Quarta, 31 De Outubro De 2018

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Todo Dia √Č Dia D

Se vivo fosse, Carlos Drummond de Andrade estaria completando 116 anos hoje, dia 31 de outubro. Nascido em Itabira, Minas Gerais, em 1902, viria a ser um dos maiores nomes de nossa literatura e expressão máxima da poética brasileira produzida no século XX.

Como nos recorda Mariah Aquino, Carlos formou-se em farm√°cia na Escola de Odontologia e Farm√°cia de Belo Horizonte, mas nunca exerceu a profiss√£o. Desde cedo, mostrava aptid√£o e amor pelas palavras. Foi expulso do Col√©gio Anchieta, internato jesu√≠ta no Rio de Janeiro, por ‚Äúinsubordina√ß√£o mental‚ÄĚ depois de sucessivas discuss√Ķes com o professor de portugu√™s. Desde aquela √©poca, com apenas 17 anos, discordava em v√°rios pontos que tangiam a norma culta e a forma correta de se escrever.

Inspirado no Bloomsday, data anual em que √© celebrada a obra de James Joyce, o Instituto Moreira Sales passou a organizar o Dia D ‚Äď Dia Drummond, desde 2011, com o objetivo de fazer com que a data do nascimento do grande poeta passasse a integrar o calend√°rio cultural do pa√≠s. A fim de promover e difundir a obra do escritor, o IMS convida parceiros e amigos para celebrar a data.

O site oficial do evento, www.diadrummond.com.br, divulga anualmente a programa√ß√£o, que este ano acontece em diversas capitais e na cidade natal do autor, onde acontece o 2¬ļ Festival Drummond e 17¬™ Semana Drummondiana.

Para celebrar a data deixamos aqui três poesias que representam a beleza, leveza e fineza de sua obra. Sempre é tempo de celebrar Drummond.

AMAR

Que pode uma criatura sen√£o,

entre criaturas, amar?

amar e esquecer, amar e malamar,

amar, desamar, amar?

sempre, e até de olhos vidrados, amar?

 

Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal,

senão rodar também, e amar?

amar o que o mar traz à praia,

o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

√© sal, ou precis√£o de amor, ou simples √Ęnsia?

 

Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o cru,

um vaso sem flor, um ch√£o de ferro,

e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e

uma ave de rapina.

 

Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.

 

Amar a nossa falta mesma de amor,

e na secura nossa amar a água implícita,

e o beijo t√°cito, e a sede infinita.

 

NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor

é isso que você está vendo:

hoje beija, amanh√£ n√£o beija,

depois de amanhã é domingo

e segunda-feira ninguém sabe

o que ser√°.

 

In√ļtil voc√™ resistir

ou mesmo suicidar-se.

N√£o se mate, oh n√£o se mate,

Reserve-se todo para

as bodas que ninguém sabe

quando vir√£o,

se é que virão.

 

O amor, Carlos, voc√™ tel√ļrico,

a noite passou em você,

e os recalques se sublimando,

l√° dentro um barulho inef√°vel,

rezas,

vitrolas,

santos que se persignam,

an√ļncios do melhor sab√£o,

barulho que ninguém sabe

de quê, praquê.

 

Entretanto você caminha

melancólico e vertical.

Você é a palmeira, você é o grito

que ninguém ouviu no teatro

e as luzes todas se apagam.

O amor no escuro, n√£o, no claro,

é sempre triste, meu filho, Carlos,

mas não diga nada a ninguém,

ninguém sabe nem saberá.

N√£o se mate.

 

A M√ĀQUINA DO MUNDO

E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco

 

se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem

no céu de chumbo, e suas formas pretas

 

lentamente se fossem diluindo

na escurid√£o maior, vinda dos montes

e de meu próprio ser desenganado,

 

a m√°quina do mundo se entreabriu

para quem de a romper j√° se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.

 

Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clar√£o maior que o toler√°vel

 

pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar

 

toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.

 

Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intui√ß√Ķes restavam

a quem de os ter usado os j√° perdera

 

e nem desejaria recobr√°-los,

se em v√£o e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,

 

convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mítica das coisas,

 

assim me disse, embora voz alguma

ou sopro ou eco o simples percuss√£o

atestasse que alguém, sobre a montanha,

 

a outro alguém, noturno e miserável,

em colóquio se estava dirigindo:

“O que procuraste em ti ou fora de

 

teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,

e a cada instante mais se retraindo,

 

olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência

sublime e formidável, mas hermética,

 

essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,

que nem concebes mais, pois t√£o esquivo

 

se revelou ante a pesquisa ardente

em que te consumiste… vê, contempla,

abre teu peito para agasalh√°-lo.‚ÄĚ

 

As mais soberbas pontes e edifícios,

o que nas oficinas se elabora,

o que pensado foi e logo atinge

 

dist√Ęncia superior ao pensamento,

os recursos da terra dominados,

e as paix√Ķes e os impulsos e os tormentos

 

e tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animais

e chega às plantas para se embeber

 

no sono rancoroso dos minérios,

d√° volta ao mundo e torna a se engolfar

na estranha ordem geométrica de tudo,

 

e o absurdo original e seus enigmas,

suas verdades altas mais que tantos

monumentos erguidos à verdade;

 

e a memória dos deuses, e o solene

sentimento de morte, que floresce

no caule da existência mais gloriosa,

 

tudo se apresentou nesse relance

e me chamou para seu reino augusto,

afinal submetido à vista humana.

 

Mas, como eu relutasse em responder

a tal apelo assim maravilhoso,

pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

 

a esperan√ßa mais m√≠nima ‚ÄĒ esse anelo

de ver desvanecida a treva espessa

que entre os raios do sol inda se filtra;

 

como defuntas crenças convocadas

presto e fremente n√£o se produzissem

a de novo tingir a neutra face

 

que vou pelos caminhos demonstrando,

e como se outro ser, n√£o mais aquele

habitante de mim h√° tantos anos,

 

passasse a comandar minha vontade

que, j√° de si vol√ļvel, se cerrava

semelhante a essas flores reticentes

 

em si mesmas abertas e fechadas;

como se um dom tardio j√° n√£o fora

apetecível, antes despiciendo,

 

baixei os olhos, incurioso, lasso,

desdenhando colher a coisa oferta

que se abria gratuita a meu engenho.

 

A treva mais estrita j√° pousara

sobre a estrada de Minas, pedregosa,

e a m√°quina do mundo, repelida,

 

se foi miudamente recompondo,

enquanto eu, avaliando o que perdera,

seguia vagaroso, de m√£o pensas.

 

B√īnus: Carlos Drummond de Andrade em pessoa declamando um de seus poemas.

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