Quarta, 02 De Janeiro De 2019

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Janeiro Literário | Literatura e Resistência, por Edgard Telles Ribeiro

Vivemos tempos bicudos. Tempos em que o conservadorismo ganha for√ßa no pa√≠s, num processo plenamente simbolizado na elei√ß√£o presidencial passada. Qual o papel da literatura ‚Äď e da arte em geral ‚Äď nessa realidade em que o passado √© distorcido e o presente √© moldado pelas conveni√™ncias de discurso?

S√£o sobre essas quest√Ķes que Edgard Telles Ribeiro se debru√ßa, nesse brilhante ensaio in√©dito que d√° prosseguimento ao Janeiro Liter√°rio, m√™s tem√°tico de postagens que abrimos ontem com nosso Manifesto.

Um dos grandes nomes da literatura brasileira contempor√Ęnea, Edgard tem doze livros publicados, entre romances e colet√Ęneas de contos. Entre eles, O Criado-Mudo, sua badalada estreia; o elogiado O Manuscrito¬†e a obra-prima instant√Ęnea¬†Branco Como o Arco-√ćris. Al√©m dos recentes O Punho e a Renda, Damas da Noite e Uma Mulher Transparente, uma esp√©cie de trilogia que debate a ditadura militar, lhe rendendo bastante destaque. O √ļltimo, por sinal, ganhou resenha aqui no site.

Jornalista, cineasta e professor de cinema, Edgard Telles Ribeiro foi diplomata de carreira. Seus romances foram publicados nos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Espanha e Austr√°lia.¬†Conquistou o Pr√™mio de Melhor Romance da Academia Brasileira de Letras (Olho de Rei, em 2006) e o Pr√™mio de Melhor Romance do Pen Clube (O Punho e a Renda, 2011), al√©m de ter sido finalista (2¬ļ lugar) no Pr√™mio Jabuti na categoria Contos (Hist√≥rias Mirabolantes de Amores Clandestinos, 2005).

 

Literatura e Resistência

Edgard Telles Ribeiro

                       Desde que o mundo é mundo, e desde que algo aprendemos com nossos erros, tendemos a resistir à opressão. Venha de onde vier. Em séculos mais recentes, a arte (e a literatura em particular) têm sido ferramentas essenciais nessa luta. No mundo, como no Brasil. 

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Assim, quer escrevamos em publica√ß√Ķes pouco lidas, ou tenhamos acesso a ve√≠culos de grande tiragem (nos quais os espa√ßos para vozes discordantes tornam-se a cada dia menos frequentes), n√£o podemos parar de externar nossas opini√Ķes. Ou deixar de debat√™-las ‚Äď‚Äď dentro e fora de √°reas especializadas nos campos pol√≠ticos, econ√īmicos, jur√≠dicos ou sociais. Em contextos que abram espa√ßo para a diverg√™ncia.¬†

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† As considera√ß√Ķes que precedem ganham relev√Ęncia √† luz do que vem ocorrendo no cen√°rio nacional e internacional. Em nosso caso, com ra√≠zes em um passado relativamente recente ‚Äď‚Äď cujos contornos os atuais detentores de nossa Capitania Heredit√°ria desejam agora colorir com tintas novas. (Refiro-me, √© claro, ao que ocorreu nos vinte anos de ditadura, tentativamente demovida, por esses iluminados, a ‚Äúmovimento militar‚ÄĚ.)

                        Mas sigamos adiante, sem perder o fio da meada.

                        Assim como, em 1964, o golpe militar brasileiro deu origem a (ou inspirou) formas bárbaras de repressão na Argentina, Uruguai e Chile, com reflexos na Bolívia e Peru, mergulhando nossa região em quase três décadas de terror, o Ocidente, hoje, vem sendo varrido (ou ameaçado) por correntes de matiz político conservador, quando não abertamente autoritário.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Foi o que se deu em anos recentes, em graus variados, nos EUA, na It√°lia, na Gr√£-Bretanha ou na Hungria (no caso desses tr√™s pa√≠ses, tornando a Europa vulner√°vel a concep√ß√Ķes retr√≥gradas e isolacionistas). E √©, ao que tudo indica, o que dever√° se dar no Brasil a partir de janeiro corrente.¬†

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Cada pa√≠s ter√° naturalmente trilhado seu caminho para chegar l√° (e adotado formato conservador pr√≥prio), mas o desenho parece claro ‚Äď‚Äď e restritivo. Dependendo do cen√°rio analisado, restritivo com respeito √†s liberdades individuais. Ou √†s prioridades atribu√≠das a pol√≠ticas sociais, ao meio ambiente, √† quest√£o dos imigrantes, √† moral e aos (bons?) costumes. Ao direito de ser diferente, em suma. E de defender uma vis√£o mais justa das rela√ß√Ķes sociais.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† O denominador comum encontra abrigo no verbo ‚Äúfechar‚ÄĚ. Seu inverso, ‚Äúabrir‚ÄĚ, at√© aqui paradigma simb√≥lico de nossas mais caras liberdades, sugere perigo ou incertezas. Estamos longe da Inquisi√ß√£o, mas bem pr√≥ximos da intoler√Ęncia.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† ¬†Quando, em 2008 ou 2009, comecei a escrever sobre a ditadura ‚Äď‚Äď sobre nosso passado, portanto ‚Äď‚Äď, n√£o imaginei que, de dez anos depois, estaria lidando com nosso futuro. E o futuro chegou, tem data marcada para come√ßar: janeiro corrente, repito.

                        Não que estejamos às portas de uma ditadura no sentido convencional. (Nem haveria apoio para esses modelos clássicos e caricaturais.) Mas o espaço para o arbítrio e formas variadas de controle ou opressão logo se ampliará. Legalmente.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† E agora Jos√©? perguntaria ent√£o Drummond ‚Äď‚Äď em um cen√°rio no qual at√© a poesia parece amea√ßada. √Ä falta de poesia, ou ao abrigo dela, passemos ent√£o ao reino do poss√≠vel.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† No caso, √† mobiliza√ß√£o ‚Äď‚Äď intelectual que seja. Por sua for√ßa irradiadora. Muitos publicar√£o artigos, que a imprensa talvez tolere. Ou escrever√£o livros. Outros produzir√£o filmes, montar√£o pe√ßas de teatro. J√° n√£o sei se a MPB atual dar√°, ao presente, o respaldo essencial dado √† resist√™ncia nos anos sessenta e setenta. Mas √© certo que resistir √© preciso.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Por meu lado, escreverei. √Č o que fa√ßo h√° trinta anos, ao longo de doze livros publicados, entre contos e romances. E √©, mais particularmente (no que nos interessa aqui), o que tenho feito desde 2008, quando enveredei por minha trilogia sobre a ditadura brasileira. Um tema complexo, como sabemos, amplamente analisado por historiadores, jornalistas e sobreviventes do terror ‚Äď‚Äď estes √ļltimos em livros de mem√≥rias.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Curiosamente, por√©m, uma tem√°tica menos trabalhada na fic√ß√£o. Em termos comparativos, que seja. Talvez por se tratar de assunto a exigir fatos objetivos, dados comprov√°veis, culpados identific√°veis e confirma√ß√Ķes de atrocidades cometidas.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Tenho para mim, no entanto, que a recria√ß√£o do horror, pela fic√ß√£o, cumpre a mesma fun√ß√£o da realizada por textos de natureza documental ‚Äď‚Äď e n√£o s√£o poucos os exemplos da literatura universal que, em √©pocas distintas, comprovam essa teoria. Recriar o horror, dentro de par√Ęmetros aceitos como verdadeiros, dispensa fatos ou dados objetivos. O que importa √© que as v√≠timas se reconhe√ßam nesses novos cen√°rios e digam ‚Äď‚Äď como ouvi pessoalmente de v√°rias, sempre para minha surpresa: ‚ÄúFoi exatamente assim. Eu estava l√°.‚ÄĚ

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† S√≥ que n√£o estavam, nem poderiam ter estado ‚Äď‚Äď a menos que infiltrados em minhas entrelinhas. Essa, √© a beleza da literatura: unir verdades reais √†s imagin√°rias pelo filtro da emo√ß√£o. Colocar em cena atores que recriam situa√ß√Ķes com as quais nos identificamos, porque fazem sentido para as v√≠timas afetadas por epis√≥dios em tudo semelhantes. Nos quais o denominador comum √© sempre a viol√™ncia cega, a injusti√ßa flagrante e, corol√°rio supremo, a impunidade assegurada.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Resistir, portanto, passa pelo respeito √† palavra. Aquela que, ao lidar com o passado, o dignifique tanto quanto o preserve. Pelo que teve de inesquec√≠vel e tr√°gico. Trata-se da √ļnica arma que vara fronteiras sem dar um tiro.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Abrindo as lentes para nosso pa√≠s, contudo, e pensando nas m√ļltiplas formas de resist√™ncia com que poderemos contar para al√©m da arte, precisamos, na realidade, de nos organizarmos melhor. Estamos confusos, desorientados, perdidos.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† A brecha pol√≠tica que nos pegou de surpresa, e nos levou de rold√£o ao absurdo atual (uma quase caricatura, que assombra os comentaristas internacionais quando contemplam nossa √≥pera-bufa), requer recuo, boa dose de mea culpa, sangue frio ‚Äď‚Äď e muita an√°lise.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Em um pa√≠s como o nosso, vulner√°vel a press√Ķes constantes de setores conservadores mais radicais ‚Äď‚Äď sejam eles econ√īmicos, comerciais, sociais, ambientais ‚Äď‚Äď, a opress√£o chegar√° sob diversas formas. Ir√° bem al√©m da legisla√ß√£o sendo urdida nos bastidores para abrir espa√ßo ao retrocesso. Nem depender√° apenas das tristes pessoas que assumir√£o nossos Minist√©rios com suas equipes pat√©ticas.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Diria, quase, que ela ‚Äúse infiltrar√°‚ÄĚ de maneira insidiosa e permanente. Nas escolas e igrejas. Na m√≠dia bem-comportada, sempre atenta a seus interesses. Na administra√ß√£o p√ļblica. Pela via dos grandes investimentos transnacionais.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† E na pol√≠tica, nossa pobre e combalida pol√≠tica. T√£o viciada em anos recentes… Quando a escalada de manipula√ß√Ķes no processo sucess√≥rio, respons√°vel pelo atual desastre, criou ra√≠zes, se acelerou e abriu o flanco no qual ca√≠mos para despertar em um pesadelo.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† √Č o inimigo a ser enfrentado, essa grande mancha sombria, que muito tem de abstrata. E que, apesar disso, precisar√° ser agarrada pelos chifres, fatiada e combatida em camadas, tema a tema, ideia a ideia, absurdo a absurdo, sempre √† luz da defesa de um bem maior ‚Äď‚Äď uma democracia subitamente vulner√°vel a todo tipo de amea√ßas. √Č ela o verdadeiro alvo. E, na sequ√™ncia, nossas liberdades. No plano econ√īmico, a soberania do pa√≠s.

                        Somos todos responsáveis pelo quadro político atual. Não apenas elegemos um Presidente que encarna o passado no que ele tem de pior (e faz disso uma bandeira), como conseguimos eleger um Congresso a sua altura e imagem. O primeiro passo é reconhecer nossa parcela de responsabilidade pelo ocorrido. O segundo é resistir. Esse, porém, exigirá uma freada de arrumação. E muita reflexão.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Mais do que nunca, ent√£o, no que me diz respeito ‚Äď‚Äď e no que diz respeito a uma legi√£o de pessoas que sempre fizeram da palavra uma raz√£o de ser e de viver ‚Äď‚Äď escrever ser√° preciso. Pois os imbecis, como disse certa vez um fil√≥sofo de bar com toda raz√£o (este, sim, um grande homem), s√£o maioria. E eles precisam ser confrontados.

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† O que torna nosso desafio ainda maior. E, para quem tem um razo√°vel esp√≠rito combativo, bem mais atraente ‚Äď‚Äď e at√© simp√°tico… Mesmo porque h√° maiorias das quais, por mera quest√£o de bom gosto (ou medo do rid√≠culo), n√£o conviria ser parte.

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