Quarta, 28 De Novembro De 2018

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Machado de Assis Prova Que Nunca Fomos T√£o Modernos

Outro dia papeava com o doutor S√©rgio Alc√Ęntara Monteiro Nunes, ilibado caus√≠dico que aprecia sem modera√ß√£o cigarros de palha, u√≠sque, mulheres e ¬†boa literatura. Era deste √ļltimo assunto que nos ocup√°vamos na ocasi√£o. Doutor S√©rgio relia Esa√ļ e Jac√≥, do grande Machado, em busca de um espelho para o momento que vivemos.

‚ÄúTalvez seja descabido ou um exagero fazer paralelos entre a transi√ß√£o pol√≠tica que o romance explora e as mudan√ßas que nossa √ļltima elei√ß√£o simboliza‚ÄĚ, dizia, ‚ÄúMas, que diabos, tudo serve de desculpa para reencontrar o g√™nio!‚ÄĚ, arrematou aos risos.

Havia, de fato, uma grande verdade nisso. Depois, j√° em casa, enquanto procurava o meu exemplar do livro, deparei-me com outro na estante, que reacendeu as reflex√Ķes acerca do assunto: Por que ler os cl√°ssicos, do √ćtalo Calvino, re√ļne diversos ensaios onde o italiano discorre sobre os grandes nomes da hist√≥ria liter√°ria mundial e a import√Ęncia de l√™-los… E rel√™-los.

Fonte prim√°ria de inspira√ß√£o, personalidades como Homero, Balzac, Dickens, Tolst√≥i, entre outros, n√£o apenas aperfei√ßoaram a voca√ß√£o humana para contar hist√≥rias, como tamb√©m a fizeram de maneira relevante, profunda, complexa, servindo de base e refer√™ncia para tudo que surgiu √† sua volta e depois. Os cl√°ssicos s√£o livros que servem de b√ļssola para os caminhos da fic√ß√£o, que reorientam n√£o apenas a nossa maneira de ver o mundo, mas o pr√≥prio mundo.

Em terras tupiniquins, o nome primevo que nos ocorre √© sem d√ļvida Machado de Assis. Ourives da palavra, cultor da l√≠ngua de maneira inteligente e instigante, mente criativa que transitou do espectro rom√Ęntico para o realismo de maneira sagaz e definitiva, Machado √© um farol que sempre nos guiar√°, de uma maneira ou de outra. Em que sentido?, pode o car√≠ssimo leitor desta coluna se indagar nesse instante. Ora, em tudo aquilo que faz de um autor, um cl√°ssico.

Deixemos as abstra√ß√Ķes de lado. Evoco o conto Fulano como amostra viva do que digo. Publicado inicialmente no jornal Gazeta de Not√≠cias em janeiro de 1884 e compilado posteriormente em Hist√≥rias Sem Data, a narrativa se faz num tom informal, em que o narrador-personagem exp√Ķe a um ouvinte silencioso (papel que cabe a n√≥s, leitores) pego em tr√Ęnsito, a vida de Fulano Beltr√£o, morto recentemente.

√Č para a leitura de seu testamento que se encaminham, e no trajeto conhecemos a figura r√©gia que se manteve no anonimato por grande parte de seus anos, at√© o dia em que, aniversariando, ganhou de um amigo mat√©ria elogiosa no jornal. Foi o que bastou para que sua vida mudasse para sempre. Fulano sentiu-se algu√©m importante, falado e lembrado pelos outros. E imbu√≠do na necessidade de manter-se assim, figura p√ļblica por raz√£o nenhuma, decide se meter nas mais diversas causas e a√ß√Ķes, sempre em vista de uma nota no jornal que o mencionasse.

Fulano (a genialidade do nome fala por si) promove doa√ß√Ķes √† Igreja; se envolve na liberta√ß√£o de escravos; tenta cargo pol√≠tico e vira ma√ßon. Sempre em busca da relev√Ęncia social. E mesmo na morte n√£o se faz ausente: lega sua heran√ßa para constru√ß√£o de uma est√°tua de Pedro √Ālvares Cabral, figura pouco reconhecida pela popula√ß√£o, segundo afirma.

Se trocarmos os jornais pelas redes sociais e as causas que mobilizam o personagem por outras mais est√ļpidas, podemos ver quanto do enredo continua atual. A busca pela fama, por curtidas, muitas vezes pelas raz√Ķes mais absurdas ou degradantes √© a marca dos nossos dias, registrados que s√£o em milh√Ķes de selfies ao redor do mundo. A efemeridade n√£o s√≥ da aceita√ß√£o e simpatia, mas da admira√ß√£o constantemente alimentada, por vezes de modo f√ļtil.

Como Calvino afirma em seu texto, o clássico é aquele livro ou autor ao qual sempre recorremos para entender melhor as coisas. E justamente por se fazerem tão perspicazes da realidade que procuram emoldurar, os clássicos nos pertencem sem percebermos claramente. O que os torna ainda mais essenciais.

H√° mais de um s√©culo Machado de Assis extrapolou seu pr√≥prio tempo ao discorrer sobre a vaidade e as √Ęnsias do ser humano. O que mais teria a nos oferecer? Fica o conselho de nosso simp√°tico advogado: tudo √© desculpa; arranje, pois, uma e mergulhe na leitura de algo que provavelmente mudar√° sua compreens√£o da vida para sempre. Quer algo mais instigante?

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