por John Cavalcante

Apêndice N é o nome dado à lista de principais referências literárias para a criação de D&D, o primeiro RPG do mundo. Esta lista de livros nos traz as principais inspirações para Gary Gygax durante a criação do jogo. Este é também o nome desta coluna de resenhas destinadas a desbravar os mares literários desta estranha fantasia. Apesar do nome, as resenhas nem sempre estarão voltadas somente para o público de Role-Playing Games.

“Ela é Jirel de Joiry, e a nenhum homem obedeceria.

Ela nos protege bem de todos os horrores,

sob sua espada não tememos nem lâminas nem magia,

nem injustiças, nem ganância dos senhores.”

~ “Jirel of Joiry”, música de Leslie Fish. (Tradução livre)

Capa da edição brasileira de O Beijo do Deus Sombrio
Capa da edição brasileira de O Beijo do Deus Sombrio.

Muito se fala sobre a fantasia ser um domínio predominantemente masculino. Há um tanto de verdade nessa afirmação, pois a gigantesca maioria dos escritores e personagens consagrados são homens. A forte tendência ao apagamento de figuras e autoras femininas na literatura, em geral, também é responsável por muitos não conhecerem a primeira heroína de espada e feitiçaria, que teve sua estréia na Weird Tales em 1934.

Uma vez que essa coluna está disposta a chafurdar em autores que só podem ser encontrados em sebos, ou através de múltiplas mídias em edições duvidosas – e olhe que nem estou falando só de Elric, apesar de ele ser o caso mais famoso, pensei ser uma boa ideia trazer à tona também a participação feminina no Apêndice N.

Jirel de Joiry,de Catherine L. Moore é uma personagem que nos permite olhar o gênero Espada e Feitiçaria através da ótica feminina. Isso é, antes do gênero ter degenerado suas protagonistas para ruivas de biquíni-armadura, sim, estamos falando de Red Sonja.

Imagem de Jirel de Joiry
Infelizmente, até para acharmos imagem que ilustram esta coluna, há uma dificuldade, pois a maioria das imagens e desenhos disponíveis tendem a sexualizar a personagem Jirel de Joiry.

Por sorte, o primeiro dos seis contos de Jirel de Joiry, “O Beijo do Deus Sombrio” tem tradução pela editora Arte e Letra. O porquê de todos os contos não terem sido publicados no Brasil em uma única edição, ao invés deste livreto de 72 páginas, é uma questão que teve sua resposta perdida nas areias do tempo. Especialmente tendo em mente que a continuação, “Black God’s Shadow”, tem um elo temático importante.

 

SOBRE PERSONAGEM E AUTORA

Foto de C.L. Moore
Catherine Lucille Moore, conhecida por muitos como Catherine, a grande, foi uma escritora norte-americana de ficção científica e fantasia, sendo um dos nomes femininos mais conhecidos do gênero.

Seria um erro classificar Jirel como somente uma “mulher forte”. Embora ela seja claramente habilidosa com a espada, sua complexidade emocional é o ponto alto da escrita da autora C.L. Moore. Assim como em Conan, de Howard, a prosa é ágil, utilizando-se de senso comum sobre a idade média, enquanto Conan abusa da Era de Bronze, para abreviar descrições e textos.

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Descrições extremamente evocativas de sensações alienígenas que fizeram até mesmo H.P. Lovecraft admitir admiração à proficiência de Moore. “Shambleau – Um dos contos de Space Opera da Autora – é ótimo. Começa de forma magnífica, com o tom certo de terror e insinuações sombrias do desconhecido. A sutil maldade da Entidade, sugerida pelo horror inexplicado do povo, é poderosíssima. E a descrição da criatura, quando descoberta, não decepciona.”

Catherine L. Moore é também conhecida por seus escritos de Northwest Smith, uma espécie de protótipo de Han Solo em um conto de space ópera. Escrito com o seu marido, os dois, também, promoveram um conto de crossover, entre Smith e Jirel. Essa história merece um resgate, já que foi elogiada por um autor famosamente misantropo, como Lovecraft.

imagem de Jirel de Joiry / Les aventures de Northwest Smith
Jirel de Joiry / Les aventures de Northwest Smith. Um crossover que deveria ser resgatado.

O conto Beijo do Deus Sombrio é uma história simples, como a maioria dos pulps. Após ter seu reino invadido pelo conquistador Guillaume, e ter um beijo arrancado à força, Jirel foge da prisão e aventura-se em um estranho portal abaixo de seu castelo, em busca de uma arma poderosa o suficiente para derrotar seu inimigo.

Essa simplicidade não deve ser subestimada. A descrição sensorial e emocional deste submundo privado (que muito mais se assemelha aos horrores de Lovecraft do que ao inferno) evocam o melhor da maravilha e estranhamento. É o melhor do divertimento que se pode esperar da revista Weird Tales.

Na continuação Black God’s Shadow (Título não traduzido porque o conto em si não tem tradução, ainda, no Brasil), vemos que a derrota de Guillaume não se deu pela morte, mas, sim, por sua condenação à dimensão estranha que Jirel buscou sua arma.

Em um surto de arrependimento e remorso pela alma de Guillaume, a protagonista irá aventurar-se novamente no surreal para salvar a alma de seu antigo inimigo e dar-lhe uma morte limpa. Os outros contos tendem a seguir essa mesma fórmula, sempre forçada a ir a uma dimensão caleidoscópica para resolver algum problema em seu reino, Joiry.

A edição da Arte e Letra, apesar de pequena, faz um trabalho competente de buscar as revistas em que o Beijo do Deus Sombrio foi publicado, em prol de trazer um texto mais completo. O editorial da Weird Tales costumava cortar palavras para economizar espaço e pagar menos aos escritores, então buscar publicações diferentes é essencial para se ter um texto íntegro.

Os contemporâneos de C.L. Moore receberam Jirel com bastante entusiasmo. Robert E. Howard chegou a escrever cartas admiradas para a autora, que inspirou uma de suas criações: “Sword Woman”.

Admitidamente, Agnes de Chastillon (a tal Sword Woman) não possui a riqueza sensorial e emocional de Jirel. e, vale lembrar, que a Red Sonja não é criação de R. E. Howard, mas, sim, de Roy Thomas para os quadrinhos.

Marion Zimmer Bradley também dedicou sua coletânea Swords and Sorceress à Moore “que criou Jirel de Joiry, a primeira de nós que pegou uma espada contra a feitiçaria. E para todas nós que crescemos querendo ser como Jirel”.

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Capa de Jirel de Joiry
Várias capas e ilustração pelo mundo não fazem jus ao trabalho de C.L. Moore, em especial, por esquecerem que as histórias se passam no que seria a Idade Média.

JIREL DE JOIRY E AS CONSEQUÊNCIAS DE SEUS ATOS.

O conteúdo emocional da personagem é extremamente forte em ambos os seis contos, mas em graus diferentes. No primeiro, o ódio e a sede de vingança guiam a protagonista em um labirinto surrealista contra seu principal inimigo. Ela está disposta a sacrificar sua própria alma para vingar-se daquele que a fez mal.

Jirel não é uma personagem que sofre do horrível tropo de “mulheres fortes = mulheres estupradas”, embora chegue relativamente perto. Não há uma “fraqueza” inicial a ser explorada e quebrada na personagem. Ela não se torna mais forte e menos “feminina” após o beijo-forçado. Ela é forte desde o princípio.

Não há uma transformação na personagem, mas sim uma exploração de suas facetas. Se a ofensa pessoal de Guillaume é roubar-lhe um beijo, é precisamente com um beijo que Jirel o condenou. Se foi a odiosa memória do beijo que a guiou na dimensão do Deus Sombrio para fazer um pacto mortal, a primeira vez; essa é a mesma memória que reacende sua humanidade em seus embates contra o Deus Sombrio. A transformação de fraquezas em focos de força é um processo que acontece com frequência com essa personagem.

É possível interpretar estes contos de forma mais psicológica como a recuperação de um trauma. Há quem diz que o beijo roubado por Guillaume é uma analogia ou suavização ao estupro, embora eu não tenha encontrado nenhuma fonte conclusiva disso. É evidente, porém, que a dimensão do deus sombrio é uma analogia ao inconsciente freudiano.

Jirel é uma guerreira cristã medieval que precisa deixar de lado sua fé para explorar uma caverna em seus domínios buscando uma arma. Caverna essa, constantemente descrita como profana e condenadora tanto pelo texto quanto pelo Padre, aliado da protagonista.

Este chega a dizer que seria preferível que ela se submetesse ao vilão do que desvendar os segredos ocultos por lá. E a arma é no final de contas um beijo, ou seja, o uso de sua própria sexualidade, obscurecida pela fé católica.

Já no segundo conto, os sentimentos são mais confusos e contraditórios. Talvez fruto do pacto feito com o Deus Sombrio, Jirel encontra-se apaixonada por Guillaume, arrependida de tê-lo condenado no fim do conto passado. Há muito conteúdo interpretativo aqui: Ela estaria apaixonada realmente por Guillaume? Seria a maldição do Deus Sombrio, dar a ela o poder de derrotar seu inimigo com um beijo, mas fazê-la se apaixonar no processo? Ou seria algo ainda mais profundo, com Jirel tendo apaixonando-se por seu algoz em uma síndrome de Estocolmo? Difícil dizer, mas muito interessante de se pensar.

EM CONCLUSÃO

Embora muitos teimem em afirmar que Jirel é um Conan feminino, tal afirmação é um engano terrível. Conan, mais vezes do que não, é capaz de resolver seus problemas com esperteza e espada na mão. Talvez por R.E. Howard conhecer de perto a sombra da depressão, fez um personagem imune a nuances emocionais fortes. Já C. L. Moore, aos 23 anos já escrevia sobre personagens, trabalhando-as. Não é somente a sua incrível habilidade com espadas que garante vitórias à senhora de Joiry, mas, também, sua capacidade de transformar suas piores experiências numa fonte de força.

Essa coluna já falou, e vai continuar falando, de autores perdidos e maltratados em terras brasileiras. A esperança é que, algum dia, os textos cheguem em alguém que se importe o suficiente com o gênero, com a literatura, ou com o entretenimento em geral, para conseguir fazer uma mudança. Uma dessas mudanças, espero, é o redescobrimento de autoras femininas e suas novas (e velhas) perspectivas e ideias.

C.L. Moore não está no Apêndice N de Gygax, mas, devido à sua importância e à qualidade do texto de Moore, deveria estar.

imagem da capa de Golden Age Masterworks.

Thiago de Carvalho Ribeiro. Apaixonado e colecionador de quadrinhos desde 1998. Do mangá, passando pelos comics, indo para o fumetti, se for histórias em quadrinhos boas, tem que serem lidas e debatidas.