Terça, 26 De Fevereiro De 2019

LOJA QUINTA CAPA

Janeiro Literário | Literatura e Resistência, por Edgard Telles Ribeiro

Vivemos tempos bicudos. Tempos em que o conservadorismo ganha força no país, num processo plenamente simbolizado na eleição presidencial passada. Qual o papel da literatura – e da arte em geral – nessa realidade em que o passado é distorcido e o presente é moldado pelas conveniências de discurso?

São sobre essas questões que Edgard Telles Ribeiro se debruça, nesse brilhante ensaio inédito que dá prosseguimento ao Janeiro Literário, mês temático de postagens que abrimos ontem com nosso Manifesto.

Um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, Edgard tem doze livros publicados, entre romances e coletâneas de contos. Entre eles, O Criado-Mudo, sua badalada estreia; o elogiado O Manuscrito e a obra-prima instantânea Branco Como o Arco-Íris. Além dos recentes O Punho e a Renda, Damas da Noite e Uma Mulher Transparente, uma espécie de trilogia que debate a ditadura militar, lhe rendendo bastante destaque. O último, por sinal, ganhou resenha aqui no site.

Jornalista, cineasta e professor de cinema, Edgard Telles Ribeiro foi diplomata de carreira. Seus romances foram publicados nos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Espanha e AustráliaConquistou o Prêmio de Melhor Romance da Academia Brasileira de Letras (Olho de Rei, em 2006) e o Prêmio de Melhor Romance do Pen Clube (O Punho e a Renda, 2011), além de ter sido finalista (2º lugar) no Prêmio Jabuti na categoria Contos (Histórias Mirabolantes de Amores Clandestinos, 2005).

 

Literatura e Resistência

Edgard Telles Ribeiro

                       Desde que o mundo é mundo, e desde que algo aprendemos com nossos erros, tendemos a resistir à opressão. Venha de onde vier. Em séculos mais recentes, a arte (e a literatura em particular) têm sido ferramentas essenciais nessa luta. No mundo, como no Brasil. 

                        Assim, quer escrevamos em publicações pouco lidas, ou tenhamos acesso a veículos de grande tiragem (nos quais os espaços para vozes discordantes tornam-se a cada dia menos frequentes), não podemos parar de externar nossas opiniões. Ou deixar de debatê-las –– dentro e fora de áreas especializadas nos campos políticos, econômicos, jurídicos ou sociais. Em contextos que abram espaço para a divergência. 

                        As considerações que precedem ganham relevância à luz do que vem ocorrendo no cenário nacional e internacional. Em nosso caso, com raízes em um passado relativamente recente –– cujos contornos os atuais detentores de nossa Capitania Hereditária desejam agora colorir com tintas novas. (Refiro-me, é claro, ao que ocorreu nos vinte anos de ditadura, tentativamente demovida, por esses iluminados, a “movimento militar”.)

                        Mas sigamos adiante, sem perder o fio da meada.

                        Assim como, em 1964, o golpe militar brasileiro deu origem a (ou inspirou) formas bárbaras de repressão na Argentina, Uruguai e Chile, com reflexos na Bolívia e Peru, mergulhando nossa região em quase três décadas de terror, o Ocidente, hoje, vem sendo varrido (ou ameaçado) por correntes de matiz político conservador, quando não abertamente autoritário.

                        Foi o que se deu em anos recentes, em graus variados, nos EUA, na Itália, na Grã-Bretanha ou na Hungria (no caso desses três países, tornando a Europa vulnerável a concepções retrógradas e isolacionistas). E é, ao que tudo indica, o que deverá se dar no Brasil a partir de janeiro corrente. 

                        Cada país terá naturalmente trilhado seu caminho para chegar lá (e adotado formato conservador próprio), mas o desenho parece claro –– e restritivo. Dependendo do cenário analisado, restritivo com respeito às liberdades individuais. Ou às prioridades atribuídas a políticas sociais, ao meio ambiente, à questão dos imigrantes, à moral e aos (bons?) costumes. Ao direito de ser diferente, em suma. E de defender uma visão mais justa das relações sociais.

                        O denominador comum encontra abrigo no verbo “fechar”. Seu inverso, “abrir”, até aqui paradigma simbólico de nossas mais caras liberdades, sugere perigo ou incertezas. Estamos longe da Inquisição, mas bem próximos da intolerância.

                         Quando, em 2008 ou 2009, comecei a escrever sobre a ditadura –– sobre nosso passado, portanto ––, não imaginei que, de dez anos depois, estaria lidando com nosso futuro. E o futuro chegou, tem data marcada para começar: janeiro corrente, repito.

                        Não que estejamos às portas de uma ditadura no sentido convencional. (Nem haveria apoio para esses modelos clássicos e caricaturais.) Mas o espaço para o arbítrio e formas variadas de controle ou opressão logo se ampliará. Legalmente.

                        E agora José? perguntaria então Drummond –– em um cenário no qual até a poesia parece ameaçada. À falta de poesia, ou ao abrigo dela, passemos então ao reino do possível.

                        No caso, à mobilização –– intelectual que seja. Por sua força irradiadora. Muitos publicarão artigos, que a imprensa talvez tolere. Ou escreverão livros. Outros produzirão filmes, montarão peças de teatro. Já não sei se a MPB atual dará, ao presente, o respaldo essencial dado à resistência nos anos sessenta e setenta. Mas é certo que resistir é preciso.

                        Por meu lado, escreverei. É o que faço há trinta anos, ao longo de doze livros publicados, entre contos e romances. E é, mais particularmente (no que nos interessa aqui), o que tenho feito desde 2008, quando enveredei por minha trilogia sobre a ditadura brasileira. Um tema complexo, como sabemos, amplamente analisado por historiadores, jornalistas e sobreviventes do terror –– estes últimos em livros de memórias.

                        Curiosamente, porém, uma temática menos trabalhada na ficção. Em termos comparativos, que seja. Talvez por se tratar de assunto a exigir fatos objetivos, dados comprováveis, culpados identificáveis e confirmações de atrocidades cometidas.

                        Tenho para mim, no entanto, que a recriação do horror, pela ficção, cumpre a mesma função da realizada por textos de natureza documental –– e não são poucos os exemplos da literatura universal que, em épocas distintas, comprovam essa teoria. Recriar o horror, dentro de parâmetros aceitos como verdadeiros, dispensa fatos ou dados objetivos. O que importa é que as vítimas se reconheçam nesses novos cenários e digam –– como ouvi pessoalmente de várias, sempre para minha surpresa: “Foi exatamente assim. Eu estava lá.

                        Só que não estavam, nem poderiam ter estado –– a menos que infiltrados em minhas entrelinhas. Essa, é a beleza da literatura: unir verdades reais às imaginárias pelo filtro da emoção. Colocar em cena atores que recriam situações com as quais nos identificamos, porque fazem sentido para as vítimas afetadas por episódios em tudo semelhantes. Nos quais o denominador comum é sempre a violência cega, a injustiça flagrante e, corolário supremo, a impunidade assegurada.

                        Resistir, portanto, passa pelo respeito à palavra. Aquela que, ao lidar com o passado, o dignifique tanto quanto o preserve. Pelo que teve de inesquecível e trágico. Trata-se da única arma que vara fronteiras sem dar um tiro.

                        Abrindo as lentes para nosso país, contudo, e pensando nas múltiplas formas de resistência com que poderemos contar para além da arte, precisamos, na realidade, de nos organizarmos melhor. Estamos confusos, desorientados, perdidos.

                        A brecha política que nos pegou de surpresa, e nos levou de roldão ao absurdo atual (uma quase caricatura, que assombra os comentaristas internacionais quando contemplam nossa ópera-bufa), requer recuo, boa dose de mea culpa, sangue frio –– e muita análise.

                        Em um país como o nosso, vulnerável a pressões constantes de setores conservadores mais radicais –– sejam eles econômicos, comerciais, sociais, ambientais ––, a opressão chegará sob diversas formas. Irá bem além da legislação sendo urdida nos bastidores para abrir espaço ao retrocesso. Nem dependerá apenas das tristes pessoas que assumirão nossos Ministérios com suas equipes patéticas.

                        Diria, quase, que ela “se infiltrará” de maneira insidiosa e permanente. Nas escolas e igrejas. Na mídia bem-comportada, sempre atenta a seus interesses. Na administração pública. Pela via dos grandes investimentos transnacionais.

                        E na política, nossa pobre e combalida política. Tão viciada em anos recentes… Quando a escalada de manipulações no processo sucessório, responsável pelo atual desastre, criou raízes, se acelerou e abriu o flanco no qual caímos para despertar em um pesadelo.

                        É o inimigo a ser enfrentado, essa grande mancha sombria, que muito tem de abstrata. E que, apesar disso, precisará ser agarrada pelos chifres, fatiada e combatida em camadas, tema a tema, ideia a ideia, absurdo a absurdo, sempre à luz da defesa de um bem maior –– uma democracia subitamente vulnerável a todo tipo de ameaças. É ela o verdadeiro alvo. E, na sequência, nossas liberdades. No plano econômico, a soberania do país.

                        Somos todos responsáveis pelo quadro político atual. Não apenas elegemos um Presidente que encarna o passado no que ele tem de pior (e faz disso uma bandeira), como conseguimos eleger um Congresso a sua altura e imagem. O primeiro passo é reconhecer nossa parcela de responsabilidade pelo ocorrido. O segundo é resistir. Esse, porém, exigirá uma freada de arrumação. E muita reflexão.

                        Mais do que nunca, então, no que me diz respeito –– e no que diz respeito a uma legião de pessoas que sempre fizeram da palavra uma razão de ser e de viver –– escrever será preciso. Pois os imbecis, como disse certa vez um filósofo de bar com toda razão (este, sim, um grande homem), são maioria. E eles precisam ser confrontados.

                        O que torna nosso desafio ainda maior. E, para quem tem um razoável espírito combativo, bem mais atraente –– e até simpático… Mesmo porque há maiorias das quais, por mera questão de bom gosto (ou medo do ridículo), não conviria ser parte.

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