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Belo E Disruptivo, “Escória” Traz O Melhor De Carlos Trillo E Juan Giménez

Para que tudo fique na mesma, é preciso que tudo mude“. Essa citação do clássico “Il Gattopardo“, de Lampedusa, reverberou em minha cabeça após a leitura do espetacular álbum gráfico “Escória” (Editora Comix Zone, 56 páginas, R$ 64,90), fruto da genialidade de dois argentinos, Carlos Trillo e Juan Giménez.

Aqui, conhecemos uma realidade pós-apocalíptica, imunda e decrépita, onde homens rastejam entre ruínas e se alimentam dos dejetos que chegam da Cidade Branca, uma cidadela que preserva uma elite detentora dos melhores recursos e que mantém uma qualidade de vida infinitamente superior.

Certo dia, um deles é condenado por violar o zeitgeist deste novo mundo, tendo como punição seu exílio em meio à escória inferior. Mal desconfiava que seu traje despertou, naqueles vistos como “animais”, crenças ancestrais num salvador que chegaria para mudar o estado das coisas.

Tomando ciência do papel que lhe atribuíram, ele logo anunciou uma rebelião contra a Cidade Branca, usando a seu favor o conhecimento dos mecanismos e recursos tecnológicos que a sustentam. E assim se deu início ao levante dos rejeitados em nome da vingança. Mas estaria ele realmente disposto a reconhecer-se como o messias ou seus interesses em jogo seriam puramente egoístas?

O roteiro de Trillo é dinâmico e oferece explicações pontuais sobre como a humanidade teria chegado a tal condição, focando na ação em curso. Interessante como, mesmo entre os que viviam na escória, houvesse castas e discriminações, com a reunião em torno do “enviado” e sua missão evocada de modo providencial por ele próprio.

Mas o destaque principal vai para a arte de Giménez. Rica em detalhes, constrói tanto paisagens infames (o odor fétido dos que se alimentam nos esgotos chega mesmo a exalar das páginas) quanto etéreas, a exemplo dos vislumbres que temos da Cidade Branca; despendendo o mesmo esforço ao imaginar maquinários gigantescos e complexos.

Os rostos ordinários da escória, em oposição às feições que habitam o ambiente insípido da Cidade Branca e seus habitantes, colaboram para guiar a empatia do leitor, ciente à medida que a trama avança do destino infeliz imposto às massas, iludidas pelos melhores propósitos que, ao fim, servem apenas para ampliar o fosso simbólico entre as gentes. Entretanto, a fagulha da revolução, agora acesa, não se mostra mais passível de apagar. É de fato uma leitura provocadora.

 

Rafael Machado
Parnaibano, leitor inveterado, mad fer it, bonelliano, cinéfilo amador. Contato: rafaelmachado@quintacapa.com.br