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A produção de HQs no Brasil antes e depois do Catarse

Desde 2011, a ferramenta vem contribuindo com editoras e autores a mudar o cenário das histórias em quadrinhos no Brasil

Desde a sua fundação no Brasil em 17 de janeiro de 2011, o Catarse, site de financiamento coletivo, verdadeiramente transformou o modo de produção de histórias em quadrinhos no país. Todos que já utilizaram a ferramenta de alguma forma são unânimes em afirmar isso. “Foi um divisor de águas”.

Antes, para publicar uma história em quadrinhos no Brasil só existiam basicamente três caminhos a seguir: ter um bom capital de investimento para bancar a impressão e distribuição, algo quase que exclusivo das grandes editoras; arregaçar as mangas e correr atrás de apoio e conquistar o recurso necessário para a impressão; ou ainda fazer algo amador, alternativo, de baixo custo.

Com o modelo do crowdfunding (financiamento colaborativo) artistas passaram a ter a possibilidade de publicar suas obras, novas editoras surgiram, e até mesmo as de médio porte ganharam uma excelente ferramenta de pré-venda, reduzindo quase que totalmente os riscos de uma publicação sem resultados.

Como bem lembra Sidney Gusman, jornalista especializado em histórias em quadrinhos, editor-chefe da Mauricio de Sousa Produções e um dos profissionais que mais acompanha a produção de HQs no país, “hoje esse é certamente um caminho sem volta”.

“É preciso evitar erros na produção e na entrega do produto”, alerta Sidney Gusman

“A influência do Catarse é vital. Foi uma maneira que os autores independentes encontraram de financiar suas obras enquanto ainda estão sendo produzidas”, lembrou.

O advogado, leitor e colecionador de quadrinhos há mais de 20 anos, Thiago Ribeiro, diz que conheceu o Catarse logo em seu lançamento, na época uma plataforma que editoras menores utilizavam para viabilizar alguns projetos, mas não cheguei a apoiar nada neste primeiro momento. “Porém, isso mudou após conhecer a campanha da Editora 85 para lançar Dampyr, título da Bonelli, a casa de Tex. A partir dessa campanha fui apoiando mais e mais projetos dentro do Catarse”, lembra.

 

Como funciona?

Resumidamente, pode-se dizer que o sistema acontece da seguinte forma: o interessado prepara um projeto, faz a publicação no site do Catarse “vendendo” a ideia da melhor forma possível, com imagens e/ou vídeos, tudo devidamente explicado, e determina o valor do apoio, baseado nos custos que terá para produzir o material. As propostas ficam no ar durante um período para que os interessados possam apoiar e com isso já garantir o exemplar antecipadamente.

Concluído o período, e obtido o sucesso esperado, o autor do projeto tem prazos estipulados pelo Catarse para concluir a obra e fazer o envio a todos os apoiadores. Por esse serviço, o site cobra 13% do valor arrecadado durante a campanha.

Sidney Gusman reforça que é muito importante seguir corretamente todas essas etapas. “É fundamental evitar alguns erros, na produção e na entrega do produto. Isso vale para os pequenos, como também para as editoras já estabelecidas”, conta.

Para aumentar as possibilidades de sucesso, os autores criam pacotes promocionais onde oferecerem, além da obra principal, outros livros já publicados, artes originais, entre outros produtos ligados ao tema.

Algumas pessoas criticam o fato de editoras também utilizarem o Catarse, argumentando que deveria ser usado apenas pelos autores que não dispõe de capital para produção de suas obras.  O advogado Douglas Freitas, um dos sócios da Skript Editora, ao lado de Diego Moreiau e Johnny C. Vargas, explica que na verdade o Catarse oferece ferramentas para ambos os lados, disponibilizando mais de uma modalidade de financiamento coletivo.

“Nós, da Skript, sempre utilizamos a modalidade Flex (Flexível), ou seja, mais como uma espécie de pré-venda. O material será publicado independente do quanto for arrecadado durante a campanha. Já o editor mais independente, aquele que necessita realmente do valor dos apoios para imprimir seu trabalho, usa a modalidade ‘Tudo ou Nada’”, esclarece. Neste último caso, se o projeto não alcançar 100% do necessário, o próprio Catarse se encarrega de fazer a devolução de cada valor pago pelos apoiadores.

Douglas, da Skript, lembra que o Catarse oferece modalidades que contribuem com autores e editoras

Douglas cita ainda uma terceira modalidade, que é a “recorrente”, utilizada principalmente por produtores de conteúdo, como é o caso dos sites Universohq.com, Quintacapa.com.br e do canal do youtube 2 quadrinhos. É chamado desse forma porque o apoio pode ser dado mensalmente, e os valores ajudam a cobrir os custos do trabalho realizado.

Taína Lauck, da Tai Editora, também considerada o Catarse uma peça fundamental na engrenagem que sustenta o mercado de artistas e editoras independentes, principalmente no universo dos quadrinhos.

“A Tai Editora tornou-se um projeto viável devido à existência dessa plataforma de financiamento coletivo e o bom uso que temos feito da mesma. Digo isso porque é preciso entender seu funcionamento, assim como compreender o público apoiador que se junta à causa de viabilizar os mais distintos projetos. Do contrário, você não terá sucesso na plataforma. Hoje, com mais projetos em andamento e com a plataforma mais reconhecida é preciso planejar a pré-campanha, o lançamento e o pós-campanha, tendo que ter um esforço maior para ter o mesmo resultado de pouco tempo atrás. Usamos a plataforma desde 2019 e não tenho do que reclamar”, destacou. Taína garante que também é apoiadora e adora descobrir novos artistas por lá.

Taína, da Tai Editora, define o Catarse como fundamental para o mercado de quadrinhos atual

 

Organização e planejamento

O ilustrador e quadrinhista gaúcho, Thiago Krening, que recentemente publicou o quadrinho “Um Lugar do Caralho”, junto com editora e galeria Hipotética, através do Catarse, confirma que o site é uma ferramenta excelente, mas ressalta que exatamente como “uma ferramenta”, precisa ser bem trabalhada para ter bons resultados.

“Dificilmente eu conseguiria publicar alguns projetos meus se não fosse o Catarse. Todo mundo sabe o quanto são altos os custos de impressão e distribuição, e ter esse valor antecipadamente ajuda demais. Até poderia publicar através de alguma editora, mas com certeza seria bem mais difícil. O único detalhe é que não se pode achar que é só colocar o projeto no site e está resolvido, e daí é só pegar o dinheiro depois. Pelo contrário, dá muito trabalho, principalmente porque hoje temos uma grande quantidade de bons projetos concorrendo”, destaca.

Entre as recomendações do artista para que um projeto tenha sucesso estão “organização” e “planejamento”. “Precisa estar bem organizado para gerar confiança no leitor. Pensar nos brindes, nos valores, se vai ter desconto, todas essas coisas. E depois que está no ar, a gente gasta um tempo grande fazendo propaganda, fazendo contato com as pessoas, mandando release para imprensa especializada, fazendo a coisa acontecer”, disse.

Sobre a etapa final, Thiago faz questão de lembrar que o trabalho só aumenta. “Tem a produção final, impressão e a parte logística de empacotar tudo, mandar para cada um dos apoiadores. E ainda acontece de ter alguns com endereços que não foram atualizados e os envelopes acabam voltando, e ai temos que dar um jeito de descobrir o endereço novo porque ninguém pode ficar sem receber. Na verdade, a gente vai aprendendo com os erros e aprimorando”, avalia.

“Se não fosse o Catarse, provavelmente alguns dos meus projetos não teriam acontecido”, destaca Thiago

 

Além dos quadrinhos

Vale lembrar que, além do pessoal dos quadrinhos, o Catarse tem contribuído com o trabalho de milhares de músicos, cineastas, gamers, designers, jornalistas pesquisadores, cientistas, empreendedores, ativistas e artistas utilizaram a ferramenta para realizar suas ideias com a colaboração financeira direta de pessoas.

 

Como foi criado

O Cartarse foi gerado por amigos na faculdade em São Paulo, os administradores recém-formados Diego Reeberg, de Paranavaí (PR), e Luis Otávio Ribeiro, de Uberaba (MG), e depois com a participação do desenvolvedor Daniel Weinmann, de Porto Alegre, que trabalhava na mesma ideia. Em vez de se fecharem para não correr o risco de alguém copiar os seus planos, o grupo fez exatamente o oposto.

Juntos criaram o blog Crowdfunding Brasil e começaram discutir abertamente a ideia de criar um site de financiamento coletivo no país. Logo, chamaram a atenção dos irmãos Rodrigo Machado e Thiago Maia, um jornalista e um designer do Rio de Janeiro, que se preparavam para lançar a plataforma Multidão. De novembro de 2010 a março de 2011, testaram o mercado de diferentes formas, ainda trabalhando de forma separada, mas sempre em comunicação e conversando sobre a junção total dos grupos.

 

Catarse em números

974.799

Pessoas já apoiaram pelo menos 1 projeto no Catarse

R$197 milhões

Foram direcionados a projetos publicados no Catarse

17.797

Projetos já foram financiados na plataforma

 

 

 

 

 

Marcelo Costa
Jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí com mais de 20 anos de atuação na área, sempre com destaque para área cultural, principalmente no campo das histórias em quadrinhos, cinema e séries.