Terça, 07 De Agosto De 2018

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“Virgens Acorrentadas” √© uma del√≠cia.

Ontem (dia 22/06) fui assistir ao filme Virgens Acorrentadas no Teresina Shopping e foi uma experiência muito legal. Fui porque queria conhecer Paulo Biscaia, o diretor do filme, e isso não é uma figura de linguagem, porque o diretor estaria, literalmente, na sessão. Aconteceria um debate após a exibição, uma experiencia interessantíssima poder conversar com um dos autores da obra logo após acabar de assisti-la.

J√° escrevi aqui¬†sobre minha surpresa com o Biscaia em rela√ß√£o √† sua liga√ß√£o com os quadrinhos e teatro atrav√©s do grupo Vigor Mortis, ent√£o eu PRECISAVA aproveitar esta oportunidade. Assim que cheguei ao cinema, logo vi Douglas Machado (cineasta e curador do Cinemas Teresina) de bate-papo na bilheteria com o diretor, e foi logo adiantando-se em nos apresentar: “Aqui, Biscaia. Essa √© a pessoa que te falei que estava lendo teu quadrinho quando o convidei para a sess√£o”. Sim, se voc√™ n√£o acredita em coincid√™ncias, eu esperei anos pra tirar Vigor Mortes da prateleira da minha livraria para come√ßar a ler e, curiosamente, na semana seguinte acontece nosso encontro: eu com o escritor do gibi e diretor do filme Virgens Acorrentadas.

Eu e Paulo Biscaia, após a sessão de Virgens Acorrentadas, depois de autografar meu Vigor Mortis.

Nós trocamos algumas frases e eu o presenteei com os meus quadrinhos do Máscara de Ferro e uns gibis do meu irmão. Expliquei mais ou menos o que era cada um deles. Ele precisou sair pra fazer umas fotos e me deixou com sua mochila. Que tipo de pessoa entrega sua mochila aos cuidados de alguém que acabou de conhecer? Douglas Machado deve ter falado bem de mim. Tomei a liberdade de guardar os gibis que havia dado para ele dentro da mochila.

Demorou um pouco e foram chegando pessoas conhecidas (Milton, Mestre Bob, Monteiro Jr…) e logo-logo fomos para a sala de cinema. Depois de uma r√°pida apresenta√ß√£o do projeto “Sess√£o de Debate” e da apresenta√ß√£o do convidado por Douglas Machado, Biscaia falou sobre a √≥tima receptividade que teve em Teresina, de seu desejo de querer voltar sempre, falou tamb√©m das refer√™ncias claras que h√° no seu filme, como o Massacre da Serra El√©trica, os “terrir” do Sam Raime e que, se algu√©m usasse o celular durante a sess√£o, algu√©m entraria com uma moto-serra para decepar uns bra√ßos. Ficamos todos com grande expectativa.

E o filme √© uma grande surpresa. Cheguei a comentar com ele que o trailer, definitivamente, n√£o vende o filme, n√£o nos prepara. Ele meio que concordou, comentando que iriam come√ßar uma campanha publicit√°ria para o filme com um slogan que seria mais ou menos “n√£o √© o que voc√™ espera”, ou algo assim (minha mem√≥ria falha).

O filme √© sobre um roteirista de cinema que n√£o consegue vender nenhum de seus textos para uma grande produtora, porque seus projetos sempre s√£o muito caros, al√©m disso, invi√°veis poque ele n√£o √© um autor conhecido, nem seus filmes s√£o remake ou continua√ß√Ķes de uma franquia. Ent√£o, decide fazer por conta pr√≥pria. Juntar os amigos, procurar profissionais e financiar o filme de forma independente.

Biscaia comentou que esse tipo de produ√ß√£o de filme √© muito comum e que fazer um filme “nas coxas” nos EUA n√£o √© diferente de fazer aqui no Brasil. O esquema √© o mesmo. S√≥ depende da vontade de fazer. Ele se recusou a falar sobre os custos do filme, mas algu√©m sugeriu que poderia ter custado uns 500 mil reais e ele caiu na gargalhada. Douglas perguntou quantos “Virgens Acorrentadas” poder√≠amos ter com todo esse dinheiro, mas pediu para Biscaia n√£o responder, porque uma simples matem√°tica aplicada revelaria o custo da produ√ß√£o. O fato √© que voc√™ pode perceber que n√£o √© um filme caro. √Č basicamente: loca√ß√£o, atores, equipe t√©cnica, vontade de fazer e sangue de mentira.

Amigos brindando o filme que ir√£o fazer

Durante o filme, os atores falam da necessidade de juntar U$8mil para fazer sua produção e que, muito do pagamento dos atores ou financiadores envolvidos seria pago com percentual de venda do filme nas bilheterias. Eu diria que esse é um valor bem real, que o filme pode ter custado esses 8 mil dólares (uns R$30 mil), mas isso, de longe, não representa a relação custo/benefício: é um filme barato, mas muito caro de se assistir. Tem bons atores, boa direção, tecnicamente muito bem resolvido e um roteiro muito louco.

Virgin Cheerleaders in Chains. Virgens Acorrentadas.

Acontece que o filme que esses amigos resolvem fazer chama-se “Virgin cheerleaders in chains’, que seria traduzido como “L√≠deres de Torcida Virgens Acorrentadas”, um t√≠tulo muito apelativo, mas ideal para o tipo slasher movies¬†onde o p√ļblico, s√°dico, gosta de ver sangue, sexo e peitos. A “pel√≠cula” torna-se uma brincadeira metalingu√≠stica e realidade e filme come√ßam a se misturar, numa experi√™ncia que s√≥ voc√™ vendo!

O filme foge dos clich√™s e brinca com eles. Uma das cenas iniciais √© sobre o “protagonista” salvando o gato da vizinha presa no telhado. Ap√≥s a sess√£o, algu√©m perguntou sobre o que saiu do filme no final da edi√ß√£o. Biscaia falou um pouco sobre isso e disse que, inicialmente, queria tirar a cena do rapaz salvando o gato. E eu fiquei uns 5 minutos tentando lembrar qual era essa cena do gato, de t√£o desnecess√°ria que ela √©. Lembrei, quando Biscaia fala que isso √© uma piada metalingu√≠stica sobre escritores, citando o livro “Save the cat”, de Blake Snyder, um tipo de receita de bolo sobre elabora√ß√£o de roteiros de cinema. “Salvar o gato” seria um pequeno ato de hero√≠smo que o personagem TEM de fazer nos primeiros 10 minutos do filme para que o espectador burro possa saber quem √© o protagonista da porra toda.

Nosso pequeno ato heróico. Ezekiel Swinford salvando o gato,

Só conto tudo isso porque acho que é realmente necessário sabermos desse tipo de história para pegarmos as referências sutis do filme, que se desenrola maravilhosamente entre o grotesco, uma edição gostosa e cenas delicadas sobre meninas conversando enquanto bebem uma taça de vinho.

Lembrando aqui que ap√≥s a sess√£o, uma jornalista que estava na plateia comentou a perspectiva feminista, mostrando personagens fortes e a n√£o exposi√ß√£o de nudez feminina no filme. Isso por si, j√° √© romper com um clich√™ de filmes slasher! Biscaia confirmou que o filme procura sim essa virada, fazendo rever√™ncias ao protagonismo feminino, mas lembra que s√≥ n√£o temos a nudez feminina esperada numa homenagem ao g√™nero porque n√£o havia recursos: “Mostrar peitos sai mais caro do que n√£o mostrar”. Por isso a personagem da atriz¬†Elizabeth Maxwell, uma stripper, n√£o aparece nua no filme, porque foi, provavelmente o cach√™ mais caro do filme, j√° que √© uma atriz com certa notoriedade, relativamente famosa por conta de seus in√ļmeros trabalhos em dublagens de anim√™s e jogos. Ela √© respons√°vel por vozes per personagens como Sae Niijima, de Persona 5, ou Major MOtoko em Ghost in the Shell ou de¬†Ymir, de Attack on titan!

Ent√£o, √© divers√£o garantida para todos que gostam de humor bobo sobre brancos que fumam maconha, strippers com mais conte√ļdo do que julga seu preconceito, cabe√ßas decepadas, frases feitas e malditos machetes (que N√ÉO s√£o facas).

Pra finalizar a sess√£o especial, Douglas comentou da necessidade do publico brasileiro, n√≥s aqui de Teresina, especificamente, frequentarmos mais essas sess√Ķes especiais do cinema, sobre como √© importante assistirmos algo al√©m do Pantera Negra ou Guerra Infinita e Biscaia concluiu com uma informa√ß√£o que nem precisa de problematiza√ß√£o. Ele disse mais ou menos assim: “Virgens Acorrentadas √© um filme que existe apenas porque um produtor americano viu meus filmes anteriores. Filmes que foram premiados no exterior e que n√£o ganharam nenhum pr√™mio no Brasil. Um produtor americano me chamou pra fazer seu filme, mas n√£o recebi nenhum convite de produtor brasileiro”. Isso fala muito sobre nosso cen√°rio, sobre como n√£o valorizamos aquilo que n√≥s temos.¬†Para terminar, Biscaia disse: “N√£o que isso seja um problema. Tenho meus roteiros e vou continuar fazendo meus filmes”.

 

“Badasses” em Virgens acorrentadas

A Sessão com Debate foi uma pré-estreia. O filme deve estrear em, pelo menos,  20 salas em todo o Brasil, inclusive no Cinemas Teresina, dia 9 de agosto. A gente se encontra lá?

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